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Análise

Entre Corbyn e Boris, a escolha impossível

“Os principais partidos puseram a pureza ideológica à frente do que é melhor para a Grã-Bretanha. Nenhum pode merecer o nosso apoio.” É o dilema do Financial Times e é o dilema, provavelmente, de muitos eleitores.

1. Talvez nunca como hoje tenham sido tão difíceis as escolhas dos eleitores nas segundas eleições legislativas desde o referendo que radicalizou de forma quase absoluta a vida política britânica. De um lado está Boris Johnson, cuja personalidade no mínimo controversa incomoda muita gente do lado de lá da Mancha. A sua fiabilidade é escassa, dizem quase todos os estudos de opinião. Já ninguém tem grandes dúvidas de que a sua carreira política foi e é movida por um único objectivo – entrar (e ficar) no número 10 de Downing Street -, muito mais do que por qualquer convicção sobre o destino do seu país.

A sua campanha centrou-se num único tema, que foi igualmente o único da sua ascensão ao poder: resolver o “Brexit” de uma vez por todas. De resto, o seu programa eleitoral moveu-se quase sempre ao saber das conveniências, de forma a não perturbar a ideia central: “Get Brexit done.” Para um eleitorado visivelmente cansado do tema que domina a vida política desde Junho de 2016, pode ser fácil mobilizar os britânicos neste sentido. Já não se trata tanto de escolher entre o leave e o remain, mas de tirar o “Brexit” do caminho.

A proposta do Labour de sujeitar um novo acordo de saída, que promete negociar em três meses, a um segundo referendo, é suficientemente vaga para conseguir o mesmo efeito mobilizador. Arrisca-se a ser vista por muitos eleitores como mais do mesmo a que tiveram direito nos últimos três anos, embora seja o derradeiro obstáculo que os remainers podem pôr no caminho do quase inevitável divórcio da União Europeia.

A alternativa apresentada pelos liberais-democratas é, de algum modo, o inverso de Boris Johnson: propõem a revogação pura e simples do Artigo 50.º, que accionou o processo de saída em Bruxelas. É ignorar o resultado de um referendo sem propor outro para anular o primeiro. Levanta imensas objecções, incluindo a sua legitimidade democrática. Em vez de subirem nas intenções de voto, os liberais-democratas têm estado constantemente a descer, também esmagados por um sistema eleitoral uninominal a uma volta que torna difícil a consolidação de uma terceira força. “Não há cavalaria centrista para resgatar [o eleitorado moderado]”, escreve Robert Shrimsley no Financial Times. Mas apenas “a hierarquia entre dois horrores”.

2. Jeremy Corbyn, provavelmente o líder mais à esquerda da história do Labour, manteve sobre o “Brexit” uma constante ambiguidade que alguns justificam pelo facto de o eleitorado tradicional do seu partido se dividir entre os que querem sair e os que querem ficar, mas que tem razões bastante mais profundas.

Se, para Johnson, o “Brexit” é um caminho para chegar ao poder – se fosse o contrário, certamente que seria o mais convicto defensor do remain –, para Corbyn é uma convicção ideológica profunda. Sempre foi, desde os anos em que se iniciou na vida política. Ninguém o pode acusar de incoerência. Apenas pode ser acusado de ter levado o seu partido para uma visão da Grã-Bretanha e do mundo que pensávamos ter ficado definitivamente lá atrás, nos anos 60 e 70. Quis fazer da economia o tema central da campanha com um vasto programa de nacionalizações ou o aumento do investimento público até um nível incomportável. Não há nada que não prometa tornar gratuito.

Depois dos tempos da austeridade, que se seguiram à falência dos bancos e à intervenção maciça do Governo para os salvar com o dinheiro dos contribuintes, os britânicos nem sequer se mostram particularmente adversos às nacionalizações ou à penalização fiscal dos ricos e das empresas. Mas o que as sondagens também revelam é que uma larga maioria não acredita na capacidade de Corbyn para governar o Reino Unido. Num país que historicamente prefere as reformas às revoluções, o líder do Labour tem, porventura, uma receita demasiado revolucionária ou demasiado sectária, e os eleitores parecem pressenti-lo.

3. Mas as consequências não seriam apenas internas. Uma vitória de Corbyn poria em causa os compromissos internacionais do Reino Unido desde a II Guerra. Com a União Europeia, mesmo estando fora, com a NATO mesmo estando dentro, com a aliança primordial com os EUA, que tem determinado a política externa britânica desde o pós-guerra. Numa palavra, o mundo ocidental, que hoje enfrenta uma crise de destino perante a emergência de grandes potências autoritárias ou totalitárias, sofreria um rombo num dos seus pilares até hoje mais resistentes. No médio prazo, seria uma catástrofe para o Reino Unido e seria muito mau para a Europa.

Do ponto de vista europeu, Boris também levanta muitos problemas, mas de uma ordem totalmente diferente. Suspeita-se em muitas capitais que possa vir a usar a “libertação” das regras da União Europeia para alimentar uma concorrência desleal. Tudo isso terá de ser negociado no acordo de associação entre Londres e Bruxelas, depois de consumado o divórcio. A Europa também tem argumentos de peso para levar os britânicos a uma solução equilibrada, se não quiserem ficar nas mãos dos Estados Unidos.

4. As eleições em democracia são normalmente uma escolha do “menor dos males” e não do “maior dos bens”. Há excepções, quando o que está em causa é demasiado importante – e o que está em causa nestas eleições é demasiado importante –, ou quando, como com Obama, há um líder que consegue fazer as pessoas sonhar. Mas, no geral, não é assim e ainda bem, porque isso tem ajudado a manter um razoável equilíbrio ao centro, que torna as escolhas aceitáveis para quase toda a gente, seja quem for que ganhe. Ora, é essa realidade que hoje se está a perder – que se perdeu no Reino Unido, onde menos se esperava que isso viesse a acontecer, que aconteceu na grande democracia americana e que começa a acontecer na Europa. Primeiro com a radicalização à direita, agora com uma tendência para a radicalização também à esquerda.

5. “Em eleições passadas, o Financial Times distribuiu o seu apoio pelos conservadores ou por um Labour moderado. Desta vez, os principais partidos puseram a pureza ideológica à frente do que é melhor para a Grã-Bretanha. Nenhum pode merecer o nosso apoio.” É o dilema do jornal e é o dilema, provavelmente, de muitos eleitores. Logo à noite se saberá qual dos dois líderes consideraram o “mal menor”. Ontem, ainda estava quase tudo em aberto.