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Opinião

A cómica tragédia de Boris Johnson

Boris não quer um no deal. O que ele quer é conseguir o que Theresa May não conseguiu: fazer aprovar no Parlamento o acordo que ela negociou com a UE por ser apresentado como a última hipótese de evitar o no deal.

Isto do “Brexit” leva à paranóia até os mais desinteressados observadores. Imagine-se o que faz aos interessados, como eu.

Aqui vai, sem apostar um cêntimo que seja verdade, o que penso sobre a estratégia de Boris Johnson. Para os ingleses os unionistas da Irlanda do Norte são uns chatos. Se pudessem ser sinceros e pudessem deixar de falar do Reino Unido (uma possibilidade cada vez mais próxima) há muito que teriam lavado as mãos da Irlanda do Norte.

Que lhes importa aquele território? Nada. A Irlanda é uma ilha. Deve, merece, ser unida – outra possibilidade cada vez mais próxima, como é também a independência da Escócia. Johnson quer apaziguar os unionistas quando diz que não quer uma fronteira dura entre a Irlanda do Norte e a Irlanda. Mas a verdade é que não se importa que haja uma fronteira. Quer é poder culpar a União Europeia (UE) e poder dizer “mais não podíamos fazer”.

E agora vem a parte engraçada. Boris não quer um no deal. O que ele quer é conseguir o que Theresa May não conseguiu: fazer aprovar no Parlamento o acordo que ela negociou com a UE por ser apresentado como a última hipótese de evitar o no deal.

Faz isto porque concederá o inevitável: que tem de ser forçosamente dura uma fronteira entre um país fora da UE (a Irlanda do Norte) e outro dentro da UE (a Irlanda). No fundo o que Boris quer fazer é agradar à UE, removendo o obstáculo teimosamente defendido por Theresa May. Mesmo que o Parlamento, maioritariamente contra o no deal, continue a rejeitar o deal dela, ele terá amenizado os ânimos da UE e poderá negociar com ela uma série de proximidades que, parecendo à luz do “Brexit”, acabarão por ser uma satisfação parcial dos remainers.

Isto parece complicado porque é. Mas simplifica-se bem: Boris quer agradar a gregos e troianos e está disposto a tudo para tentar essa desmedida ambição. Claro que não conseguirá. Mas divertir-se-á tentando, custe o que custar a toda a gente. É por isso que é uma tragédia: porque só é uma comédia para ele.