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Entrevista

“A combinação entre tribalismo nas redes sociais e nos media britânicos é tóxica”

Samantha North analisou mais de nove milhões de tweets e registou enormes índices de hostilidade e linguagem agressiva entre brexiteers e remainers no Reino Unido. Tendência alastrou para estas eleições e prejudica o debate público.

Manifestação anti-"Brexit" em Londres Reuters/FRANCOIS LENOIR

Em vésperas de novas eleições e três anos e meio volvidos do referendo do “Brexit” e com um cansativo – e, até ver, irresolúvel – processo político de saída da União Europeia, o Reino Unido está cada vez mais dividido em dois. E uma importante componente dessa batalha, entre brexiteers e remainers, joga-se, ainda e cada vez mais, nas redes sociais. Samantha North, investigadora da Universidade de Bath e especialista em desinformação e tribalismo político online, quis saber mais sobre este braço-de-ferro particular e sobre o impacto do referendo no debate político britânico no Twitter.

O projecto em que está envolvida ainda decorre e conta com uma base de dados composta por mais de nove milhões de tweets, recolhidos durante 32 meses. Material mais do que suficiente para North registar um crescimento significativo dos níveis de hostilidade entre os dois grupos e assumir que a cultura tribal veio para ficar e que está a ser acolhida pela classe política britânica.

Crítica de Boris Johnson, a investigadora acredita que a sua estratégia para o divórcio da UE fará com que “as divisões durem, pelo menos, uma geração inteira”, e defende a proposta de Jeremy Corbyn para levar o acordo do “Brexit” a referendo.

Como se manifesta o tribalismo político na discussão online do Reino Unido?
O conceito de tribalismo político é tratado pelas teoria clássicas comportamentais da psicologia. É um tipo concreto de conflito entre grupos específicos de pessoas, que tem a discussão política como objecto central. Identificamo-lo claramente no mundo das redes sociais, particularmente no Twitter. No contexto da realidade política britânica é possível identificar dois grupos concretos em confronto, que representam os dois lados do referendo do “Brexit” [2016] – leavers e remainers – e que têm um relacionamento de enorme hostilidade entre eles. Entretanto surgiram algumas “subtribos”, que cresceram nestas eleições. No campo remainer já há uma divisão entre as pessoas que, por um lado, apoiam a posição neutral de Jeremy Corbyn [líder do Partido Trabalhista] sobre o “Brexit” e as que, por outro lado, preferem os Liberais Democratas e o seu plano de simplesmente cancelar a saída da União Europeia. Entre estes dois grupos também há já bastantes sinais de tribalismo.

No seu estudo – Battle for Britain: Analysing drivers of political tribalism in online discussion about Brexit – argumenta que o tribalismo redefiniu a paisagem política britânica. O referendo do “Brexit” foi catalisador ou consequência?
O que esteve em causa no referendo foi a apresentação de uma solução binária para uma pergunta complexa, da qual só poderia haver um de dois desfechos – “sim” ou “não” à Europa. E estando em jogo uma questão tão importante, que mexe com posicionamentos identitários de tanta gente, era inevitável que a sua principal consequência fosse a acomodação das pessoas num ou noutro lado. O referendo ajudou a criar esta divisão e as redes sociais contribuíram para que o tribalismo se tenha agravado.

Olhando para o favoritismo de Boris Johnson, podemos dizer que o movimento online pró-“Brexit” é mais eficiente do que o remainer?
A nossa investigação baseou-se na identificação de duas palavras-chaves – brexiteer e remainer – que, ao longo dos últimos anos, foram utilizadas com a mesma frequência, ou seja, no que ao diálogo no Twitter diz respeito, ambos os campos tiveram presença e influência semelhantes. A maior diferença está, no entanto, na frequência com que um e outro grupo utilizam linguagem insultuosa e agressiva: nesse aspecto, é mais proeminente junto dos apoiantes do “Brexit”​ contra os remainers. Mas isso não significa, necessariamente, que os brexiteers sejam mais tribais. Provavelmente, e tendo em conta as divisões no lado remainer, estão é organizados de forma mais consistente em redor de uma só mensagem.

Dado a importância crescente e, aparentemente, duradoura, das redes sociais na vida política, a tendência será para que os candidatos se transformem em produtos desse tribalismo online, ou não?
É difícil prever para que direcção vão caminhar as redes sociais. Mas pensando em termos daquilo que é a natureza humana, não há grandes dúvidas de que o tribalismo é intrínseco ao ser humano, é uma componente importante da psicologia. Nunca vai desaparecer. As redes sociais dão-lhe mais poder e mediatismo. No Reino Unido há ainda o problema de os media tradicionais serem, maioritariamente, tribais. Há décadas que o são. Esta combinação, entre tribalismo nos media e nas redes sociais, é tóxica.

O seu trabalho leva-nos para a eterna discussão sobre o impacto das redes sociais na qualidade do debate público. Por um lado, há mais trocas de ideias, mas, por outro, a mentalidade de trincheira é cada vez mais comum…
Uma das principais consequências das redes sociais é que as pessoas se habituaram a interagir e passar imenso tempo com pessoas que concordam com elas. Convivem demasiado dentro das suas próprias bolhas e estão cada vez menos dispostas a procurar compreender e a tentar reflectir sobre visões contrárias. Essa mentalidade tem efeitos muito negativos para o debate público, ao ponto de as pessoas serem, actualmente, mais bem-educadas umas com as outras quando estão offline, quando se encontram cara a cara [risos]. O Twitter é a rede social mais propícia a esses contactos entre lados opostos, mas as interacções que se verificam têm, na maioria dos casos, um só objectivo para o utilizador: sair vencedor de uma discussão e conseguir que o outro lado seja visto como perdedor. 

Samantha North é investigadora na Universidade de Bath (Reino Unido) DR

As campanhas de disseminação de desinformação e de notícias falsas tiveram um impacto significativo no referendo. Os britânicos estão mais conscientes sobre essa realidade nestas eleições?
As pessoas estão mais conscientes sobre o mundo online, mas ainda há muita desinformação. E acredito que a desinformação se vai tornar cada vez mais sofisticada com o tempo. Isso nota-se claramente no campo dos defensores indefectíveis de Boris Johnson e do Partido Conservador, que não têm problemas em partilhar notícias falsas sobre Corbyn, por exemplo. É claro que o contrário também acontece, ainda que menos. Corbyn tem uma base de apoiantes muito extremada. O Momentum [movimento que fez campanha por Corbyn nas primárias trabalhistas de 2015] é frequentemente acusado de ofensas online e de utilizar tácticas agressivas. Mas Corbyn, enquanto líder político, é constantemente alvo de campanhas perniciosas. As acusações de anti-semitismo ao Labour são o maior exemplo. Como muita gente de esquerda, também ele é crítico da política israelita contra a Palestina. Mas as acusações de que tem sido alvo são extrapoladas e desproporcionais.

Assistindo às tensas sessões dos últimos meses na Câmara dos Comuns ou olhando para o caso da conta de Twitter do Partido Conservador que mudou de denominação para FactcheckUK durante o debate televisivo entre Corbyn e Johnson, podemos concluir que os partidos acolheram esta cultura tribal?
Sem dúvida. Johnson é um exemplo claro do que a polarização pode trazer para a política. Basta lembrar que Dominic Cummings [estratego da campanha do leave no referendo, denunciado por obstrução ao Parlamento por uma comissão que investigava a disseminação de notícias falsas] foi escolhido para seu assessor. Não há dúvida de que os mesmos métodos duvidosos que utilizou no referendo estão a ser replicados na campanha eleitoral do Partido Conservador. 

A narrativa tory do “Parlamento vs povo”, na questão do “Brexit” nasce dessa estratégia?
Infelizmente, sim. O homicídio de Jo Cox [deputada trabalhista assassinada por um nacionalista com problemas mentais e ligações à extrema-direita em 2016] foi a consequência mais dramática e terrível de como esse tipo de estratégia tribal, de pôr as pessoas contra os deputados, pode ser muito perigoso.

Acredita – como defende Johnson – que só realizando o “Brexit” é que o Reino Unido pode sarar as feridas?
Não acredito que seja possível. O tipo de “Brexit” que Johnson está a propor implica a perda de direitos e de apoios sociais e o fim da liberdade de circulação, entre outros aspectos. As pessoas que vão perder mais com esta solução nunca irão sentir-se confortáveis ou sequer perdoar aos líderes responsáveis por essas mesmas perdas. As divisões do “Brexit” vão durar, pelo menos, uma geração inteira, principalmente se seguirmos o caminho que nos é apontado por Johnson. Por outro lado, há a posição de Jo Swinson [líder dos Liberais Democratas], que acredita que a revogação do artigo 50.º é mais adequada do que um segundo referendo para apaziguar o país. Também não acredito que seja o mais indicado para suavizar as divisões existentes.

Ainda assim, Johnson é claramente favorito.
Neste país as sondagens não funcionam como um mero indicador das intenções de voto, mas como autêntica propaganda, que, em determinados casos, dá a entender que um candidato é mais ou menos popular do que é na realidade. Muitas das empresas de sondagens no Reino Unido pertencem a militantes ou pessoas próximas do Partido Conservador. Acredito que o resultado vai ser mais renhido do que parece.