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Pode a cimeira da NATO ainda ser um sucesso depois do choque inicial entre Trump e Macron?

Stoltenberg planeou uma reunião curta num espaço tranquilo para contrariar a imagem de uma Aliança em convulsão. Mas o duelo entre os Presidentes dos EUA e da França deixou bem claras as divisões.

Donald Trump não precisou de muito tempo para desfazer a coreografia que foi montada para a cimeira de líderes da NATO, esta quarta-feira nos arredores de Londres. Pouco depois de aterrar na capital britânica, e várias horas antes do arranque do programa social do encontro, na terça-feira à noite, o Presidente dos Estados Unidos ignorou o guião — de consenso e unidade — proposto pelo secretário-geral, Jens Stoltenberg, e fez imediatamente estalar o verniz, atirando-se ao já famoso comentário de Emmanuel Macron sobre a “morte cerebral” da Aliança Atlântica. 

“É uma declaração dura. E muito, mas muito antipática, especialmente para 28 países”, lamentou o Presidente norte-americano, referindo-se aos parceiros da Aliança que este ano comemora o 70.º aniversário. “Eu sei que ele teve um ano mau em França, que atravessa grandes dificuldades económicas, e por isso se pôs a taxar os produtos dos outros países, mas não pode andar a fazer declarações como esta sobre a NATO. É um desrespeito, é um insulto”, criticou Trump, que não se importa de misturar alhos com bugalhos e já não se deve lembrar das coisas que ele próprio disse sobre a suposta obsolescência da NATO.

Sem dúvida que o Presidente dos Estados Unidos apagou esses comentários da memória. E também esqueceu que na cimeira de 2018, em Bruxelas, foi ele que lançou a confusão e provocou o ranger de dentes, ao casualmente insinuar que existia uma possibilidade de retirar o seu país da NATO, por causa do “mau comportamento” dos restantes parceiros.

Mas num ano muita coisa acontece, e em 2019 Donald Trump está convertido no principal defensor da reputação da NATO perante os ataques “rudes” de Emmanuel Macron. Que não se ficou, nem se explicou: “Sei que os meus comentários causaram alguma sensação e reacção, mas não retiro uma palavra àquilo que disse”, afirmou o Presidente de França no fim da sua reunião bilateral com Trump, que o olhava de soslaio.

Era a imagem da tensão e da discórdia que Stoltenberg tanto quis evitar. Foi precisamente para evitar o pandemónio do ano passado que o secretário-geral da NATO decidiu “despromover” o reunião anual que junta os chefes de Estado e Governo da Aliança Atlântica, chamando-lhe “encontro de lideres” em vez de cimeira. A reunião de trabalho, curta, não vai além de três horas — passadas num luxuoso hotel plantado num vasto campo de golfe dos arredores de Londres.

O objectivo era óbvio: acalmar os ânimos, baixar a temperatura, desfazer a tensão, impedir a confrontação e promover a harmonia. Em suma, contrariar o retrato pintado por Emmanuel Macron na sua agora célebre entrevista à revista The Economist, de uma aliança disfuncional, consumida pelas idiossincrasias dos seus líderes e a caminhar para a irrelevância política.

Ao ouvir Trump atacar as palavras “desagradáveis” do Presidente francês, o secretário-geral da NATO procurou desviar a conversa e apontar para a subida sustentada da despesa militar dos países que integram Aliança — um “sucesso” que o líder da Casa Branca reclamou ser fruto da sua intervenção. “Fizemos progressos notáveis”, concordou Stoltenberg. “Estamos claramente no bom caminho, mas não podemos ser complacentes, devemos manter a mesma dinâmica”, defendeu.

Quem concorda com quem

Só que com os holofotes virados para o combate ideológico entre Trump e Macron, as eventuais polémicas ligadas ao chamado “burden sharing” (o esforço financeiro e operacional de cada um dos aliados) tornaram-se uma nota de rodapé. A preocupação dos líderes da NATO não é tanto saber quem paga quanto e para quê, mas antes quem concorda com a opinião do Presidente francês e quem se mantém do lado dos Estados Unidos, a única superpotência militar do Ocidente.

Na breve aparição aos jornalistas após o encontro bilateral, a divergência entre Trump e Macron manifestou-se em quase todas as respostas a perguntas sobre os tópicos da agenda. Muito criticado pela sua decisão de retirar as tropas norte-americanas que davam apoio à coligação anti-Assad na Síria, Donald Trump quis saber de Macron se comprometia a receber em França os combatentes que se juntaram ao Daesh. “Pode ficar com quantos quiser”, assegurou, motivando uma resposta irritada do francês. “Vamos lá ser sérios”, pediu Macron, vincando que o interesse da França, como dos restantes membros da NATO, sempre foi derrotar o Daesh. “Lamento ter de dizer, mas isso ainda não aconteceu”, acrescentou, numa referência à declaração de Trump de missão cumprida na Síria.

Os dois voltaram a chocar quando falaram sobre a Turquia — Macron exige esclarecimentos ao Presidente Recep Tayyip Erdogan, para quem Trump só tem elogios — e sobre a Rússia.

“O Presidente da Turquia vai ter de nos explicar como é possível ser membro da NATO e andar a comprar [sistemas aéreos de defesa anti-míssil] S-400 aos russos”, disse Macron. O seu incómodo com o comportamento de Erdogan não é partilhado por Trump. “Eu gosto da Turquia, um excelente membro da NATO, e dou-me muito bem com o Presidente”, contrapôs, elogiando o “grande apoio” do Governo de Ancara durante o raid que culminou na morte do líder do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi. “Não podiam ter sido mais simpáticos”, considerou Trump.

Santos Silva optimista

Neste ambiente, é difícil ver como os líderes poderão declarar o seu encontro de quarta-feira um sucesso. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, acredita que sim. “Podemos ter diferenças de tom, diferenças de estratégias comunicacionais, mas convergimos no essencial e a declaração política que vamos assinar vai sublinhar essa convergência”, antecipou, esta terça-feira em Londres.

“O projecto de declaração política a que chegámos é muito rico, define com clareza o essencial, que é manifestar o empenho de todos na Aliança e chamar a atenção para os elementos do ambiente de segurança em que ela se move, designadamente a luta comum contra o terrorismo internacional, as questões da emergência de novas potências e a aposta na estratégia de duplo registo com a Rússia, ao mesmo tempo assegurando a dissuasão necessária e envolvendo-nos num diálogo político com Moscovo”, revelou Santos Silva.