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Cimeira do G7: Macron e Trump prometem debater tudo sem tabus

Da Rússia às alterações climáticas, passando pelo comércio internacional e pelo Irão, a reunião das sete democracias mais ricas do mundo promete decorrer em clima de controvérsia. Com Trump terá de ser assim.

Emmanuel Macro em Donald Trump em Paris, em 2017 Reuters

Emmanuel Macron já anunciou que abdicava do tradicional comunicado final da cimeira do G7, que reúne as sete democracias mais ricas do mundo, e que este sábado tem inicio em Biarritz sob presidência francesa. A notícia nem sequer surpreende. Já foi muito difícil negociar um texto comum na última cimeira do G7, no Canadá, em Junho do ano passado, e o esforço nem sequer valeu a pena. Pouco depois de ter abandonado a reunião, o Presidente americano retirou a sua assinatura do comunicado, porque não gostou do que disse o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, durante a conferência de imprensa final.

O clima em que se realiza esta cimeira não é melhor. Crescem os receios de uma forte desaceleração da economia global e multiplicam-se os focos de tensão internacional, sem que se vislumbre a possibilidade de ultrapassar pelo menos algumas das divergências que opõem a generalidade dos membros do G7 a Donald Trump. O Presidente americano diverge profundamente dos seus pares em duas questões que hoje são fundamentais: as alterações climáticas e o comércio. Nos pontos quentes da agenda internacional nem sempre é fácil um entendimento entre os EUA e a Europa. Nada permite admitir que, desta vez, será diferente. Mesmo assim, o Presidente francês optou por não evitar os temas mais polémicos, mesmo que para isso tenha de abdicar de um consenso. Ele próprio referiu que mais valem compromissos parcelares, ou “coligações de vontade” entre uma parte dos membros do G7 do que um documento final sem qualquer significado. Numa longa conversa telefónica com o seu homólogo americano, que precedeu a cimeira, ambos acordaram discutir “todos os tópicos sem tabus”.

Na sexta-feira, o Presidente francês informou os seus pares de que haveria mais um tema na agenda: os incêndios na Amazónia, classificando-os de “crise internacional”. A questão tornou-se incontornável, até porque alguns dos países do G7, com a Alemanha à cabeça, são financiadores de um fundo destinado à preservação deste “pulmão” da Terra com uma capacidade inigualável de captação de CO2, que está hoje em risco. Também aqui, a resposta de Trump é imprevisível. O Presidente retirou os EUA dos Acordos de Paris sobre o clima e não tem particular sensibilidade ao assunto.

G7 ou G8?

A Rússia será outro ponto controverso. Tal como aconteceu na véspera da cimeira do Canadá, o Presidente americano voltou a defender o regresso da Rússia ao grupo, que chegou a ser G8 de 1998 até 2014, depois de Bill Clinton a ter convidado a entrar, para incentivar a sua aproximação ao Ocidente e o caminho para a democracia - o que não aconteceu. Em, 2014, os sete países fundadores decidiram suspender a Rússia, já não de Boris Ieltsin mas de Vladimir Putin, por tempo indeterminado na sequência da intervenção militar no Leste da Ucrânia e da anexação da Crimeia. Trump argumenta que “muitas das coisas que discutimos têm a ver com a Rússia”.

Num gesto de boa vontade, Macron convidou o seu homólogo russo para um encontro na segunda-feira passada, na sua residência de férias em Brégançon. Não houve, todavia, qualquer sinal de que Putin tencione rever a sua posição sobre a Ucrânia, mesmo que tenha admitido a possibilidade de uma cimeira sobre o conflito no chamado “formato Normandia”, reunindo os líderes da Rússia, Ucrânia, Alemanha e França.

Trump deu a entender, na quinta-feira passada, que o seu homólogo francês estava de acordo com o regresso da Rússia ao G7. O Eliseu já fez saber que não é essa a posição da França. “É pertinente que, um dia, a Rússia possa regressar, mas a condição preliminar indispensável é que seja encontrada uma solução, em diálogo com a Ucrânia, com base nos acordos de Minsk, para resolver o assunto”, esclareceu o próprio Presidente francês. Trump não colocou quaisquer condições.

Na quarta-feira, durante a visita do primeiro-ministro britânico Boris Johnson à chanceler alemã Angela Merkel para debater o “Brexit”, ambos reiteraram que não havia condições para o regresso da Rússia ao seio da organização.  

Aliança ocidental?

Com a emergência da China como candidata a grande potência mundial e o revisionismo da Rússia em matéria de ordem internacional, o G7 parecia ter recuperado a sua função inicial: um fórum das grandes democracias mundiais para gerir da melhor maneira os principais desafios que enfrentam à escala global. Com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, este clima de união de valores e de interesses voltou a ser posto em causa, quando poderia fazer mais falta. “Vivemos um período histórico da ordem internacional marcado por uma crise profunda das democracias, tanto de representatividade como de eficácia”, para responder aos medos contemporâneos – “o medo climático, o medo tecnológico o medo das migrações”, disse Macron num encontro com a imprensa. Talvez por isso o Presidente francês tenha escolhido as desigualdades à escala nacional e global como o tema particular da cimeira. Haverá um ponto da agenda dedicado às relações com África, que são hoje uma prioridade da agenda europeia.

A questão iraniana

Também nesta sexta-feira, o Presidente francês reuniu-se com o chefe da diplomacia iraniana, Javad Zarif, para debater possíveis soluções destinadas a salvar in extremis o acordo nuclear e reduzir a tensão no Golfo Pérsico. Trump decidiu abandonar o acordo, impondo sanções cada vez mais duras ao Irão e regressando a uma política de confronto.

Macron não quis chegar a Biarritz de mãos vazias. A sua ideia é tentar aliviar o garrote das sanções sobre a economia do Irão, tendo como contrapartida o cumprimento das cláusulas do acordo e o alargamento do seu âmbito ao programa de mísseis balísticos de longo alcance que Teerão está a desenvolver, indo ao encontro de uma das pretensões de Washington. Terá algum sucesso?

Com Merkel em fim de mandato e a braços com uma acentuada desaceleração da economia alemã, com o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte demissionário, com Justin Trudeau em véspera de eleições e com Boris Johnson ainda a estrear-se no palco internacional, Emmanuel Macron joga a fundo o papel da França, nomeadamente na defesa de uma “ordem multilateral liberal” que está hoje seriamente ameaçada. “A França tem uma particular responsabilidade de o fazer, porque isso é vital para a Europa”, disse antes da cimeira de Biarritz, lembrando que a Europa está “em risco de definhar e perder a sua soberania ou, pior ainda, transformar-se num vassalo.” Admitiu que Trump não partilha desta convicção, mas também lembrou que esta é a quarta visita do Presidente americano a França – não foi tantas vezes a mais nenhum país.

Falta ainda saber para que lado cairá o novo primeiro-ministro britânico – para o dos seus parceiros europeus ou do Presidente americano? Trump não esconde a sua simpatia por Boris Johnson e por um “Brexit” em versão radical. O Governo britânico conta com a negociação rápida de um amplo acordo de comércio com o seu aliado transatlântico, que possa compensar as perdas nos mercados mundiais onde a União Europeia domina. Fontes da Casa Branca dizem que é possível que Boris e Trump venham a assinar em Biarritz uma “declaração sobre o comércio” que estabeleça os procedimentos e os objectivos de um futuro acordo de entre os dois países. Depois de uma passagem por Berlim e Paris de sucesso muito relativo, Boris Johnson vai estar sob os holofotes em Biarritz.