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Chipre na vertigem entre um acordo histórico e um desaire fatal

Representantes da Turquia, Grécia e Reino Unido juntam-se nesta quinta-feira em Genebra às duas delegações cipriotas para negociar a última peça do complexo puzzle diplomático. "É a última oportunidade" para reunificar a ilha, diz Juncker.

Um posto de controlo junto à "linha verde" que separa a iilha e divide a capital, Nicósia Yannis Kourtoglou/Reuters

Com o mundo em défice excessivo de boas notícias e a Europa a saltar de crise em crise, os olhos da diplomacia estão esta semana colados em Genebra para aquela que é descrita como uma “ocasião histórica” para reunificar Chipre e resolver um dos mais intrincados conflitos herdados do século XX. Não sem algum exagero, vários responsáveis insistem que esta pode ser a última oportunidade para chegar a um acordo entre as duas comunidades que dividem a ilha e esta quinta-feira as negociações atingirão o seu momento de verdade quando, pela primeira vez em 43 anos, representantes da Turquia participarem em negociações directas com as autoridades cipriotas-gregas.

A Turquia é, com Grécia e o Reino Unido, um das nações que desde a independência de Chipre, em 1960, tem o estatuto de “garante da integridade territorial e segurança” do país – uma posição que tornou bem clara quando em 1974 enviou milhares de soldados para proteger a comunidade cipriota turca de um golpe militar que tinha como propósito unir o país a Atenas, conduzindo à divisão da ilha – a República de Chipre, a única internacionalmente reconhecida, a sul da “Linha Verde”; do outro lado a República Turca do Norte de Chipre (RTCN), aceite apenas por Ancara.

É também a Turquia, ou mais precisamente o Presidente Recep Erdogan, quem tem na mão as chaves que poderiam selar o ambicionado acordo. Foi, por isso, com grande expectativa que nos últimos dias se aguardou a notícia da ida do Presidente turco a Genebra para se sentar à mesma mesa das duas delegações cipriotas, dos primeiros-ministros da Grécia, Alexis Tsipras, e do Reino Unido, Theresa May.

Um cenário que, na véspera da conferência internacional, se apresentava como pouco provável, já que tanto Erdogan como Tsipras decidiram que só viajariam para a Suíça na iminência de um acordo. E nesta quarta-feira, o enviado especial das Nações Unidas para Chipre, Espen Barth Eide, afirmou que apesar de as negociações estarem a decorrer “como previsto”, “há ainda muito trabalho a fazer”.

Nos últimos dias, as duas delegações discutiram a devolução (ou compensação) das propriedades pertencentes aos que, numa e outra comunidade, foram deslocados pelo conflito; a governação no futuro Estado (uma federação composta por duas entidades estatais, com direitos idênticos) e, já nesta quarta-feira, apresentaram as suas propostas para o redesenho da linha de demarcação – há muito que se acordou que a RTCN deve ceder parte do território que controla, o que deverá abranger localidades inteiras. “Nunca as duas delegações tinham trocado mapas”, sublinhou Eide.

Protectorado turco

Com os líderes ausentes, caberá aos chefes da diplomacia dos três países discutir em Genebra a última das questões espinhosas em cima da mesa: quem será responsável pela estabilidade na ilha e pela aplicação do acordo que vier a ser negociado. Tanto Atenas como Londres estão disponíveis para abdicar do seu estatuto, mas Ancara, ainda que admitindo reduzir gradualmente a sua presença militar, afirma que não pode ceder na protecção da comunidade turca.

A manutenção desta espécie de protectorado turco foi uma das razões que, em 2004, levou a comunidade grega a chumbar em referendo o plano proposto pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, naquela que foi a tentativa que mais perto esteve de reunificar a ilha. Apesar de ter votado a favor do acordo, o terço norte da ilha foi excluída da adesão à UE, concretizada uma semana mais tarde, e seria preciso esperar uma década para que as negociações voltassem a ser retomadas.

Várias lições foram retiradas desse processo – a ONU é agora apenas mediadora das negociações, lideradas pelas duas entidades cipriotas – e apesar de o plano seguir no essencial o caminho traçado por Annan, há agora um sentido de urgência muito maior. “Está é a última oportunidade” de reunificar a ilha, disse o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, que está em Genebra como observador. “É uma ocasião histórica”, garantiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, que vai presidir à conferência internacional.

“A reunificação está certamente mais próxima do que nunca, tendo em conta a boa vontade dos dirigentes dos dois lados”, explicou à Rádio France Internacional Kosta Pavlowitch, o antigo director do jornal Cyprus Mail, destacando também o empenho dos europeus e a disponibilidade turca para um entendimento. O Presidente cipriota, Nicos Anastasiades, e o líder cipriota turco, Mustafa Akinci, “pertencem à última geração que quer um acordo”, confirmou um diplomata europeu ao site EUObserver.

Mas a proximidade de um acordo tornará também mais retumbante um fracasso, diz Pavlowitch. “Há um sentimento que, se desta vez não for possível chegar a acordo, então a questão da reunificação será enterrada” e Chipre caminhará “para uma partição mais ou menos oficial”, com a possível anexação por Ancara da RTCN. A ONU é menos taxativa, afirmando que será ainda possível chegar a um acordo, e referendá-lo ainda este ano, mesmo que a reunificação não fique decidida esta semana. Ahmet Sozen, analista cipriota que há anos segue as negociações, disse à Reuters temer que as placas tectónicas agora alinhadas se reposicionem em caso de fracasso. “Se as negociações entre dois líderes tão favoráveis a um acordo voltarem a falhar é uma enorme motivação que se terá perdido”.