Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

China: o mais populoso país do mundo tranca as portas para travar o coronavírus

Pequim lidera mega-operação, que afecta mais de 40 milhões de pessoas, para travar o novo vírus. Cidades inteiras foram encerradas, viagens proibidas, mas o vírus continua a saltar continentes, e já chegou à Europa.

Como conter a progressão de um novo vírus no país mais populoso do mundo e no período em que decorre a maior migração anual do globo? É este o desafio extravagante que as autoridades chinesas têm pela frente, em plena época das festas do Ano Novo Chinês, pondo em marcha um dispositivo logístico sem precedentes, que afecta a vida de mais de 40 milhões de pessoas. Há cidades inteiras de quarentena, transportes suspensos, templos, espaços públicos e atracções turísticas encerradas e proibições de viagens decretadas para vastas áreas de território.

O vírus, no entanto, continua a sua progressão, e chegou esta sexta-feira a França, e nos Estados Unidos foi detectado mais um caso, em Chicago, na costa oposta à de Seattle, onde foi identificado o primeiro.

É um país descomunal, com 1396 milhões de pessoas, que se tranca a sete chaves para evitar que os mais de 20 mortos e quase 900 infectados vítimas do novo tipo de coronavírus – segundo os números oficiais – possam contagiar os outros (muitos) habitantes e ainda os que vivem para lá da fronteira chinesa. Sempre com a certeza, no entanto, de que o número de infectados vai, no mínimo, quadruplicar, segundo fontes médicas.

Transformar uma surto grave numa catástrofe sanitária de grande escala é o que se quer evitar. E as suspeitas de que a China estará a caminhar a passos largos para uma crise semelhante à de 2002 e 2003, quando foi atingida pelo surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que matou mais de 900 pessoas em todo o mundo, porque se espalhou rapidamente, através dos transportes aéreos, fazem soar os alarmes no Governo central. Pequim não quer voltar a ser acusada – como foi na altura – de ter escondido a verdadeira gravidade da situação e de ter actuado com pouca celeridade.

Apesar de terem sido detectados casos de infecção pelo vírus nos Estados Unidos (já dois), Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Singapura, Nepal e Vietname, e de se temerem casos em países europeus, como o Reino Unido, a Organização Mundial de Saúde resiste em declarar uma emergência global de saúde pública e remete o estado de excepção apenas para o território chinês, por enquanto.

“Quarentena histórica”

No epicentro do cordão sanitário erguido na região centro da China está Wuhan, onde foram detectados os primeiros casos do novo vírus – denominado 2019-nCoV, que deve ter sido transmitido aos humanos por um animal e causa infecções respiratórias, sendo transmitido por via aérea ou contacto físico – e onde morreu a maioria das vítimas. 

A cidade de 11 milhões de habitantes está fechada, de quarentena, e os relatos que de lá chegam falam de “ruas desertas” e “escolas encerradas”, mas de “hospitais apinhados”, “prateleiras de supermercados vazias” e “medicamentos em falta nas farmácias”. 

“A quarentena de 11 milhões de pessoas é inédita na história da saúde pública”, disse à Reuters Gauden Galea, representante da OMS em Pequim.

Teme-se que este cenário de caos contido se transforme em pânico generalizado. Por isso foi mobilizado o Exército do Povo e para ali foram canalizadas ajudas no valor de dois mil milhões de yuans (cerca de 260 milhões de euros).

A falta de camas nos centros de saúde e instalações hospitalares de Wuhan obrigou mesmo a uma medida excêntrica, mas que já tinha sido adoptada em 2003, para lidar com a SARS: a construção de raiz de um hospital com mais 1000 camas, no espaço de apenas seis dias, que será gerido por médicos militares.

“Ninguém entra ou sai”

Em Wuhan e na vizinha Huanggang (sete milhões de habitantes), megacidades que integram a província de Hubei, os transportes públicos foram totalmente suspensos. Não há autocarros, comboios, barcos ou aviões em movimento e muitas estradas de acesso a outras localidades estão cortadas ou são vigiadas de perto por polícias e soldados.

Em redor de Wuhan o cenário é igualmente desanimador. Em pelo menos 12 cidades das redondezas foram impostas proibições ou restrições severas de viagem e a grande maioria dos transportes não está em funcionamento. 

Se estas medidas restringem a mobilidade e afectam mais de 40 milhões de pessoas na região central da China, muito mais pessoas ainda são potencialmente atingidas por estas restrições, por causa da época no ano. As celebrações do Ano Novo chinês  que se celebra no dia 25 estão aí à porta e envolvem tradicionalmente a deslocação interna de centenas de milhões de chineses – é a maior migração anual do mundo.

“Um cenário normal de quarentena seria dizer às pessoas: ‘não podem sair de casa, ir à escola, ao emprego ou à igreja’. Mas [As autoridades] desenharam uma linha em redor da região e disseram: ‘ninguém entra e ninguém sai’. É uma resposta extrema”, diz ao New York Times o director do Centro de Direito e Política de Saúde Pública da Universidade de Arizona, James Hodge.

Reduzir drasticamente o fluxo de viagens no espaço territorial chinês é a peça-chave nos planos de contenção do vírus decretados pelo Governo de Xi Jinping. Nesse âmbito foi ordenado o cancelamento de numerosos espectáculos de Ano Novo e o encerramento das principais atracções turísticas do país, habitualmente visitadas por milhões de pessoas nesta altura do ano.

Pequim lidera a lista: a Cidade Proibida, os túmulos imperiais da dinastia Ming, a floresta de pagodes e partes da Aldeia Olímpica encerram a partir de sábado. Fora da capital, é a Grande Muralha que se destaca, com os troços de Juyingguan e de Simatai, entre outros, a fecharem as portas ao público. Também a Disneyland de Xangai vai encerrar nos próximos dias. 

Pequim puxa orelhas

Num país da dimensão da China, onde a força (e a mão-de-ferro) do Estado central é orientadora de toda e qualquer medida ou política extraordinária, cabe às autoridades locais a tarefa de pôr em prática as directivas de Pequim. A actuação do poder local na contenção do coronavírus não tem sido, no entanto, satisfatória.

Guan Yi, um académico de Hong Kong especialista em doenças infecciosas, que teve um papel determinante na identificação do surto SARS, esteve em Wuhan no início da semana e mostrou-se desiludido com a actuação “pouco célere” das autoridades locais.

À revista chinesa Caixin assumiu que não foram tomadas medidas sanitárias preventivas suficientes, nos aeroportos ou nos espaços públicos, e defendeu que Wuhan deveria “estar em ‘estado de guerra’”. “As pessoas estão a preparar-se pacificamente para o Ano Novo e não têm quaisquer noções sobre a epidemia”, lamentou Yi.

Um dos vários relatos que obrigaram o Governo a dar um puxão de orelhas às autoridades locais: “A propagação do vírus não foi contida. As autoridades locais devem assumir mais responsabilidade e ter um maior sentido de urgência”, alertou esta sexta-feira a televisão estatal CCTV.

Como em tantos outros tempos extraordinários, os planos do Partido Comunista chinês passam também agora por transformar a batalha contra o vírus numa espécie de exaltação nacional, que exige união e sacrifício de todos, e que está solidária com Wuhan. 

Nos sites dos principais sites noticiosos passam imagens de médicos e enfermeiros em poses militares e a emissão anual da CCTV para a época festiva, esta sexta-feira, acrescentou um segmento às quatro horas de um programa tradicionalmente visto por milhões, no qual se exalta o trabalho dos profissionais de saúde e se criam momentos de emoção junto de quem está na audiência.

“Vão sair vitoriosos!”, afiançou um dos apresentadores, segundo a Reuters. “Não há crise que não consigamos ultrapassar”, atira outro, enquanto passam imagens de médicos na televisão.