Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Reportagem

O homem que mudou de vida para salvar os órfãos do Paquistão

Um dos terramotos mais devastadores do Sul da Ásia atingiu Caxemira em 2005 e matou mais de 89 mil pessoas. O impacto desta tragédia mudou a vida de um homem e o destino de centenas de crianças.

Simone Duarte

A 8 de Outubro de 2005, o chef britânico Chaudry Mohammed Akhtar, de origem paquistanesa, e os amigos estavam de malas prontas para passar férias em Espanha quando começaram a ver pela televisão as imagens do terramoto em Caxemira. Akhtar, que só tinha visitado o Paquistão uma vez e prometera nunca mais voltar, convenceu os amigos a mudar o destino das férias e, antes mesmo de sair de Inglaterra, arrecadou o equivalente a 115 mil euros para ajudar as vítimas. Nem imaginava que a viagem mudaria totalmente a sua vida e que seria o início da construção do maior complexo educacional para órfãos do Sul da Ásia.

“Impossível, impossível.” Akhtar perdeu a conta de quantas vezes ouviu esta palavra quando disse que queria criar um orfanato para abrigar os rapazes e raparigas que perderam os pais no terramoto. Dos quase 90 mil mortos pelo tremor de terra de 7,6 na escala de Richter, 19 mil eram crianças que foram soterradas quando estavam a estudar nas escolas da região.

Foi numa pequena aldeia nas montanhas da Caxemira paquistanesa que o britânico decidiu que não poderia ficar de braços cruzados. Ele acabara de chegar num dos camiões com ajuda humanitária para as populações das áreas mais remotas, quando um grupo de 200, 300 crianças maltrapilhas desceu na sua direcção. “Quando viram os pacotes de bolachas, devoraram tudo. Lembrei-me imediatamente das imagens do activista e músico Bob Geldof na campanha para salvar as crianças de fome na Etiópia. Aquelas crianças estavam famintas, comeram tudo o que havia pela frente. Quando perguntei aos mais velhos da aldeia quem eram, responderam que eram órfãos, que os parentes não queriam ficar com eles e que os tinham aconselhado a correrem para as cidades, atrás de alimento e abrigo. Em cada rosto eu via o rosto da minha filha. Saí dali, continuei a distribuir alimentos noutros sítios, mas aquela imagem atormentava-me, não conseguia esquecê-la, não podia ficar parado, precisava de fazer algo.”

Simone Duarte

Os amigos, a quem roubaram os camiões durante a operação de ajuda humanitária, disseram que nunca mais voltariam, mas que o ajudariam. Akhtar não conhecia ninguém em Caxemira. Toda a família estava em Inglaterra. Voltou para Leicester e começou a tentar, por telefone, conseguir um sítio para alugar em Mirpur. Os preços eram exorbitantes, pois tudo havia sido destruído no tremor de terra. Ao fim de nove dias, estava de volta. O prédio era inabitável, não tinha luz, água, casa de banho. Numa semana, estava habitável, tinha beliches suficientes para 50 miúdos. Faltavam as crianças. Ele não era uma ONG, nunca havia trabalhado em ajuda humanitária, ninguém o conhecia. Referiam-se a ele como o “idiota de Inglaterra”.

Uma casa para crianças

A ministra do Bem-Estar Social de Caxemira foi trazida para ver o “orfanato”, começou a chorar e a mandar crianças para lá. Akhtar passava dez dias no Paquistão, dez dias na Inglaterra. Um dia, seis meses depois, caiu em si. Tinha família na Inglaterra, a mulher, portadora de deficiência, uma filha de apenas oito anos, a vida estava uma grande confusão, e tinha o destino de 50 crianças nas suas mãos. “Em que é que me meti?...”, pensou.

Era hora de tomar uma decisão. Começou a sonhar com a construção de um orfanato, a desenhar a planta, decidiu dedicar-se às crianças oresto da sua vida. Largou os 17 restaurantes que tinha em Inglaterra. Passou anos a tentar convencer o governo local a dar-lhe um terreno montanhoso onde teve de construir tudo do zero: guiava os tractores, carregava os sacos de cimento e acabou por criar o complexo educacional para órfãos ​Kashmir Orphans Relief Trust (KORT) que hoje é o maior do Sul da Ásia.

Simone Duarte

“O KORT não é um orfanato, é uma casa para crianças”, corrige Akhtar, guiando-nos pelos corredores, salas, jardins do recinto que hoje abriga 400 meninas e meninos, mas cujos dormitórios recém-inaugurados têm capacidade para mil. “Se eu quisesse, poderia esgotar a lotação disto tudo amanhã, mas, em média, uma criança leva dez dias para se adaptar, são crianças que nunca viram uma casa de banho, uma sala de aula.”

Akhtar mostra o grande reservatório de água que construiu quando derrubou a “montanha de pedra” para realizar o seu sonho. “Mudei o conceito de orfanato no mundo: aqui nenhuma criança usa roupa em segunda mão, duas vezes por ano saem para comprar as próprias roupas, as refeições nunca são aproveitadas de um dia para o outro, tudo o que comem é fresco, feito na hora”, explica, enquanto caminhamos pela cozinha e chegamos ao pátio onde estão a fazer o pão do dia. Todo o projecto é sustentável: da horta à criação de animais ao sistema de irrigação”.

Simone Duarte

A escola tem capacidade para 1500 alunos e recebe crianças das redondezas que chegam pela manhã para estudar. Todos os prédios são monitorados com câmaras, 400 no total. Mesmo quando não está aqui, Akhtar passa três horas por dia ao telefone a saber as notícias: se há alguém doente, se algum aluno faltou... E monitoriza as câmaras pelo telemóvel.

As salas de aula estão a receber equipamentos de primeira geração – doação de amigos ingleses. A cada mês, a biblioteca recebe 1500 a 2000 novos livros. “A educação é um direito compulsório. O meu lema aqui é fazê-las estudar o máximo que quiserem. Temos alunos a tirar mestrados em universidades.” Há uma mesquita, mas crianças de qualquer credo são aceites na instituição, que não as obriga a estudar o Alcorão nem a converterem-se ao Islão. “As crianças têm o poder de decidir o que querem fazer, o Islão ensina-nos a respeitar os deuses dos outros.” O facto de ter meninas e de permitir crianças de qualquer religião já faz do KORT um orfanato diferente de qualquer outro desta região do mundo.

“Com as meninas, tomamos mesmo cuidados especiais. Elas são o grupo mais vulnerável. Se a Inglaterra, com 60 anos de tradição de instituições deste género, não está livre de abusos, o que dirão os países em desenvolvimento? Por isso, somos muito cuidadosos e tomamos todas as precauções. Dos 138 funcionários da instituição, 27 dos quais professores, 92 por cento são mulheres. 

Simone Duarte

Os prédios são todos construídos para abrigar crianças portadoras de deficiência, algo também inédito no Paquistão. 

Paraíso na Terra

Nos dormitórios e pelos corredores dos prédios cruzamo-nos com crianças sorridentes que falam com alegria, e um brilho no olhar. Akhtar cumprimenta uma a uma calorosamente, sabe o nome de todas que estão aqui, a história de cada uma. “Sei os nomes, do que eles gostam, do que não gostam e, o mais importante, de quem gostam e de quem não gostam”, sorri. Ao passar, é uma algazarra de risos e brincadeiras.

No dormitório das meninas, abre uma porta e alerta: “Prepare-se para entrar no paraíso na terra”. Entramos no quarto de brincar e dormir de recém-nascidos. Akhtar apresenta-me Maiza Akhtar, de cinco anos. “Quando a conheci, era um bebé prematuro que lutava entre a vida e a morte.” O sobrenome não é um acaso. O fundador da instituição é oficialmente pai de 33 crianças do orfanato. “A todas as crianças abandonadas dei o meu próprio nome”. 

Quando Mohammed Akthar chegou aqui, conta o empresário Sohaib Saeed, parecia um louco que corria de um lado para o outro a tentar convencer as instituições a apoiarem-no, ninguém acreditava que ele seria capaz. “Nunca o vi sair de férias. Vejo-o sempre a trabalhar pelas crianças, 24 horas por dia. Acho que nem dormir, dorme. Viajou a noite toda de outra cidade do Paquistão para estar aqui agora de manhã para a receber. Hoje, este centro educacional é um exemplo para a região, para o país, para o mundo”, conclui Saeed.

Akthar vendeu tudo o que tinha, com excepção de um restaurante, para investir aqui. A mulher e a filha viveram três anos e meio em Caxemira, mas acabaram por voltar a Inglaterra, por falta de condições para portadores de deficiência. Nos últimos 14 anos, ele vive em aviões de um lado para o outro e passa a maior parte do tempo no Paquistão. A instituição vive de doações. No início, 90 por cento eram de ingleses, hoje 25 por cento já são de paquistaneses.

Simone Duarte

“Os sonhos são para ser sonhados durante o dia para que tenhamos tempo de correr para realizá-los”, brinca. Agora sonha com uma universidade no complexo. Sonhar não é bem o verbo, pois já tem até o sítio onde começar a construção. O objectivo é fazer com que as crianças que já passaram por aqui façam parte do conselho da instituição. Em 11 anos, quer que 40 por cento do conselho seja formado por órfãos que viveram aqui.

“As crianças são responsabilidade de todos nós. Quer saber a verdade? Nos últimos 40, 50 anos, biliões de dólares foram investidos em diversos países para diminuir a pobreza, mas na realidade nada mudou, é um dinheiro desperdiçado: 90 por cento serve para pagar gastos administrativos e burocracias, em vez de ir para quem precisa. Aqui, cada centavo é gasto com as crianças. Eu garanto que você não vai encontrar nenhuma casa para crianças como esta, nem no Paquistão, nem na Inglaterra.”