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Análise

Os CDR querem fazer arder a Catalunha

Os Comités de Defesa da República tomaram conta da rua. Esquerdistas, anarquistas e miúdos de 16 anos a quem não interessa a política mas a acção e a adrenalina.

O que se passou ontem em Barcelona é um resumo da actualidade catalã. “Cai o sol em Barcelona e os radicais começam a tomar o controlo dos protestos”, sintetizou um jornal online. À tarde, meio milhão de pessoas, reunindo as cinco “marchas pela liberdade”, convergiram no centro da capital catalã. Paralelamente, os chamados Comités de Defesa da República (CDR) atacavam um comissariado da Polícia Nacional, numa outra rua, o que levou a múltiplas cargas policiais. Terminada a concentração das marchas, os encapuzados ocuparam o terreno.

Os partidos independentistas não estão apenas divididos e em conflito entre si. Estão em risco de perder o controlo da situação na Catalunha. As últimas noites, marcadas pelas fogueiras de Barcelona, exprimem a acção dos CDR, uma espécie de milícias informais que tomaram conta da rua e procuram o confronto violento com o Estado espanhol. Pretendem arrastar os partidos independentistas através de factos consumados. O seu primeiro objectivo é neutralizar os Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, a quem desgastam com método e violência para depois a acusarem de “excesso de força”. Visam, igualmente, pôr termo à colaboração entre os Mossos e as polícias nacionais.

“Iniciámos um caminho sem retorno”, proclamaram os CDR na madrugada de quarta-feira. Os protestos contra a sentença iniciaram-se na segunda-feira, no aeroporto de Barcelona, obedecendo a uma convocação da plataforma digital Tsunami Democratic, ligada aos movimentos independentistas institucionais. Na noite seguinte, os CDR tomaram conta das operações. “Descemos às ruas para ficar.”

Que querem os CDR?

Que são os CDR? Apareceram em 2016, sob o nome de Comités de Defesa do Referendo, como uma espécie de milícia independentista. Na sua origem, está a Candidatura de Unidade Popular (CUP), uma federação de grupos da ultra-esquerda e nacionalistas radicais. A CUP está representada no parlament e ganhou especial relevância por se tornar necessária para formar uma maioria secessionista. A sua estratégia visa cortar todas as pontes com o Estado, forçando a mão aos partidos nacionalistas.

Explicou um activista dos CDR a El Confidencial: “É evidente que partidos como o PDeCAT [Partido Democrático e Europeu da Catalunha] ou a ERC [Esquerda Republicana da Catalunha] não controlam a rua. Ao contrário da CUP, não têm essa capacidade.” A Assembleia Nacional Catalã (ANC) e a Òmnium Cultural são os instrumentos de mobilização dos partidos, mas quem tem vocação para o confronto nas ruas são os CDR. Promovem e lideram os protestos e “assédios”, organizam sabotagens e boicotes.

São aparentemente uma força de choque e mobilização sem direcção formal e com uma organização flexível, mas as suas acções são rigorosamente coordenadas, através das redes sociais. Sublinhava ontem a agência EFE que, “por baixo da sigla CDR, há uma diversidade de sensibilidades. E a sua mensagem é cada vez mais beligerante”.

“Os CDR forçaram a mão à ANC e à Òmnium Cultural, perante o olhar complacente de algumas instituições públicas”, escreve El Confidencial. “Reivindicam uma legitimidade exclusiva na defesa do procés. Os CDR querem convencer-se de que não haverá marcha atrás, de que nada será como dantes e de que são os guardiões da essência da ‘República Catalã’.”

Prossegue o mesmo texto: “Dentro do independentismo há uma prova de força para decidir quem manda na rua. A ‘santíssima trindade’ do separatismo é formada pelos CDR, pelas entidades cívicas (ANC e Òmnium) e pela plataforma Tsunami. O tabuleiro catalão conta com três actores principais, colegas e rivais entre si. Não hesitarão nos meios para disputar o domínio da rua.”

As últimas noites trouxeram novos recrutas aos CDR, reporta El Diario. “Há tipos de activistas muitos distintos: jovens da esquerda independentista, anarquistas e mesmo miúdos de 16 anos, a quem não interessa a política e que apenas buscam acção e adrenalina. À medida que os dias avançam, aparecem mais bem equipados — capacete, óculos protectores, joelheiras — e parecem dominar melhor a luta de rua.” E o fogo fascina-os.

Dois nacionalismos

Um alvo encoberto dos CDR é a ERC, de Oriol Junqueras, que tirou publicamente a lição dos acontecimentos de 2017: não repetir a aventura da independência unilateral, em que teve elevada responsabilidade. Define agora como prioridade a salvaguarda das instituições catalãs. Junqueras quer consolidar o partido, mantendo uma cuidadosa relação com a política espanhola e com a Catalunha moderada. Aposta em eleições autonómicas. A actual situação, em que Quim Torra, president da Generalitat, declara publicamente que nunca condenará os CDR, tornou-se insustentável. Se a ERC quer graduar a reivindicação independentista, Torra quer precipitar o confronto geral.

Na origem de tudo, está o grande cisma encoberto entre “as duas almas do nacionalismo catalão”, os herdeiros da Convergência, de Jordi Pujol, e a velha Esquerra Republicana. “Há muitas contas por ajustar no interior do independentismo”, escreve Enric Juliana, director adjunto de La Vanguardia. “Os filhos e netos radicalizados da antiga classe dirigente acordam de noite sobressaltados com a possibilidade de a Esquerra vir a governar durante vinte anos. (…) Medium desta angústia, [Carles] Puigdemont quer impedir um ciclo hegemónico da ERC mediante uma táctica de ultrapassagem permanente: movimento contra partido.”

A sentença não trouxe coesão aos nacionalistas. Agravou as divergências e a luta pela hegemonia. As divergências foram escondidas em nome da unidade após a intervenção do Governo central. Agora, é a sentença que impede que sejam assumidas e resolvidas. Entretanto, o Estado, representado pela Generalitat, está paralisado na Catalunha. Não é apenas o govern que não funciona e tem um presidente cada vez mais isolado. As instituições deixaram de funcionar. É neste ambiente tóxico que uma minoria activa poderá impor a seu diktat a todas as maiorias.

A poucas semanas das eleições, a deriva catalã ameaça a estratégia eleitoral de Pedro Sánchez e, sublinha Juliana, visa impedir o advento de uma fase de pactos em Espanha para os próximos quatro anos.