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Opinião

O caso da Líbia explica porque é que a Turquia não tem amigos

A Líbia tornou-se o campo de batalha de uma guerra por procuração em torno do papel do islão na política do Médio Oriente.

É difícil de acreditar agora, mas houve um tempo, há apenas uma década, em que a Turquia descrevia a sua doutrina de política externa como “zero problemas com os [seus] vizinhos”. Mas desde então, Ancara queimou as suas pontes com Israel por causa da flotilha de Gaza; enfureceu o Egipto por ter criticado acidamente o golpe do general Abdel-Fattah al-Sissi e por apoiar a Irmandade Muçulmana; rompeu relações com a Síria por prestar auxílio aos que se revoltaram contra Bashar al-Assad (e, mais recentemente, invadiu o Nordeste do país, para repatriar refugiados à força); e antagonizou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) ao apoiar o Qatar contra o embargo que lhe impuseram.

Agora, a Turquia está a dar ajuda militar directa ao Governo da Líbia, enquanto os EAU e o Egipto – e a Rússia – apoiam o exército rebelde do general Khalifa Haftar. O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, prometeu “dar uma lição” a Haftar, depois de terem falhado as negociações para um cessar-fogo na Rússia.

A política de Negócios Estrangeiros actual da Turquia parece concebida para agravar os problemas com todos os seus vizinhos.

Como é que chegámos aqui? Nos últimos dez anos, a Turquia passou de uma vibrante democracia islâmica para um Estado autoritário repressivo. Mas isto não explica as relações de antagonismo com os seus vizinhos: a maior parte dos governos no Médio Oriente são também Estados autoritários repressivos com populações predominantemente muçulmanas.

A resposta é que Erdogan procurou activamente avançar a causa do islão político, tanto doméstica como internacionalmente. Isto fá-lo alinhar com o Qatar e contra a maior parte das outras nações árabes, em especial a Arábia Saudita, o Egipto e os EAU.

Na Turquia, a islamização inicialmente avançou com a democratização. O Exército turco foi uma força secular agressiva; à medida que o seu controlo sobre o Estado abrandou, a religião regressou à política, sobretudo sob a forma do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Erdogan. As lideranças militares opuseram-se formalmente ao candidato às presidenciais do AKP em 2007 por ser islamista, mas Abdullah Gul foi eleito – um importante ponto de viragem na política turca. A castração política dos militares permitiu a Erdogan, que já tinha descrito a democracia como “um veículo, não um objectivo”, dominar a cena.

O golpe de Estado falhado de 2016 na Turquia pode ser visto como uma tentativa oportunista de alguns elementos no Exército de capitalizar com a insatisfação crescente entre os turcos com a consolidação do poder de Erdogan. Representa também uma profunda competição entre os islamistas de Erdogan e outras forças políticas.

A fragilidade do controlo do poder por Erdogan é ilustrada pela eleição dos presidentes da câmara de Istambul e outras grandes cidades no ano passado e o facto de aliados de longa data, como o ex-primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, que concebeu a doutrina “zero problemas com os vizinhos”, se terem afastado do AKP.

Esta trajectória doméstica tem um paralelismo na política externa turca, que se tornou mais islamista e militarista à medida que o controlo político de Erdogan se tornou mais fraco.

Na zanga com o Egipto está a chave para compreender a intervenção na Líbia. Após a Primavera Árabe de 2011, Erdogan apoiou a ascensão ao poder da Irmandade Muçulmana e apoiou o Governo de Mohammed Morsi. Quando Morsi foi derrubado pelos militares em 2013, Erdogan descreveu o golpe como “terrorismo de Estado”. O Presidente turco parece ver o que se está a passar na Líbia como como uma repetição do que se está a passar no Egipto: um líder militar ameaça derrubar um governo próximo do que é a visão de mundo turca.

A Turquia tem ligações profundas à Líbia, onde vivem 25% dos turcos expatriados. Igualmente importante, a Turquia tem investidos 18 mil milhões de dólares (16.200 milhões de euros) em contratos na Líbia, e os dois países partilham uma zona económica exclusiva. O Governo de unidade nacional, em Trípoli, apoiado pelas Nações Unidas e liderado por Fayez al-Sarraj, tem elementos islamistas – aliados naturais de Erdogan e do AKP.

O Governo de Trípoli tem estado sob ataque militar sustentado do Exército Nacional Líbio do general Khalifa Haftar, que se opõe a que os islamistas tenham um papel político, tal como os os seus apoiantes egípcios e dos EAU – potenciais aliados de forças dentro da Turquia que ameaçam a continuação de Erdogan no poder.

A Líbia tornou-se o campo de batalha de uma guerra por procuração em torno do papel do islão na política do Médio Oriente. Nem a Turquia nem os Estados do Médio Oriente que a ela se opõem devem ceder nos seus objectivos. E os problemas da Turquia com os seus vizinhos só devem piorar. 

Analista do American Enterprise Institute

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post