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Cabeças de lista talvez, mas Weber decididamente não

Chefes de Estado e de Governo da União Europeia começam a “reduzir as opções em cima da mesa” nas nomeações para os cargos de topo da UE na cimeira de Bruxelas.

Angela Merkel com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, um dos negociadores da “aliança progressista” OLIVIER HOSLET/EPA

Ninguém esperava fumo branco porque, pelos vistos, “é mais fácil eleger o Papa do que escolher o presidente da Comissão Europeia”, como constatou o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, à chegada ao Conselho Europeu em Bruxelas. Mesmo depois de três semanas de telefonemas, consultas, reuniões e diplomacia intensa, os chefes de Estado e governo da União Europeia envolvidos nas delicadas e complexas negociações para a recomposição das lideranças das instituições comunitárias sabiam que seria difícil desatar o nó das nomeações para os cargos de topo da UE no decurso de um jantar.

Deliberadamente, os líderes baixaram as expectativas sobre o desfecho do Conselho Europeu. Esperavam que a reunião servisse, pelo menos, para aproximar posições e fixar um entendimento ao nível dos princípios para a distribuição dos lugares e para a escolha do futuro (ou futura) presidente da Comissão Europeia. Reconhecendo que, desde as eleições europeias, os progressos não foram grandes, admitiam que esta quinta-feira a discussão ainda não deveria ser “conclusiva”, mas no fim da noite (ou madrugada) os 28 já deveriam ter “reduzido as opções em cima da mesa”, avançava uma fonte diplomática.

Reduzir as opções significa encurtar a lista dos nomes que podem encaixar em cada cargo — a saber, presidente da Comissão e Alto Representante para a Política Externa, presidente do Conselho Europeu, presidente do Parlamento. Fora da discussão, embora não fora da lógica de distribuição, fica para já o próximo presidente do Banco Central Europeu. Os líderes comprometeram-se em promover a igualdade de género e em assegurar a diversidade regional e demográfica europeia nas suas escolhas.

Mas o critério que se sobrepõe a todos estes, e sobre o qual o consenso entre os 28 está difícil, tem a ver com a cor político-partidária e o entendimento de que, perante a fragmentação resultante das eleições europeias, não haverá uma força dominante e com monopólio sobre os cargos de topo. A dificuldade é, precisamente, definir uma grelha que satisfaça as pretensões das três famílias políticas europeias que formam uma maioria no Parlamento: democratas-cristãos; socialistas e liberais.

Apesar da nomeação do chefe do executivo comunitário ser uma prerrogativa dos chefes de Estado e governo, o futuro presidente da Comissão tem de ser eleito por maioria absoluta pelo Parlamento Europeu. Daí que, como salientava o primeiro-ministro, António Costa, à chegada ao Conselho, a questão fundamental para os líderes ao jantar seria decidir se respeitavam o pedido do Parlamento e procediam à escolha de um dos cabeças de lista [Spitzenkandidaten] que se apresentaram nas eleições europeias, ou então se entendiam que “deviam optar por uma outra metodologia”, eliminando da equação os nomes até agora na corrida: o conservador Manfred Weber, do Partido Popular Europeu, o socialista Frans Timmermans e a liberal Margrethe Vestager.

Respota de Merkel

António Costa, que é um dos negociadores do grupo dos Socialistas & Democratas, continua a defender que “vale a pena ir ao encontro daquilo que é o pedido do Parlamento”. O primeiro-ministro falava já depois dos grupos dos Socialistas & Democratas e Renovar a Europa (o novo nome da bancada da Aliança dos Liberais e Democratas da Europa) terem confirmado a sua rejeição da candidatura do alemão Manfred Weber. “Como é sabido, o presidente da Comissão necessita de uma dupla maioria, no Conselho e no Parlamento Europeu. Ora, isto significa que esse candidato não tem maioria para poder ser eleito”, reparou.

Não foi exactamente uma surpresa, até porque as reservas à candidatura de Weber já eram há muito conhecidas. Mas a posição de força da chamada “aliança progressista” no Parlamento poderá ter minado definitivamente as hipóteses do alemão, a primeira vítima do processo de eliminação ou de “redução das opções”. Questionada sobre o seu apoio ao homem do PPE, a chanceler Angela Merkel limitou-se a dizer que apoiará o candidato que for aceitável para o Conselho e o Parlamento.

Palavras que deixam a entender que Merkel (e o PPE) poderão responder na mesma moeda e abater a candidatura do socialista holandês Frans Timmermans — e na mesma penada condenar o modelo dos Spitzenkandidaten, abrindo a porta a uma solução alternativa. A acontecer, o Presidente francês, Emmanuel Macron, poderá reclamar que tinha raison quando desde o princípio se mostrou contra a eleição dos cabeças de lista. “A solução para a Europa são pessoas com competência e ambição. Precisamos da melhor equipa”, argumentou.