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Análise

Boris Johnson: O “espírito do Blitz” pode esgotar-se depressa

Boris revê-se em Churchill, nunca se esquece de lembrar o velho leão britânico para prometer aos seus compatriotas que tudo está ao alcance da velha nação imperial que foi capaz de fazer frente ao Blitz. Para um país exausto pelo caos provocado por uma decisão para a qual ninguém estava preparado, até pode funcionar. Mas a realidade acabará por impor-se.

1. Boris Johnson entra na célebre porta de Downing Street em condições que dificilmente seriam mais adversas: um país causticado por três anos de total indefinição sobre o seu destino; um Partido Conservador profundamente dividido sobre a melhor estratégia para o “Brexit"; uma economia a ressentir-se cada vez mais da incerteza provocada pela saída da União Europeia sem se saber ainda em que condições. Se acrescentarmos que Boris, como é seu hábito, fez mil promessas sobre a sua capacidade de resolver o problema, qual delas mais fantasiosa, então nada está ainda garantido para o novo primeiro-ministro britânico e, consequentemente, para o futuro próximo do seu país.

2. A somar a esta pesada lista de encargos, o Reino Unido encontra-se a braços com uma grave crise internacional, que põe à prova a sua política externa em condições que estão em rápida mudança, o que lhe exigiria o máximo de sabedoria diplomática e, sobretudo, o máximo de solidariedade dos aliados. A escalada da crise iraniana, provocada pela decisão unilateral de Donald Trump de abandonar o acordo nuclear de 2015 acaba de atingir em cheio o Reino Unido, deixando-o numa posição cada vez mais insustentável.

O aprisionamento nas águas do Estreito de Ormuz do petroleiro Stena Impero, de bandeira britânica, pelos Guardas da Revolução, só dificilmente pode ficar sem resposta. O acto hostil, que viola a lei internacional, é a retaliação do regime de Teerão ao aprisionamento ao largo de Gibraltar, a 4 de Julho, de um petroleiro iraniano destinado à Síria, alegando a violação das sanções da União Europeia contra Damasco, mas para o qual, sabe-se hoje, que a pressão de Washington sobre Madrid e Londres terá sido decisiva. A insegurança na travessia do estreito por onde passa um terço do petróleo transportado por via marítima é já um dado adquirido. O Foreign Office prometeu “graves consequências”. A tentativa, bem-sucedida, dos Guardas da Revolução, põe em relevo as dificuldades do Reino Unido para acautelar a segurança dos seus navios no Golfo, põe à prova as suas alianças e desafia desde o primeiro dia o novo Governo britânico.

3. Na segunda-feira passada, o Foreign Office ouviu o secretário de Estado americano Mike Pompeo esclarecer sem meias palavras que cabe ao Reino Unido “garantir a segurança dos seus próprios navios.” Não vai mais longe a special relationship. John Bolton, o conselheiro de segurança de Trump e um dos principais defensores de uma “guerra” para derrubar o regime de Teerão, exultou, via tweet, com a apreensão do navio britânico. Percebe-se porquê.

Jeremy Hunt, até hoje o chefe do Foreign Office (e o rival derrotado de Boris Johnson) virou-se em seguida para os aliados europeus, propondo uma “aliança marítima” liderada pela Europa para proteger os navios mercantes que navegam numa das passagens comerciais mais importantes do mundo contra actos de “pirataria”. Heiko Maas, chefe da diplomacia alemã, manifestou o seu apoio a uma “abordagem coordenada” com Paris e Londres, mas insistiu em que é preciso sobretudo “reduzir a tensão”. A França ainda não se pronunciou.

Esquecer o assunto ou deixar que ele se resolva discretamente com uma eventual troca dos navios sequestrados não estará à altura da retórica nacionalista do novo primeiro-ministro e da sua promessa de regresso à grandeza britânica, agora liberta das grilhetas europeias para seguir o seu destino “global”. Boris nunca perde uma oportunidade para se mostrar amigo de Trump. Será certamente mais sensível às pressões de Washington do que a sua antecessora, que se manteve fiel ao acordo nuclear e agiu em conformidade com os seus parceiros europeus.

4. Os apoiantes de Boris Johnson elogiam a sua capacidade para “mobilizar a nação” e a star quality que já o levou a vencer outras batalhas em momentos oportunos, como na Câmara de Londres. Os críticos insistem nas sucessivas e flagrantes contradições do seu percurso político e num desinteresse quase total pela realidade.

Boris revê-se em Churchill, sobre quem escreveu uma biografia, nunca se esquece de lembrar o velho leão britânico para prometer aos seus compatriotas que tudo está ao alcance da velha nação imperial que foi capaz de fazer frente ao Blitz na II Guerra. Para um país exausto pelo caos provocado por uma decisão para a qual ninguém estava preparado, até pode funcionar. Mas a realidade acabará por impor-se.

A começar pela promessa de sair da União no dia 31 de Outubro, “custe o que custar”. Boris prometeu renegociar o acordo que May negociou com Bruxelas, acenando o papão de uma saída sem acordo, e acabar com o backstop irlandês (missão “impossível” em Dublin ou em Bruxelas) que uma parte do seu partido rejeita e que é o maior obstáculo a um acordo que passe em Westminster.

Com uma maioria parlamentar reduzida a dois deputados e uma bancada conservadora dividida, é difícil antecipar a próxima jogada do novo primeiro-ministro. Pode deixar cair uma saída sem acordo, para agradar a uma maioria da sua bancada, desagradando à linha dura? Se falhar em Westminster, como falhará em Bruxelas, não lhe restam grandes alternativas a não ser eleições. Nesse caso, não haverá “Brexit” a 31 de Outubro. “Doa a quem doer”.