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Editorial

Boas notícias da Áustria. Ou talvez nem tanto

Os mecanismos de vigilância das democracias continuam activos para mostrar a farsa mentirosa que alimenta os populistas.

As imagens ou as transcrições que nos revelam a conversa entre o líder da extrema-direita e actual vice-chanceler da Áustria e uma suposta investidora da Rússia são bem a expressão do vazio de um certo nacionalismo europeu. Na Áustria, como na França como na Itália, a defesa da “pátria”, dos valores e das identidades faz-se com o apoio dos rublos da Rússia ou de quem pagar mais alto pela desestabilização.

Heinz-Christian Strache, o vilão obrigado a demitir-se depois de se mostrar disposto a corromper-se e a vender os interesses nacionais a uma jovem loura e “atraente”, é como Marine Le Pen, Matteo Salvini ou Viktor Orbán um devoto da Rússia, não só porque o discurso musculado de Vladimir Putin fica bem nas coreografias do populismo, mas principalmente porque, ao contrário de Steve Bannon, da Rússia vem inspiração, amor e dinheiro.

Quem defende a Europa das Nações deveria ter cuidado com estes enlevos. Quem sustenta o seu discurso na denúncia da venalidade dos políticos e dos partidos do sistema poderia ter ao menos recato na relação de subserviência que estabelece com potências estrangeiras. Ou talvez não. Uma das mais assustadoras e terríveis consequências da política na era das redes sociais é a constatação que a verdade, a coerência, o escrúpulo ou o empenho no interesse nacional deixaram de valer o que valiam.

Acreditar que a trapaça que denunciou Strache e o seu líder de bancada parlamentar será um desastre para o FPO e para extrema-direita austríaca ou europeia é demasiado optimista. Se a verdade ou o exemplo valesse assim tanto, Donald Trump estaria em dificuldades, Nigel Farage seria passado e Marine Le Pen teria desaparecido de cena com a extinta Frente Nacional.

É por isso que combater a extrema-direita ou a extrema-esquerda, o nacionalismo ou a demagogia populista é muito mais do que lutar pelos valores da democracia liberal; é também exigir que a decência na vida pública seja restaurada, que a mentira seja contida e a palavra e o exemplo dos políticos continue a contar para as escolhas eleitorais.

Não será nestas eleições nem com tantos políticos de plástico que essa restauração de valores será iniciada. Porque, vamos percebendo, tanto como o discurso contra o politicamente correcto ou os emigrantes, o que é atraente na extrema-direita para muitos cidadãos é a recusa dos políticos do sistema. Aguardemos. Episódios como os destes dias na Áustria levam ainda a acreditar que os mecanismos de vigilância das democracias continuam activos para mostrar a farsa mentirosa que alimenta os populistas.