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Ayatollah prepara discurso em momento de crise do Irão, entre pressão da Europa e manifestações

Regime iraniano protagoniza rara admissão de responsabilidade da queda do avião e anuncia detenções. Mas só se sabe que foi preso o homem que filmou o avião ucraniano a ser atingido. Europa acciona mecanismo de incumprimento do acordo nuclear.

Memorial para as vítimas da queda do avião da Ukrainian Airlines abatido por erro por um míssill iraniano ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

A pressão interna junta-se à pressão externa para o regime do Irão. Nas ruas, os manifestantes não arredaram pé, apesar da repressão da polícia, e levaram a uma raríssima admissão de responsabilidade pelo Presidente, Hassan Rohani, pelo abate do avião ucraniano. Da União Europeia, chega a notícia de que foi accionado o mecanismo de incumprimento do acordo nuclear pelo Irão, e os países com cidadãos vítimas da queda vão reunir-se esta quinta-feira para discutir o que fazer, incluindo potencialmente pedir uma indemnização ao Irão.

Sublinhando tudo isto, os media estatais anunciaram que o ayatollah Ali Khamenei, o líder de facto do país, vai fazer o sermão esta sexta-feira (as orações mais importantes da semana) – não o faz há oito anos, reservando a sua intervenção para momentos importantes.

Foi surpreendente que o regime tenha reconhecido algum grau de responsabilidade no que aconteceu em reacção aos protestos populares, nota o jornalista da Al Jazeera Assed Baig: “No Irão, as pessoas não estão habituadas a que as instituições públicas e militares aceitem responsabilidades e admitam que erraram”.

O Presidente iraniano disse que a admissão de responsabilidade foi “um bom primeiro passo”. Prometeu uma investigação completa ao “erro imperdoável” de abater o avião, dando uma conferência de imprensa televisiva na terça-feira, a última de uma série de desculpas de uma liderança relutante em admitir erros. Disse que o caso será julgado num tribunal especial. “Este não é um caso qualquer. O mundo inteiro vai estar a ver”, declarou.

Mas não foram dadas quaisquer informações sobre quantas pessoas foram detidas por causa do incidente com o avião, nem sobre a sua identidade. O avião foi abatido após um ataque a bases iraquianas usadas por militares norte-americanos, quando o Irão se preparava para uma potencial retaliação dos EUA, que não aconteceu. Quando o sistema antimíssil foi accionado, o avião da Ukrainian Airlines que descolava de Teerão foi atingido.

Preso autor de vídeo

Um sinal de que o regime está a tentar jogar com um processo para apaziguar os manifestantes mas que poderá não ir muito mais longe foi uma informação de Farnaz Fassihi, jornalista do New York Times: foi preso o homem que filmou o avião a ser atingido – um vídeo que, depois de verificado pelo jornal de Nova Iorque, se revelou a primeira pista para a causa da queda do avião, que o regime insistia que tinha sido um acidente.

Até agora, a atitude do regime tem sido proteger-se e fechar-se, reprimindo as manifestações e afunilando ainda mais a lista de candidatos às eleições legislativas de Fevereiro, com uma série de reformistas a não se apresentarem ou serem recusados e a maioria a serem pessoas da linha dura do regime.

É muito difícil perceber se as palavras de ordem na rua contra o regime religioso e os seus líderes máximos – “morte ao ditador, seja o xá ou o ayatollah” – que são indisputavelmente muito corajosas, poderão resultar num momento de viragem. Houve outras alturas de descontentamento (em 2009, com a reeleição do então Presidente, Mahmoud Ahmadinejad, após fraude eleitoral) com palavras de ordem parecidas que não levaram a uma mudança do regime.

Embora o tempo esteja contra os ayatollahs (e os Guardas da Revolução, que cada vez mais concentram poderio económico controlando empresas estatais), o Irão é visto como tendo boas hipóteses de transição para uma democracia, diz a analista política israelita Einat Wilf, apontando características que fazem do país um potencial caso de sucesso: “um Estado coerente com uma população educada, de classe média, com uma média etária alta, e instituições protodemocráticas”.

Europeus pressionam

E esta terça-feira mais pressão atingiu Teerão de fora: a União Europeia (os três países que a representam no acordo sobre o nuclear, ou seja, Alemanha, França e Reino Unido, decidiram accionar o mecanismo de não cooperação previsto no Tratado assinado em 2015 – uma acção que dizem não ter o objectivo de se juntar à campanha de pressão máxima defendida por Donald Trump, mas que potencialmente acarreta sanções (pouco prováveis porque teriam de ser aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU).

O tratado está há meses “numa espécie de limbo”, como diz o analista de defesa da BBC Jonathan Marcus – após a retirada dos EUA, o Irão anunciou que deixava de observar algumas das restrições (impostas para assegurar que o programa se mantém para uso civil e não permite a obtenção de uma bomba atómica) e assim “os dois mais importantes signatários abandonaram-no ou ignoraram grande parte”.

O principal problema em relação aos EUA é que não só saíram do tratado e impuseram sanções como deixaram claro de que empresas que decidissem investir no Irão iriam ter as suas actividades restritas nos EUA: escolher entre os dois não é uma opção para nenhuma multinacional, e assim o Irão não está a conseguir investimento estrangeiro.

Os restantes signatários (UE, Rússia e China) têm repetido que o acordo é a melhor maneira de assegurar que o Irão não se torna um país com armas nucleares.

As sanções têm tido efeitos na economia e, claro, nos iranianos comuns – o anúncio do fim de uma bonificação nos combustíveis levou a protestos em Dezembro que foram alvo de forte repressão – segundo a Amnistia Internacional, morreram mais de 300 pessoas.

A acção dos europeus em relação ao mecanismo tem como objectivo levar o Irão a diminuir o ritmo de crescimento do programa nuclear além dos limites do tratado, sublinha Richard Johnson, da organização Nuclear Threat Initiative, com sede em Washington. Mas apesar de essa ser a táctica dos europeus, Johnson avisa que há um risco de poder acontecer o contrário, e o regime acelerar o programa.

Até agora, a reacção do Irão pareceu dura nas palavras mas não tão forte na prática. “Se os europeus, em vez de manterem os seus compromissos e fazerem com que o Irão beneficie do levantamento das sanções, usarem mal o mecanismo de resolução de disputas, terão de estar preparados para as consequências de que foram informados”, disse um porta-voz.

Tanto os EUA como Israel já garantiram que não permitirão um Irão com armas nucleares. E se a escalada que começou na decisão dos EUA assassinarem o general Soleimani pareceu levar os dois mais perto de uma guerra, é difícil imaginar como esta seria evitada se o Irão se aproximar realmente do limite de obtenção de uma bomba atómica.

Por isso é que os analistas Philip Gordon e Ariane Tabatabai escreveram no New York Times que se não houver nenhum avanço na frente diplomática, vai seguir-se um dilema que o acordo tentava evitar: “Ter um Irão com bomba, ou bombardear o Irão”.