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Auschwitz, o perdão impossível

O horror ganhou um nome quando o mundo descobriu o campo de Auschwitz — as tropas aliadas chegaram a 27 de Janeiro. As vítimas não perdoam. Os outros, muitos deles, fazem por esquecer. (Nota: Texto da revista Pública de 23 de Janeiro de 2005, publicado por ocasião dos 60 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz)

Adriano Miranda

Já esqueceram e perdoaram? Não. Eles não esquecem. Serge Smulevic sobreviveu a Auschwitz, às marchas da morte, a Dachau. É cartoonista de vários jornais belgas, desenhador de publicidade, criador de capas de discos. Participou na recolha de testemunhos iniciada por Steven Spielberg em 1997. Diz ele:
“Auschwitz. Sonho sempre com Auschwitz. Sonho que lá estou outra vez [...]. Portanto, se um dia eu não acordar, foi porque morri em Auschwitz durante a noite. De certeza. Peregrinação maldita. Nunca lá quis voltar, mas os meus sonhos levam-me para lá, queira ou não queira.”

Peria K., grega de Corfu, deportada em criança para Auschwitz, depois para Bergen-Belsen e Dachau (testemunho gravado em 1990):
“Os sonhos... Ao princípio, durante anos, nunca sonhava. Mas agora tenho este sonho: os alemães querem encontrar-me, eu escondo-me no mar, no mar do mundo, até que eles partam. Isto nunca pára. Nunca, nunca, nunca. Às vezes preferia estar morta, eu também [chora]. Não consigo ver-me livre disto.”

Não. Eles não perdoam. Ruth Klüger, deportada aos 11 anos:
“O tempo foge-me entre os dedos. Alguma vez fui dona da minha vida? Só me reconheço na intransigência, é a ela que me agarro: não ma roubem [...]. Em Hofmannsthal, Electra diz: ‘Não sou um animal, não posso esquecer’. A ideia de perdão faz-me vomitar. É isso que penso e é o que tenho a dizer.”
Refus de témoigner, Une jeunesse, 1997

Albert Friedlander, alemão, rabi da sinagoga de Westminster, conseguiu fugir para os EUA em 1940 e ali foi, mais tarde, companheiro de Martin Luther King:
“Podemos perdoar? Mas quem somos nós para fazer o papel de Deus? Uma vez, em Nuremberga, um homem chega-se a mim e diz: ‘Eu fui guarda num campo de concentração, pode perdoar-me?’ Não, disse-lhe eu, não posso. Um rabi não tem poder para absolver nem para perdoar.”
Is Forgiveness Possible?, 2001

Prisioneiros durante a libertação do campo de Auschwitz Yad Vashem Archives/REUTERS

Só procura o perdão o crime imperdoável, o resto é irrelevante. Perdoar o resto não viola um limite nem gera um dilema: a mentira de uma criança, um adulto que nos desilude ou rouba... Mas os campos, o extermínio? Na semana passada, um telefone toca em Paris, na sede da Federação Nacional de Deportados:
“Como podem eles perdoar? Ninguém lhes pediu perdão. Klaus Barbie, Maurice Papon, que foram aqui julgados, não pediram”. Perdoar? “Não é uma pergunta que nos possam fazer”.

Dentro de dias, a 27 de Janeiro, terão passado 60 anos sobre a libertação de Auschwitz, o maior dos campos de extermínio nazis. Calcula-se que cerca de um milhão tenha morrido nas câmaras de gás, na maioria judeus. Outros 210 mil morreram de fome e de maus-tratos. Auschwitz não era um campo só, mas um enorme complexo de campos a 60 quilómetros de Cracóvia, Polónia.

Havia Auschwitz I:

Aberto em 1940, sobre o seu portão de entrada podia ler-se a célebre inscrição “O trabalho liberta”. Tinha uma câmara de gás. Era neste campo que se procedia a experiências médicas nos prisioneiros. “Lembro-me da pequena Dagmar. Nasceu em Auschwitz em 1944, de mãe austríaca. Fui eu que a ajudei a vir ao mundo. Morreu depois de Mengele lhe ter dado injecçõs para tentar mudar-lhe a cor dos olhos. A pequena Dagmar tinha de ter olhos azuis!...” — Ella Linges, antiga deportada.

Auschwitz Adriano Miranda

Havia sobretudo Auschwitz-Birkenau:

Entrou em funcionamento em 1941. Foi o campo mais mortífero e com maior número de prisioneiros. Quatro câmaras de gás, cada uma equipada para matar seis mil pessoas por dia.

Era às portas de Birkenau que paravam os comboios de deportados. Era também aí que os SS faziam a primeira selecção: separavam os homens das mulheres, escolhiam os destinados às câmaras de gás — mortos geralmente no dia em que chegavam — e os que, sempre em menor número, sobreviveriam como mão-de-obra escrava.

Havia também Auschwitz III (Buna-Monowitz):
Aberto em 1942, recebia sobretudo os que tinham sido escolhidos para os trabalhos forçados. Para além deste, existiam no complexo mais 45 sub-campos de trabalho.

Buna-Monowitz

Serge Smulevic nasceu na Polónia em 1921, foi viver para França dois anos depois, aderiu à Resistência e foi preso em Nice em 1943, denunciado pela senhoria. Foi para Auschwitz III, onde trabalhou no mesmo bloco com o escritor italiano Primo Levi — para a I.G. Farben, a companhia química que produzia o gás com que se matava em Birkenau. Quando as tropas soviéticas libertaram Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, Serge já lá não estava. Nem ele, nem outros 60 mil prisioneiros.

No campo polaco, para receber os vencedores, restavam pouco mais de sete mil internados — deixados para trás porque, na sua maioria, já nem se mantinham em pé. Muitos foram abatidos antes da evacuação, mas o rápido avanço do Exército Vermelho impediu as SS de terminar essa tarefa.

18 de Janeiro, 60 anos atrás — o início das “marchas da morte” a caminho da Alemanha, marchas que se prolongaram até Abril, enquanto o avanço dos aliados progredia. O objectivo era levar internados de Auschwitz, Stuttehof, Buchenwal, Dachau, garantindo trabalho escravo para o Reich, e reduzir ao mínimo o número de sobreviventes deixados nos campos.

“Vão evacuar-nos de Auschwitz, primeiro a pé, durante vários dias. Estamos em Janeiro de 45. A temperatura média é de 20 graus negativos (...). O cansaço, os tiros... É uma mortandade atroz em poucos dias, em poucas horas mesmo”.
Charles Palant, deportado aos 17 anos, em 700 jours en enfer

A partir de Dachau, uma das marchas da morte. Nos últimos meses da guerra, dezenas de milhar de deportados foram sendo sucessivamente transferidos de campo para campo. A pé

No início gelado do ano que viria a ser o do fim da guerra, vestidos apenas com o uniforme do campo, cerca de 60 mil deportados de Auschwitz estão a ser obrigados a atravessar a pé as terras devastadas que separam a Polónia da Alemanha. Escoltados por SS com ordens precisas: quem tenta fugir e quem cai de exaustão é abatido a tiro. Quinze mil terão morrido durante esta marcha, nos caminhos sobrelotados pela debandada alemã. Para além dos detidos de Auschwitz, nesse Inverno em que os soviéticos se aproximam, cruzam as mesmas estradas milhão e meio de civis em fuga das áreas de confronto, colunas de prisioneiros militares britânicos e russos, intermináveis caravanas militares em retirada.

“De repente alguém à minha frente caiu. Era uma rapariga frágil e sem mais forças, completamente só, como eu. Ajudei-a. Poucos passos mais e caiu de novo (...). Segurei-a (...). Quando caiu de novo, já não tive forças e gritei por ajuda. A mão de alguém agarrou-me, empurrou-me para diante (...). Um momento depois houve um tiro.”
Zofi a Bator, Colecção de memórias, museu de Auschwitz

É este último ano alucinante dos campos, do fim dos campos que Patrick Rotman, historiador francês, fixou no documentário que o canal France 3 mostrará em Abril próximo. Chama-se Os Sobreviventes e contém uma dúzia de testemunhos. O documentário representa muitos meses de trabalho mergulhado num pesadelo que pôs de rastos a sua equipa — que pouco sabia sobre o que se passara — e também a ele próprio.

Haverá ainda algo de novo a dizer sobre o extermínio nazi? Diz Rotman à PÚBLICA: Essa não é a questão decisiva, embora o documentário mostre, “como nunca foi visto”, o tempo final da vida nos campos, o modo como foram organizadas as marchas da morte e como os deportados as viveram. O que move Rotman e o impele para este trabalho de História é tentar perceber aquilo de que o homem é capaz: “O que me interessa é estabelecer como se sobrevive naquele universo, no triunfo do mal absoluto, em coabitação com o bem absoluto — um e outro criações do Homem. O que fazem eles, os deportados, naquele mundo? Temos tendência para pensar que o universo dos deportados, nos campos, era homogéneo. Mas não era: uns tinham trabalhos mais horríveis do que outros; uns eram mais privilegiados do que outros; existiam divisões precisas de campo para campo, de bloco para bloco”.

Auschwitz Adriano Miranda

A primeira e decisiva fronteira era definida pela natureza dos campos. Existiam os campos de concentração, entre muitos outros Buchenwald, Dachau — o primeiro a abrir, em 1933, logo após a ascensão de Hitler ao poder — e os campos de extermínio. Nestes últimos, estava-se destinado, apenas, a morrer. Eram seis os territórios de implementação da “solução final”, todos eles em solo polaco: Auschwiz-Birkenau; Belzec, Chelmno, Majdanek, Sobibor, Treblinka.

Diz o escritor Jorge Semprun: “Em Buchenwald morríamos de esgotamento, mas não existia, a priori, a vontade de aniquilar”. Semprun, o único espanhol do campo que falava alemão, foi colocado junto da administração de Buchenwald. Deram-lhe um trabalho no interior de uma casa, relativamente protegido dos rigores do clima, e onde as possibilidades de encontros mortais com guardas alemães eram também mais reduzidas.

Nesse trabalho geria-se a deslocação de deportados para fábricas ou a sua transferência para outros campos: “Por vezes tínhamos 48 horas para fornecer aos SS uma lista de três mil homens destinados a Dora [um campo de trabalho onde estava localizada uma fábrica de armamento]. Primeiro escolhíamo-los à sorte; depois, cada comité de resistência, francês, espanhol, comunista ou católico, intervinha para salvar os seus homens. Nós substituíamo-los por outros: eram precisos três mil. Do ponto de vista metafísico, isto pode parecer a pior das injustiças, mas era a moral da Resistência”, contou à revista da École Politechnique de Paris.

Nos muitos testemunhos que recolheu, Rotman reteve também esta constante: “Existia um combate permanente pela sobrevivência, mesmo entre deportados. Uma luta brutal, também entre as vítimas. Tenho depoimentos alucinantes sobre isto. Mas também sobre os gestos de ajuda de muitos”.

“(...) O chefe do bloco chamou-me: ‘Tu, vem cá’. Aproximei-me e ele estendeu-me o prato e disse: ‘Vai lavar isto!’. Estava meio cheio de batatas fritas. Era uma forma de me dar comida, já que não podia dizer: ‘Convido-te para o almoço’. Eu comecei a comer as batatas e a chorar um mar de lágrimas, era a nostalgia do sabor, mas era também outra coisa: tinha um garfo, estava a comer com um garfo”
Charles Palant.

Ninguém sai inocente da exposição prolongada ao terror — esta é uma das facetas mais impiedosas do mal, que torna ainda mais brutal a experiências das vítimas.

Oficiais das SS em Auschwitz U.S. Holocaust Memorial Museum/Reuters

No assombroso, mas também assombrado, discurso de recebimento do Nobel da Paz, em 1986, diz Elie Wiesel, antigo deportado em Auschwitz III: “A vida neste universo amaldiçoado era tão distorcida, tão anti-natural, que uma nova espécie evoluiu. Quando vagueamos entre mortos, deixamos de saber se ainda estamos vivos”.

É recorrente na História: quem sobrevive sente-se culpado. Quanto mais não seja, pela arbitrariedade total da decisão sobre quem vive e quem morre. Mas há outros tipos de culpa, não menos recorrente que esta. Por exemplo, como sublinha o historiador Omer Bartov, a que advém de um genocídio: “O genocídio é sempre um empreendimento colectivo”, quer dizer: de certo modo, todos somos culpados, por acção ou por inacção.

O filósofo francês Jacques Derrida insistia em que, sendo o perdão algo que só se coloca em relação a um crime imperdoável — é esse paradoxo constitutivo que o define — “perdoar é um acto de loucura”.

Ao célebre caçador de nazis Simon Wiesenthal também se impôs a impossibilidade do perdão, mas a questão perseguiu-o para sempre como conta no seu livro The Sunflowers: On the possibilities and Limits of Forgiveness. Judeu, Wiesenthal também foi internado num campo; jovem prisioneiro, tinha como tarefa manter limpo um cemitério reservado a soldados alemães. Um dia, num dos seus percursos, foi interpelado por uma enfermeira alemã: um SS moribundo pedia a presença de um judeu que o perdoasse. Wiesenthal acedeu a abeirar-se do moribundo, ouviu-o, mas saiu dali sem lhe dizer palavra. “Que fariam no meu lugar?”, pergunta ele.

Auschwitz Adriano Miranda

À pergunta de Wiesenthal respondem, de forma diferente, dois rabis emigrados nos EUA. Joshua Heschel: “É inconcebível conceber que alguém vivo possa perdoar em nome dos milhões que foram mortos”. Harold Kushner: “Perdoar torna-nos pessoas melhores, liberta-nos da raiva e da posição de vítima”. Insiste Wiesenthal: “No julgamento de nazis em Stutthof — onde funcionou um campo de concentração — só um dos acusados mostrou remorsos (...). A maioria dos outros apenas lamentou que as testemunhas tivessem sobrevivido para contarem a verdade”.

Aconteceu assim em praticamente todos os julgamentos, a começar pelo de Nuremberga (1945—46), o maior de todos, onde nenhum dos (apenas) 21 acusados se declarou culpado.

Foi na sequência da II Guerra, e dos campos, que surgiu a nova categoria jurídica de crime contra humanidade. Com uma especificidade essencial — é um crime imprescritível, ou seja, teoricamente “eterno” e sempre passível de punição. Provavelmente, o perdão não é um acto isolado e tem um tempo próprio para se tornar possível. Sem estas condições, permanece inatingível. No seu artigo “Is Forgivenesse Possible?”, escreve Albert Friedlander:

“Primeiro tem haver arrependimento de quem tenta ser perdoado, e vontade de desfazer o mal que foi feito. O perdão, difícil como é, seria então a resposta possível da vítima. Mas nem sempre é possível perdoar, se o mal perpetrado foi demasiado profundo e duradouro. Então ambos sofrerão: um porque não esquece a dor que lhe foi infligida, o outro porque carrega a consciência da expiação impossível”.

Seis milhões de judeus mortos. Um número, uma maneira de matar, que exclui qualquer possibilidade de reparação. Como tantas vezes se disse desde então: “Em Auschwitz foi a Humanidade que morreu”. Falta acrescentar: “E, portanto, nós esquecemos”.

Oficiais das SS em Solahutte, arredores do campo de Auschwitz, em 1944 U.S. Holocaust Memorial Museum/Reuters

Resultados de uma sondagem realizada no ano passado pela BBC, na Grã-Bretanha, país que participou na guerra, cuja capital foi sistematicamente bombardeada e cujas tropas estiveram entre as que libertaram campos de concentração: 45 por cento da população adulta disse nunca ter ouvido falar de Auschwitz. Nos “com menos de 35 anos”, a percentagem dos que disseram “não sei o que é” subiu para os 60 por cento.

Onde é que continuamos a falhar? O historiador francês François Cochet tem uma resposta: “O combate pela memória é indissociável do combate pelo ensino”. Se é assim, o naufrágio parece total. E nesta “vontade de não saber” reside também o que actualiza a singela constatação do pintor e antigo deportado Zoran Music, que nos anos 70 titulou assim uma sua colecção de litografias: “Não somos os últimos”. Não somos os últimos a morrer, outros morrerão em circunstâncias comparáveis.

Sara Atzamon, judia húngara, foi deportada aos 11 anos para o campo com toda a família. Nas transferências finais da guerra acabou em Bergen-Belsen. Quando foi libertada tinha 12 anos, pesava 17 quilos, tinha perdido os pais e a maior parte dos irmãos. Vive em Israel desde 1946, tem seis filhos. Tinha já 50 anos quando começou a falar do que lhe aconteceu e a pintar o que experimentou. Esta sua nova vida — falar do que viveu — tem-na levado várias vezes à Alemanha.

Auschwitz Adriano Miranda

Diz ela à PÚBLICA: “A primeira vez que voltei à Alemanha estava tão assustada... O primeiro sítio em que falei foi no campo de Bergen-Belsen, onde estive presa seis meses. E depois foi onde, em 1942, se decidiu implementar a solução final”. No fim senti-me emocionalmente obrigada a ler algo que, em hebreu, fosse o símbolo de que o mal tinha falhado o seu objectivo. Escolhi Ezequiel 37, 1-14, sobre as ossadas secas : ‘Porei o meu espírito em vós e vivereis, e instalar-vos-ei na vossa terra e assim sabereis que eu, Javé, disse e faço.’ Também foi lido em alemão, claro”.

“Se perdoei? Como pode alguém perdoar depois de ter perdido todos os seus?”, responde-nos Sara, que, no entanto, admite ter experimentado o que encarou como “uma espécie de aceitação”: “Acompanhei uma excursão de jovens aos campos de extermínio na Polónia e foi como se sentisse que estavam ali as cinzas da minha família. Não conseguia parar de chorar até não ter mais forças. Percebi definitivamente que não havia regresso, e isso representou para mim, apesar do enorme peso, uma espécie de aceitação”.

Um mês após a derrota dos nazis, em 1945, pouco mais de mil judeus reuniram-se em Munique. Um dos seus líderes, Zalman Grinberg, falou e disse: “Hitler venceu a guerra contra os judeus europeus (...). Esquecemo-nos de como se ri, não conseguimos chorar mais, ainda não compreendemos a nossa liberdade, estamos ainda entre os nossos camaradas mortos. Levantemo-nos, pois, e celebremos a nossa morte”.

No silêncio perene de Auschwitz, Uth chorou: “Dói-me ser alemã”. Uth, alemã, nasceu no pós-guerra e chamou a si a culpa dos pais. Muitos outros, da sua geração, fizeram como ela, dando assim corpo à “culpa alemã”. Do lado judeu, há filhos de deportados que não suportam a culpa de estarem vivos. Para muitos sobreviventes dos campos, dar à luz, ter um filho, foi o acto supremo de vingança, a verdadeira vitória da vida sobre a morte. Faltava um dos “depois” que se repete e de que fica este excerto: “O meu pai era casado antes da guerra. A sua mulher e filhos morreram. A minha mãe foi casada antes da guerra. O seu marido e filhos morreram. Conheceram-se mais tarde a caminho da Palestina, casaram e tiveram um filho — eu. Mas quando olham para mim não é a mim que vêem”.