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Memória

Auschwitz: como adiar a decadência da memória?

Angela Merkel visitou o campo que é o maior símbolo do Holocausto, e onde se colocam muitas questões sobre como o preservar. O que fazer com cabelos de vítimas que está a decompor-se? Manter a autenticidade é muito mais difícil do que parece.

Angela Merkel em Auschwitz, a sua primeira visita ao campo enquanto chanceler Reuters/AGENCJA GAZETA

A chanceler alemã, Angela Merkel, fez ontem a sua primeira visita oficial a Auschwitz, o complexo de campo de concentração e extermínio que se tornou o símbolo máximo do Holocausto, onde morreram mais pessoas do que em qualquer outro campo nazi e provavelmente do que em qualquer outro campo na história: estima-se que tenham sido mandadas para Auschwitz 1,3 milhões de pessoas, das quais 1,1 milhões morreram ou foram assassinadas.

Quando Merkel atravessou o portão de ferro com a inscrição Arbeit Macht Frei (“O trabalho liberta”), foi a terceira chanceler alemã a fazê-lo – Helmut Schmidt visitou Auschwitz em 1977, Helmut Kohl em 1989 e 1995. A chanceler levou uma doação de 60 milhões de euros para o memorial do museu.

Merkel já esteve em outros campos na Alemanha (Auschwitz está em território polaco, na altura ocupado pelos nazis alemães), mas esta visita a Auschwitz acontece numa altura em que o anti-semitismo está a ganhar uma força que não tinha na Alemanha, incluindo com um ataque contra uma sinagoga na cidade alemã de Halle (morreram duas pessoas – e não mais porque a arma do atacante emperrou). Esta é também a recta final da vida dos últimos sobreviventes do Holocausto e, com eles, o fim dos testemunhos em viva voz, e parte da discussão sobre como lembrar os crimes da II Guerra e da Shoah passa por como conservar os locais do extermínio, incluindo o enorme complexo de Auschwitz-Birkenau.

Há dez anos que uma fundação reúne fundos para o muito trabalhoso, e por isso caro, trabalho de preservação com contribuições de vários países e também individuais (como Steven Spielberg). Desde 2003 que o campo tem um laboratório com uma equipa de conservadores no local (quase quatro dezenas de pessoas). A parte financeira, que foi durante anos uma luta, está mais assegurada. Mas mantêm-se outros desafios.

“A nossa regra mais sagrada é: conservar, mas não reparar”, disse numa reportagem da revista alemã Der Spiegel uma das conservadoras que trabalha no laboratório, Margrit Bormann. O principal objectivo do memorial é manter a autenticidade – esta é a principal arma contra a negação.

O debate de base sobre a preservação de Auschwitz já é antigo. Em 2009, o historiador holandês e especialista em Holocausto Robert Jan van Pelt, da Universidade de Ontário, propôs uma ideia radical: após a morte do último sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, fechar o campo e deixá-lo ao seu destino: “Talvez o melhor modo de honrar os que foram assassinados no campo e os que lhe sobreviveram seja isolá-lo do mundo, e deixar a erva, raízes e arbustos cobrirem, destruírem e finalmente apagarem a menos natural criação do homem”, sugeriu. Especialmente Birkenau, o símbolo máximo do niilismo, onde literalmente desapareceram. Não dêem às pessoas a sensação de que podem imitar a experiência e pôr-se no lugar de quem lá esteve.”

A ideia contou com muita oposição, vinda também dos próprios sobreviventes. E os sinais foram em sentido contrário: Auschwitz é cada vez mais visitado, batendo recorde após recorde de visitas: em 2018, recebeu 2,15 milhões de pessoas (nos anos 1990, eram cerca de 400 mil por ano). O aumento de visitas trouxe outras questões, como disse o director do Museu, Piotr Cywinski, ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Há muitas pessoas que tentam levar objectos do antigo campo como lembranças.

O cabelo 

Rafal Pioro, um dos criadores do laboratório de conservação e um dos vice-directores do museu, explica que o que é feito é “conservação cautelosa”, que implica “sobretudo preservar o que existe”.

Há casos, no entanto, em que fazer isto é impossível e mesmo agora há respostas diferentes ao dilema deixar decair ou alterar para manter.

“Toda a gente que visita Auschwitz se lembra do cabelo”, escrevia num artigo para a revista norte-americana Smithsonian o jornalista especializado em ciência e história Andrew Curry. Em alguns dos edifícios estão expostos objectos, e numa das vitrinas está exposto cabelo cortado às prisioneiras (sobretudo de mulheres, o seu cabelo era mais valorizado, e servia depois para fabrico de têxteis, cordões e forro de botas militares, e mesmo para componente de explosivos). “Quando visitei Auschwitz em 1991, havia cabelo preto, castanho, ruivo, louro, e branco”, conta Curry, “provas emocionalmente avassaladoras das vidas aqui extintas”.

Depois de muito debate, e porque era impossível saber se as pessoas a quem foi retirado poderiam ainda estar vivas (o cabelo era rapado aos prisioneiros dos campos de trabalho vivos, e retirado aos que iam para as câmaras de gás após a morte), resolveu-se deixar que se deteriorasse. O que eram pedaços diferentes de pessoas diferentes “transformou-se numa massa quase indistinta, parece mais lã do que cabelo humano”, comentou o jornalista. “Apenas uma trança ocasional assinala os restos de algo sem precedentes e terrível.”

Um caso contrário é o dos barracões em madeira de Birkenau, os que ficam atrás do final da linha de comboio, que sempre foram especialmente precários, feitos por prisioneiros de guerra soviéticos, em solo pouco seguro, com poucas partes de pedra, às vezes desalinhadas com as fundações – construídos num campo de extermínio, não tinham como objectivo durar. Os edifícios de madeira, onde à data da libertação estavam as mulheres, estavam a pouco e pouco a sucumbir ao peso das telhas, as paredes a abaular. Parte do dinheiro doado agora pela Alemanha será usado para os recuperar.

Mas, aponta a revista Der Spiegel, o princípio de intervenção mínima tem um efeito paradoxal nestes edifícios de madeira: os que estão restaurados são mais resistentes ao vento, chuva e neve. “Os prisioneiros eram forçados a dormir sob tectos com infiltrações, através dos quais o vento assobiava e a chuva pingava. Agora, está tudo selado”, nota o jornalista. Tem de ser assim para preservar os esforços da reconstrução, mas algo mudou.

"O trabalho liberta"

E inevitavelmente há algumas coisas que são novas no campo: o arame farpado (há uma extensão de 14 km) já foi substituído várias vezes. A peça de metal com a inscrição Arbeit Macht Frei à entrada de Auschwitz também já não é a original – esta foi roubada em Dezembro de 2009 e apesar de mais tarde recuperada, estava dividida em três partes. O museu decidiu manter a réplica à entrada do local e guardar o original. Também as placas com uma caveira e dois ossos dizendo “parar” em alemão e polaco (Halt/Stoj) são novas – qualquer madeira ali deixada iria apodrecer passados poucos anos.

Nas vitrinas de Auschwitz, parte antigo campo parte museu, há, além do cabelo, óculos, próteses, malas dos prisioneiros, que à chegada eram obrigados a deixar tudo.

O que está exposto é apenas uma pequena parte do que existe. “O nosso problema é a enorme quantidade”, contava no artigo da Smithsonian Jolanta Banas, da equipa de conservação. “Contamos os sapatos em dezenas de milhar.” Por vezes, no meio da gigantesca dimensão, os conservadores encontram pequenas coisas que os comovem, porque são símbolo da ignorância dos prisioneiros sobre o local em que estavam, e do que era importante para eles: numas botas de criança, um conservador encontrou um teste de matemática guardado com cuidado. 

“Nós, humanos, somos seres materiais”, diz Agnieszka Tanistra-Rózanowska. “As coisas materiais acabam por ter mais efeito do que conceitos”, diz. “Os visitantes precisam disso para perceber o que se passou aqui.”

Também, explicou a conservadora à emissora alemã MRD, é importante ver o local, andar lá, imaginar como seria tentar sobreviver ou trabalhar. “E podem ter este sentimento contraditório, de que fora deste inferno havia uma vida muito normal. Acontece-me uma e outra vez, ter este sentimento, que aqui estão estes vestígios de crimes e ao mesmo tempo flores crescem, pássaros cantam, e a vida segue o seu caminho totalmente normal”.