Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Ascensão e queda de Albert Rivera

O Cidadãos foi uma história de sucesso na política espanhola. Esteve às portas do poder mas acaba de se despenhar. O seu jovem líder foi o obreiro da ascensão e o artífice da sua ruína.

Albert Rivera após anunciar a saída da política SUSANA VERA/Reuters

Albert Rivera, 39 anos, líder do Cidadãos, anunciou esta segunda-feira que abandona a política e a direcção do partido a que presidiu desde a fundação em 2006. É a primeira grande vítima do tsunami eleitoral de domingo, em que perdeu mais de dois milhões de votos e viu a sua bancada parlamentar reduzida de 57 para dez deputados. “Deixa o partido órfão e em luto”, resume El País.

Foi uma experiência vertiginosa. Em Maio de 2018, uma sondagem da Metroscopia indicava que o Cidadãos liderava as intenções de voto, com 29,1%. Em Abril, o Centro de Investigações Sociais (CIS) colocara, pela primeira vez, o Cidadãos à frente do PSOE, com 22,4%, e a menos de dois pontos do Partido Popular (PP). El País interrogava-se: “Será Albert Rivera o próximo presidente do Governo?”

Ele estava no auge. Em Dezembro de 2017, vencera as eleições catalãs. O secretário-geral José Manuel Villegas definia assim a linha do partido: “Estamos a alargar a opção do centro político. Os espanhóis têm uma opção distinta onde votar, uma opção reformista, liberal e um projecto sedutor para este país.” Dizia Rivera: “Vejo-me capaz de formar governo com gente do PSOE e do PP.”

“Tudo estava preparado para a chegada do Macron espanhol”, observou um porta-voz socialista.

De Barcelona a Madrid

O projecto do Cidadãos (Ciutadans de Catalunya) nasceu em 2005, em Barcelona, lançado por 15 intelectuais que se opunham à hegemonia nacionalista. Alguns vinham da esquerda pós-comunista. Em Julho de 2006, o congresso de fundação elege como presidente um quase desconhecido, Albert Rivera, 25 anos.

Nas eleições autonómicas de 2006, o Cidadãos elege três deputados, entre eles Rivera, que fizera uma campanha com um cartaz em que aparecia nu – “Nada tenho a esconder” ou “Não nos importa onde nasceste. Só nos importam as pessoas.” Em 2012, obtém 275 mil votos e nove deputados. É o ano de lançamento do procés independentista. Depressa o Cidadãos se transforma no seu mais irredutível adversário.

Rivera lança-se na política espanhola nas eleições europeias de Maio de 2014. Elege dois eurodeputados, que se filiam-se no grupo Democratas e Liberais pela Europa (ALDE). Destacados economistas, como Luis Garicano, Manuel Conthe ou Francisco de la Torre aderem ao partido e redigem o seu programa económico –  “reformista, liberal e social-democrata.”

O Cidadãos sobe nas sondagens. O quadro partidário espanhol passa de bipartidário a pluripartidário. A grande imprensa é a sua rampa de lançamento. O novo partido seduz eleitores à esquerda e à direita. Nesse momento, a política europeia mudava de paradigma. Os partidos convencionais decaiam e esbatia-se o eixo esquerda-direita.

As legislativas de Dezembro de 2015 confirmam a tendência. O Podemos obtém 20,6% dos votos e quer arrancar ao PSOE a hegemonia da esquerda. E, com 3,5 milhões de votos (13,9%), o Cidadãos elege 40 deputados. É o quarto partido nacional. O PP e o PSOE somam pouco mais de 50% dos votos, contra os 80% dos tempos áureos do bipartidarismo.

Estas eleições abrem uma longa crise política. O PSOE e o Cidadãos negociaram um programa de governo. Em vão, porque o Podemos recusou apoiar a investidura de Pedro Sánchez.

Veto a Sánchez

A moção de censura de 1 de Junho de 2018, apresentada pelo PSOE para derrubar o governo de Mariano Rajoy, marca uma fronteira. Sánchez obteve o apoio dos partidos independentistas, o que motivou a primeira ruptura com Rivera. No fim do Verão, Pablo Casado conquista a presidência do PP, fazendo uma viragem à direita para se demarcar da era Rajoy. É também o momento em que Rivera assume o objectivo de disputar ao PP a liderança da direita.

Os seus críticos aludem à dimensão pessoal desta decisão: ele não queria ser o “número dois” das alianças de governo, um eterno vice-presidente. Rivera ambicionaria ser presidente do Governo e, por isso, propõe-se ocupar o espaço do PP, abandonando a função de partido-charneira. Será justo acrescentar que a sorte dos partidos de centro nunca foi brilhante em Espanha.

Rivera lança uma ofensiva contra o líder do PSOE. “O meu projecto político é antagónico com o de Sánchez.” Esta opção abre uma brecha entre os dois dirigentes e provoca uma primeira fractura dentro do Cidadãos. Dirigentes como Luis Garicano ou fundadores como o constitucionalista Francesc Carreras condenam o “veto a Sánchez” e defendem a abertura a acordos com o PSOE e o PP.

A emergência do Vox, em fins desse ano, é novo factor de perturbação. Rivera perdia o monopólio do combate ao independentismo catalão. E, nas eleições de Dezembro na Andaluzia, consuma a viragem à direita. Troca a aliança com o PSOE por um acordo com o PP, acabando por aceitar o apoio do Vox ao executivo de Sevilha.

Em Fevereiro de 2019, comete um erro fatal ao participar na manifestação de Colón, de iniciativa do PP e Vox para denunciar a cumplicidade de Sánchez com o independentismo catalão. A fotografia ao lado de Casado e Abascal vai ficar como a prova do “trifachito”. Em Paris, Macron fez constar que não apreciava o gesto.

Em Julho, o veterano Carreras, mentor do jovem Rivera nos anos da fundação, abandona o partido e publica uma carta aberta no El País: “Querido Albert, não compreendo que agora nos falhes e que o jovem maduro e responsável se tenha convertido num adolescente caprichoso.” Acusa-o de atirar Sánchez para os braços do Podemos e dos independentistas, concluindo: “O Cidadãos evoluiu para um nacionalismo espanhol oposto ao seu ideário.”