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Nem as árvores queimadas da Amazónia estragam o bromance Bolsonaro-Trump

França introduziu o tema dos incêndios na Amazónia na agenda do G7. Presidente dos EUA fez questão de mostrar de que lado está telefonando ao homólogo brasileiro antes de cruzar o Atlântico.

Jair Bolsonaro e Donald Trump, aquando da visita do Presidente brasileiro aos EUA MICHAEL REYNOLDS/EPA

Se Emmanuel Macron esperava convencer Donald Trump a dar um passo para o seu lado na questão da floresta amazónica, que o Presidente francês introduziu na agenda do G7, o Presidente dos Estados Unidos fez questão de garantir antes de chegar a Biarritz que ainda está para queimar a árvore que o faça mudar de ideias sobre a protecção do ambiente e as alterações climáticas.

Trump e o seu homólogo brasileiro falaram ao telefone na sexta-feira e o chefe de Estado norte-americano escreveu no Twitter que as “perspectivas comerciais futuras” entre os dois países “são muito excitantes”. “A nossa relação é forte, se calhar mais forte do que alguma vez foi”, acrescentou.

Bolsonaro também sublinhou no seu tweet sobre a conversa que “as relações entre o Brasil e os EUA estão melhores do que nunca” e foi mais além, dizendo que os dois países querem “lançar uma grande negociação comercial em breve”.

O Presidente dos EUA não ficou contente com a atitude do chefe de Estado francês de introduzir na agenda da cimeira a questão da floresta amazónia, em particular, e da protecção ambiental em geral, bem como da igualdade de género, temas que são propensos a deixar Trump isolado.

Um membro do Palácio do Eliseu negou, no entanto, em declarações ao Politico, qualquer vontade de hostilizar Donald Trump. Para Paris, o tema comercial e da defesa do meio ambiente não se excluem mutuamente, antes pelo contrário. “Não é clima ou comércio, são ambos” e “a desigualdade, o clima e o digital são tópicos que não nos podemos dar ao luxo de excluir da cimeira”.

Macron e Trump conversaram este sábado num almoço em Biarritz, à chegada do Presidente dos EUA a França. No Twitter, o líder norte-americano fez questão de sublinhar o tom amigável do encontro, apesar de os dois estarem em comprimentos de onda diferentes.

Antes de viajar para a cidade costeira do País Basco francês, Macron gravou uma mensagem aos franceses em que reconheceu “o desacordo com certos países, em especial os Estados Unidos” no que diz respeito à questão ecológica, sem deixar de referir que era importante “responder ao apelo do oceano e da floresta que arde” e discutir a questão este domingo com os outros líderes do G7.

“Sobre a Amazónia, não vamos lançar apenas um apelo, mas uma mobilização de todas as potências” para, “em parceria com os países da Amazónia, lutar contra esses incêndios e investir na reflorestação”, disse Macron, assumindo para a França a condição de única potência amazónia em Biarritz, por causa da Guiana, território ultramarino francesa.

Fosse pelas ameaças da Europa ou pela pressão dos seus próprios apoiantes, o Presidente brasileiro mudou de tom em relação ao tema da Amazónia. Passado o tempo do desafio aos líderes europeus, foi um Presidente Bolsonaro apaziguador aquele que falou na sexta-feira à noite: “Incêndios florestais existem em todo o mundo”, daí que isso “não pode ser pretexto para sanções internacionais”.

Ciente de que a sua política ambiental (ou ausência dela) está a trazer mais problemas para o Brasil, afectando até muitos dos agro-industriais que o apoiam, o Presidente brasileiro anunciou que vai enviar ajuda militar para os estados que compõem a denominada Amazónia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondónia, Roraima, Tocantins e Maranhão).

“A protecção da floresta é nosso dever”, afirmou o chefe de Estado que se mostrou disposto a “combater o desmatamento ilegal e quaisquer actividades criminosas que coloquem” a “mata em risco”.