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E se as alterações climáticas não lhes interessam? Mostrem-lhes o dinheiro

Explicar aos decisores políticos e aos agentes económicos que investir na economia verde é mais lucrativo do que insistir nos combustíveis fósseis ou que há um lucro efectivo em proteger a floresta pode ser mais eficiente do que recorrer apenas ao argumento ecológico.

Floresta Amazónia, Setembro de 2019 Ricardo Morae/Reuters

A 25.ª Convenção das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas estava no seu primeiro dia quando Bertrand Piccard pôs o dedo sobre uma grande ferida: como se convencem os decisores políticos e económicos que não se importam com as alterações climáticas ou com o futuro das gerações mais jovens a fazer as mudanças necessárias para evitar uma catástrofe ambiental? “Explicando quão lucrativa é a economia verde. Sendo mais lógico e menos ecológico”, disse.

Não é uma questão pequena, sobretudo numa COP em que dois dos protagonistas, pela negativa, são os Presidentes dos Estados Unidos da América e do Brasil, países que estão entre os principais emissores de gases com efeito de estufa (GEE) mundiais. No caso de Jair Bolsonaro, ele é também responsável pela maior parte da Amazónia (60% da floresta está dentro das fronteiras do Brasil), o grande pulmão verde do planeta. E o anúncio de Donald Trump de que o país vai abandonar o Acordo de Paris está a ser contestado diariamente na Feira de Madrid, onde decorre a cimeira até dia 13, com o pavilhão norte-americano (o US Climate Action Center) ​em que acontecem palestras constantes por parte de empresas, universidades e outros organismos a apresentar-se com a frase “We are still in” (Ainda estamos [no Acordo de Paris]).

Por isso, quando no primeiro dia da cimeira do clima, numa mesa-redonda em que também participou o primeiro-ministro português, António Costa, o médico, explorador e investidor suíço levantou a questão dos que não se importam com as alterações climáticas, o assunto estava perfeitamente integrado num palco em que as alterações climáticas são o actor principal. “Há pessoas que não se preocupam de todo com o ambiente e a próxima geração. E quando se juntam essas pessoas, elas formam uma maioria. É com eles que temos de falar. Quando falamos aqui, entre nós, entre pessoas que têm as mesmas preocupações, não é suficiente”, disse Piccard, fundador da Solar Impulse Foundation e que em 2016 encheu páginas de jornais em todo o mundo ao tornar-se um dos dois pilotos que completaram uma volta ao mundo num avião movido a energia solar, o Solar Impulse 2.

A solução, defendeu, é mudar o centro da questão. “Temos de falar com eles como se as alterações climáticas não existissem e levá-los a mudar. Como? Explicando quão lucrativa é a economia verde”, defendeu. “Quando lhes explicarmos o quanto vão lucrar e os empregos que vão criar, não têm desculpa para abandonar a luta contra as alterações climáticas. Mesmo os que não se preocupam com isso. É o dinheiro”, argumentou.

Francisco Ferreira, da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, concorda que o argumento económico é um bom caminho a seguir. “É preciso que as pessoas percebam que quanto mais tarde se intervir, mais caro vai ficar [resolver os problemas decorrentes das alterações climáticas]. E também que grande parte das emissões estão associadas ao uso de combustíveis fósseis e que os custos das energias renováveis estão a ficar muito mais atraentes do que o uso desses combustíveis”, diz.

Este sábado, à margem de um painel em que se discutiam soluções baseadas na natureza para combater as emissões de GEE, a directora de Ciência do IPAM - Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia, Ane Alencar, também propunha uma solução baseada na economia para convencer o governo federal de Jair Bolsonoro a proteger a floresta. “Infelizmente, o sinal que o governo actual tem dado não é muito bom para combater o desmatamento. Tanto que ele aumentou de uma forma muito abrupta este ano.

Mas o que se espera é que o governo federal entenda que o combate ao desmatamento é fundamental para, por exemplo, o sector do agro-negócio. Este é um dos principais sectores da nossa economia, que viu a sua reputação internacional diminuída com esta instabilidade que foi gerada pela questão de falta de governança ambiental e pela desestruturação que este governo tem feito das leis ambientais. Isso tem impactado directamente a sustentabilidade do agro-negócio brasileiro e é importante que o governo perceba isso e comece rapidamente a desestimular o desmatamento desnecessário e ilegal que representa pelo menos um terço do desmatamento da região”, disse ao PÚBLICO.

Um caso de polícia

Pouco antes, Ane Alencar tinha apresentado a uma sala cheia dados sobre os brutais incêndios de Agosto na Amazónia, que classificou como “um caso de polícia”, atribuindo a responsabilidade dos fogos extemporâneos (Setembro costuma ver o pico de incêndios) e dissociados da ausência de chuva (o ano não tinha sido particularmente seco) a “pessoas que estavam a especular com a terra”.

A responsável do IPAM apontou soluções para proteger a floresta - o estabelecimento de algum tipo de protecção para as áreas que pertencem ao domínio público da Amazónia; criar incentivos de conservação para as zonas privadas da floresta; e desenvolver apoios para os pequenos produtores -, mas, quando lhe perguntam se essas soluções são expectáveis com o actual governo federal, sorri e recorre ao argumento económico.

E se ele não funcionar, há sempre a possibilidade de tal como nos Estados Unidos, os governos estaduais agirem de forma diversa do governo central. “Eles têm um papel muito importante agora”, diz Ane Alencar. “Temos um consórcio de governadores da Amazónia que estão vindo para a COP com esse roteiro: o que é que a gente pode fazer realmente para desincentivar a ilegalidade no desmatamento e promover as boas práticas na agricultura e na gestão florestal.”

São governadores que, na sua maioria, apoiaram a eleição de Bolsonaro, diz, mas que lidam de perto com os problemas criados pela destruição da floresta e que, além disso, estão a procurar perceber o que Ane Alencar diz ser “um governo actual confuso”. E explica: “Se, por um lado, vimos os primeiros seis meses de governação, em que se negou todo o processo de desmantelamento da política ambiental — que acabou incentivando o desmatamento —, por outro lado temos o ministro do Ambiente a dizer na COP que o Brasil preserva uma grande parte das florestas do mundo e que precisa de recursos para continuar a preservar. São mensagens trocadas e todo o mundo fica sem saber o que está acontecendo.”

A COP25 está a decorrer em Madrid até ao dia 13 de Dezembro, depois de o Brasil ter recusado organizar o encontro e de o Chile, que o substituiu, ter abdicado de acolher a cimeira devido aos protestos que tomaram conta das ruas há semanas.