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Partido Democrata empurra Al Franken para fora do Senado

Senador norte-americano não aguenta pressão e anuncia demissão, apesar de voltar a negar todas as acusações de assédio sexual. No outro lado, o Partido Republicano continua a apoiar o candidato Roy Moore, acusado de assediar adolescentes.

Al Franken nega todas as acusações Reuters/AARON P. BERNSTEIN

Durante grande parte da sua vida, Al Franken foi conhecido como um brilhante criador de personagens e piadas nos anos dourados do programa "Saturday Night Live", nas décadas de 1970 e 1980. Mas, nos últimos dez anos, o jovem humorista de caracóis e óculos de massa foi substituído por um senador de meia-idade com cabelo grisalho e óculos de massa – uma segunda vida sob o olhar atento dos americanos, desta vez na política, que chegou ao fim esta quinta-feira embrulhada no gigantesco escândalo de assédio e abuso sexual nos Estados Unidos.

O anúncio de Al Franken chegou esta quinta-feira, mas a demissão do senador já tinha sido antecipada pelos seus colegas do Partido Democrata. Na quarta-feira, o site Politico noticiou mais uma queixa de assédio sexual contra o senador do Minnesota – a 8.ª em três semanas –, e mais de metade dos políticos da sua própria bancada apontaram-lhe logo ali a porta de saída.

"Anuncio que vou renunciar nas próximas semanas ao meu cargo de membro do Senado dos Estados Unidos", disse esta quinta-feira Al Franken, de 66 anos, num discurso perante os seus colegas do Partido Democrata e do Partido Republicano. Na hora da saída, Franken voltou a negar todas as acusações e apontou na direcção do Partido Republicano, com referências ao Presidente Donald Trump e ao candidato ao Senado no Alabama, Roy Moore: "Mais do que ninguém, consigo ver a ironia no facto de eu sair enquanto que um homem que se gabou numa gravação dos seus abusos sexuais está sentado na Casa Branca, e outro homem que atacou adolescentes é candidato ao Senado com total apoio do seu partido."

Apesar de negar as acusações, Franken diz que deixou de ter condições para trabalhar a cem por cento como senador do Minnesota porque as respostas às denúncias ocupam-lhe grande parte do tempo.

Da conspiração à demissão

Foi o desfecho de uma novela que estava a crescer desde 17 de Novembro, quando a locutora de rádio Leeann Tweeden acusou Al Franken de a ter beijado à força no ensaio de uma apresentação às tropas norte-americanas no Médio Oriente, em 2006, quando o antigo humorista ainda não tinha chegado à política.

Para além de ter falado nesse beijo – que Franken sugere não ter sido forçado, quando diz que não se recorda de "as coisas terem acontecido dessa maneira" –, Tweeden mostrou também uma fotografia em que Franken surge a simular que lhe toca no peito enquanto ela está a dormir.

Com o país já dominado pelo escândalo de assédio e abuso sexual que começara em Hollywood e passara para as redacções de jornais e televisões importantes, a acusação contra um dos senadores mais progressistas do Partido Democrata deu início a uma outra troca de acusações: como o candidato do Partido Republicano ao Senado pelo estado do Alabama, Roy Moore, tinha sido acusado uma semana antes de assediar e abusar sexualmente de adolescentes nas décadas de 1970 e 1980, a acusação contra Al Franken só podia ser uma conspiração.

Face à trama "de liberais, lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e socialistas" contra Roy Moore (segundo declarações do próprio), a direita ultraconservadora liderada por Roger Stone, amigo e conselheiro de Donald Trump, tinha orquestrado uma vingança. E a prova era o facto de Roger Stone ter antecipado no Twitter, no dia 17 de Novembro, que Al Franken estava prestes a ser denunciado.

Tal como a tese de uma conspiração no caso de Roy Moore é posta à prova pelas denúncias de oito mulheres, corroboradas por dezenas de pessoas a quem elas contaram os casos há vários anos, a tese de uma conspiração no caso de Al Franken também tem sido difícil de sustentar – depois daquela primeira acusação, que os seus mais acérrimos apoiantes dizem ter sido fabricada pela direita ultraconservadora, outras sete mulheres surgiram em público a acusar Al Franken de as ter apalpado ou tentado beijar à força.

Assédio com eleições à vista

Apesar de as denúncias contra Roy Moore poderem ser vistas como mais graves – o candidato do Partido Republicano é acusado de ter procurado e forçado contactos sexuais com adolescentes, quando tinha cerca de 30 anos  –, os dois casos têm pontos comuns.

Em primeiro lugar, e ao contrário do que tem acontecido nos casos de denúncias no mundo do cinema e do jornalismo, os dois políticos negam todas as acusações; em segundo lugar, grande parte do eleitorado tem os olhos postos nestes dois casos para verem de que forma o Partido Republicano e o Partido Democrata lidam com o grande problema que serve de pano de fundo – o debate sobre assédio sexual na sociedade americana.

E foi também por causa desse posicionamento que o Partido Democrata pressionou Al Franken a demitir-se. A partir deste momento, o Partido Democrata abdica de um senador que tinha o seu lugar garantido na linha da frente da guerra contra Donald Trump pelo menos até 2020, e o Partido Republicano fica numa posição ainda mais incómoda ao manter o apoio a um candidato ao Senado acusado de assédio sobre adolescentes para não oferecer a eleição ao candidato do Partido Democrata.

Se o Partido Republicano deixasse cair Roy Moore agora, a poucos dias da eleição especial no Alabama, o seu adversário do Partido Democrata, Doug Jones, veria crescer as possibilidades de vitória – e, se isso acontecesse, o Partido Democrata reduziria a sua desvantagem no Senado de 52-48 para 51-49, ao mesmo tempo que recebia uma injecção de moral por ter ganho no muito conservador Alabama.

Quanto a Al Franken, fica a declaração de inocência perante o Senado e milhões de americanos, uns mais interessados em saber o que iria acontecer à carreira política do antigo herói da comédia e outros mais preocupados com o debate sobre o privilégio masculino: "Algumas alegações simplesmente não são verdadeiras, e em relação a outras tenho uma recordação muito diferente."

Franken é o segundo membro do Congresso a apresentar a demissão em dois dias seguidos. Na quarta-feira, John Conyers, também do Partido Democrata, anunciou que vai sair da Câmara dos Representantes, depois de ter sido acusado de assédio sexual por várias antigas assistentes. Conyers era o congressista mais antigo em funções, tendo sido eleito pela primeira vez em 1965.