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Análise

A Europa pode pouco contra Trump

A agenda oficial da cimeira de Sófia foi submersa pelos acontecimentos internacionais que se sucedem a ritmo vertiginoso e que questionam directamente a UE.

1. Seguindo o padrão dos tempos recentes, a agenda oficial da cimeira europeia de Sófia já está submersa pelos acontecimentos internacionais que se sucedem a ritmo vertiginoso e que questionam directamente a Europa. Ontem, o jantar dos líderes devia ter sido dedicado à agenda digital. O acordo nuclear com o Irão, que Donald Trump rasgou, foi certamente o prato forte, incluindo as suas repercussões.

Hoje, os líderes europeus têm o seu primeiro encontro com os representantes dos seis países dos Balcãs Ocidentais que não aderiram à União Europeia, depois de 15 anos de “ausência”. Bruxelas foi fazendo, em parte, o seu trabalho, mantendo a ideia de uma “perspectiva” europeia e abrindo negociações de adesão com os mais avançados: Sérvia e Montenegro. Seguem-se a Albânia e o Kosovo. A adesão manteve-se um estímulo, ainda que vago, para a modernização económica, a democratização política e a pacificação.

Alguns países, incluindo a França, Bélgica e Holanda, não querem compromissos firmes. Mas todos reconhecem que há hoje uma outra dimensão do problema, que dá pelo nome de Rússia. Moscovo tem apostado fortemente na região, tentando ocupar o vazio deixado pela Europa. Os seus métodos são os habituais: lançar a confusão e garantir o abastecimento energético. Mesmo assim, o apelo europeu tem prevalecido. A declaração que os líderes vão assinar hoje pretende “renovar a esperança”, sem nunca mencionar as duas palavras controversas: alargamento e adesão. A imigração também ajudou, com uma vaga de refugiados a seguir a rota dos Balcãs para chegar à Europa. 

2. Mas foi o Presidente americano quem tomou conta da agenda. O Irão e o Médio Oriente são razões mais do que suficientes. A Europa quer salvar o acordo nuclear com Teerão, apesar da saída dos EUA. Federica Mogherini tem-se multiplicado em encontros para poder apresentar uma estratégia realista. Mas nem ela nem ninguém se pode comprometer com os resultados.

A ideia é encontrar uma fórmula que mantenha as relações económicas com o Irão, na sequência do levantamento gradual das sanções, que estavam a asfixiar a economia do país. O problema é como evitar as sanções prometidas por Washington às empresas que estejam nos EUA e que mantenham negócios com o Irão. São muitas. O peso da economia americana, do seu sistema financeiro e do dólar ainda são poderosas armas dissuasoras. Nada é ainda certo. E há ainda uma dimensão na qual a Europa não pode substituir os EUA: a garantia de segurança dada ao regime.

A decisão americana não afecta apenas o Irão. Arrasta consigo um realinhamento dos equilíbrios regionais, que visa justamente o isolamento do Irão. Trump escolheu como aliados a Arábia Saudita e Israel. Os trágicos acontecimentos desta semana na Faixa de Gaza sublinham uma situação potencialmente explosiva no eterno conflito do Médio Oriente, mesmo que com pouco risco de contágio. Os europeus olham para a decisão de reabrir a embaixada americana em Jerusalém e proclamar a cidade como “a eterna capital de Israel” como um acto absolutamente gratuito que, como no Irão, apenas serve para alimentar os extremos. Mas a experiência mostra que a Europa tem muito pouca influência no conflito israelo-palestiniano, também por causa das suas divisões internas numa questão particularmente melindrosa.

3. O que houve de novo na reacção dos europeus foi o alinhamento entre as três principais potências europeias na defesa do acordo e na necessidade de preservá-lo. A razão é óbvia e tem um nome: Donald Trump. A forma como olha o mundo choca de frente com a União Europeia. A Europa quer defender o multilateralismo. Trump é o primeiro Presidente desde o pós-guerra que não conhece sequer essa palavra. “A decisão americana representa um assalto a céu aberto ao multilateralismo”, diz Bruno Tertrais, director da Fundação para a Investigação Estratégica de Paris. “Os europeus têm um interesse existencial em defendê-lo”. O investigador francês acrescenta que a decisão de Trump é “um tiro no pé”, que “afecta severamente a credibilidade mundial” dos EUA. Mas a sua conclusão é prudente: os europeus continuam a precisar da NATO para a sua segurança. Agora, mais do que nunca, quando a Rússia passou a ser uma ameaça e o Médio Oriente é uma constante fonte de instabilidade e de conflito. Os governos europeus, na sua grande maioria, têm plena consciência desta dependência. Mas estão perante uma nova realidade com a qual ainda não sabem como lidar: o Presidente americano parece ser absolutamente indiferente às opiniões e aos interesses dos seus aliados. É também o primeiro Presidente que não tem qualquer interesse na integração europeia. Durante semanas, Londres, Paris e Berlim tentaram negociar incansavelmente com Trump para salvar o acordo. Comprometeram-se com a sua revisão de forma a responder às exigências americanas (algumas até pertinentes). Emmanuel Macron e Merkel foram visitá-lo, convencidos de que uma conversa frente-a-frente seria mais eficaz. Saíram sem nada. Ficaram sem nada. Terão de incluir esta nova realidade nos seus cálculos. Não podem esticar demasiado a corda, porque sabem até que ponto a sua segurança depende dos Estados Unidos. Precisam de fazer alguma coisa para impedir o caos.