Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

A China sonhou com uma “super-cidade” e Jing-Jin-Ji está a nascer

Governo chinês está a investir forte para juntar Pequim, Tianjin e Hebei e criar um gigantesco centro urbano. Objectivos são evitar a sobrelotação da capital e criar um pólo económico suficientemente robusto para rivalizar com Xangai e Guangdong.

O sonho de criar um “megacentro urbano” à volta de Pequim remonta aos anos de 1980 REINHARD KRAUSE/ASIA

“Jing”, de Beijing, — nome, em mandarim, da capital da China, Pequim, — “Jin”, da abreviatura da cidade-municipalidade de Tianjin e “Ji”, do antigo nome da actual província chinesa de Hebei. Juntas, fazem Jing-Jin-Ji, a designação escolhida para a “super-cidade” que a China está a criar e que se espera ser digna desse nome em 2022, ano dos Jogos Olímpicos de Inverno, aos quais Pequim se candidatou a organizar.

O sonho de criar um “mega centro urbano” em volta de Pequim remonta aos anos de 1980, mas o plano apenas começou a ganhar corpo, efectivamente, no início do século XXI. Nos últimos anos, o projecto foi brutalmente aprofundado, pela mão do actual Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, e pressupõe a integração, numa autêntica “megalópolis”, das municipalidades de Pequim e Tianjin e da província de Hebei.

Com o estatuto de país mais populoso do mundo e uma economia pujante, os projectos megalómanos da China já quase não causam surpresa. Mas o plano de Jing-Jin-Ji ultrapassa o rótulo de “expectável”, mesmo para os padrões chineses. Está em causa uma área total de cerca de 215 mil quilómetros quadrados (como comparação, Portugal Continental tem 92 mil), onde se calcula que já vivam perto de 110 milhões de pessoas e que engloba duas municipalidades e uma província.

A capital da China e a cidade portuária de Tianjin, já são, actualmente, importantes centros urbanos – daí o seu estatuto administrativo de “municipalidades” - e a sua junção numa só cidade seria, só por si, um plano considerado “ambicioso”. Mas o Governo chinês quer ir mais longe e integrar, para além destas localidades, toda a província de Hebei, um território que é sete vezes maior do que Tianjin e Pequim juntas. Hebei circunda as duas cidades e é o elemento-chave para fazer de Jing-Jin-Ji um verdadeiro “monstro urbano”.

O projecto de Jing-Jin-Ji move-se segundo dois grandes objectivos, interligados e intimamente relacionados com a “ameaça” de sobrelotação de Pequim.

O primeiro é de natureza económica e assenta numa lógica de descentralização. Segundo o jornal norte-americano The New York Times, Xi Jinping deseja que Pequim seja o centro político, cultural e tecnológico, como um “farol” da civilização chinesa. Por outro lado, Tianjin seria o núcleo duro da produção e exploração industrial. Já Hebei, cujo caminho a percorrer, para se tornar numa área urbana efectiva, ainda é bastante significativo, receberia as indústrias consideradas menores, nomeadamente a têxtil. Tal divisão resultará, no plano visionário para a China, num pólo económico suficientemente pujante para rivalizar com as “cinturas económicas” de Cantão e Xangai.

O segundo objectivo do projecto da “super-cidade” é o da criação de um mecanismo efectivo de controlo da população que reside e trabalha em Pequim. Diz o NYT que foi estabelecido um limite máximo de 23 milhões de habitantes na capital (actualmente contam-se, segundo os números oficiais, cerca de 22) e para tal, o Governo anunciou a deslocação de hospitais, centros comerciais e escritórios da área envolvente da Cidade Proibida e da Praça Tiananmen para os subúrbios de Pequim. É previsto que, no futuro, Jing-Jin-Ji dê casa e trabalho a mais de 130 milhões de pessoas.

Uma outra medida, mais radical, é a construção de cidades inteiras em áreas onde antes só havia deserto. Acontece que muitos dos prédios destes aglomerados urbanos ainda não foram ocupados, pelo que algumas destas cidades fazem lembrar, segundo a descrição da agência Bloomberg, autênticos cenários “pós-apocalípticos”, dignos de um “filme de zombies”.

Cidades-dormitório

Para que a “mega-cidade” seja uma realidade, as autoridades da China estão a investir fortemente numa complexa rede de auto-estradas, de metro e de comboios de alta velocidade, que ligue todos os pontos de Jing-Jin-Ji e a transforme numa só região. Mas enquanto isso não passa de um projecto, para algumas cidades a realidade é bem dura. Apesar de muitos dos novos amontoados de prédios estarem desocupados, há locais que apenas são “cidades-fantasma” durante o dia, como Yanjiao.

Situada na província de Hebei, esta cidade beneficiou da construção em massa destes novos prédios, de 25 andares, e nela vivem, actualmente, cerca de 700 mil pessoas, um número dez vezes superior ao verificado em 2005. Mas o número reduzido de postos de trabalho e serviços, como hospitais ou escolas, fazem desta e de inúmeras outras cidades na área de Jing-Jin-Jin, autênticas cidades-dormitório, uma vez que as pessoas apenas conseguem arranjar trabalho em Pequim.

“Os serviços são maus”, admite ao New York Times Zheng Linyun, um dos milhares de residentes em Yanjiao que se desloca todos os dias para a capital, criticando o mau planeamento da sua cidade. “E vemos mais e mais pessoas a chegarem aqui”, lamenta.

Todas as manhãs, em Yanjiao, as filas de pessoas que esperam por um autocarro — os comboios de alta velocidade e a linha de metro ainda não chegaram ali — que as leve para a capital, dão a volta a quarteirões inteiros. Há mesmo um ritual comum a vários idosos que já estão reformados. Para que os seus filhos, trabalhadores, possam dormir mais umas horas, muitos destas pessoas vão para as filas, de madrugada, para lhes guardar lugar. Como normalmente o tempo de espera é de várias horas, quando os filhos chegam às improvisadas paragens de autocarro, os pais já estão perto de veículo, pronto a partir, e passam-lhes o lugar que estiveram a guardar.

Para além da falta de condições básicas, próprias de um crescimento rápido e brutal, e dos materiais baratos utilizados para a construção das infra-estruturas, localidades como Yanjiao carecem de espaços comunitários, como jardins, cinemas ou centros comerciais. Tal realidade faz com que, nos dias de descanso, as “cidades-zombie” fiquem estranhamente sobrelotadas.

Laboratório urbano

“A ‘super-cidade’ é a vanguarda da reforma económica”, diz um professor de uma universidade de Tianjin, citado pelo
The New York Times, entusiasmado com o projecto. Mas ela também quer ser “amiga do ambiente”. Segundo o académico, Jing-Jin-Ji “reflecte a visão da necessidade de integração, inovação e protecção ambiental”. É intenção de Xi Jinping deslocar, para fora de Pequim, cerca de mil e duzentos negócios “causadores de poluição”, como os ligados à exploração de carvão e produção de aço.

Xi Jingping aposta forte na criação da “super-cidade” de Jing-Jin-Ji e parece disposto a tornar a região num autêntico “laboratório urbano” e num centro económico chinês tão importante como Xangai ou a província de Guangdong, a sul.

À semelhança da corrida à organização dos Jogos Olímpicos de 2008, que Pequim acabou por vencer, a China aposta forte nas Olimpíadas de Inverno de 2022. A candidatura da capital à organização deste importante evento desportivo – a eleição terá lugar no dia 31 de Julho de 2015 - pressupunha, desde logo, que o projecto de Jing-Jin-Ji estivesse em curso. Pequim está situada numa vasta zona plana, inadequada para a grande maioria das provas, e as montanhas mais próximas estão situadas em Zhangjiakou, precisamente na actual província de Hebei. Uma vitória da candidatura chinesa resultaria numa oportunidade única para mostrar Jing-Jin-Ji ao mundo.

Do projecto à existência real da “megalópolis” distam sete anos, se tudo correr como Pequim prevê. Jing-Jin-Ji está mais perto da realidade que do sonho.

Texto editado por Ana Gomes Ferreira