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NATO: aos 70 anos, uma crise já pode ser fatal?

Cimeira da NATO para celebrar 70 anos não foge à turbulência que atingiu as relações transatlânticas desde a eleição de Trump. Macron declarou a “morte cerebral” da Aliança. Os aliados europeus não querem ouvir falar de tal coisa.

Trump e Macron: o protagonismo da cimeira da NATO em Londres passa por eles Christian Hartmann/Reuters

Será mais uma cimeira da Aliança Atlântica envolta em polémica, disso já ninguém tem dúvida. E desta vez não é apenas graças à presença de Donald Trump, cujo comportamento é sempre imprevisível, para além do seu confessado desamor pela organização. As declarações recentes do Presidente francês sobre a “morte cerebral” da NATO contribuíram também para aumentar a tensão em torno do futuro e da utilidade da Aliança entre os aliados europeus.

Emmanuel Macron lançou o rastilho na sua já célebre entrevista à Economist, publicada a 7 de Novembro, na qual resolveu declarar a NATO “estrategicamente em morte cerebral”, acrescentando que os EUA “nos estão a virar as costas”. A resposta dos aliados europeus, a começar por Berlim, foi imediata, distanciando-se da declaração do Presidente francês e reclamando a Aliança Atlântica como indispensável para a segurança europeia. No final da semana passada, Angela Merkel voltou a lembrar que a Europa ainda não tem meios para se defender. “A preservação da NATO é do nosso interesse fundamental, talvez ainda mais do que na Guerra Fria. Por enquanto, a Europa não consegue defender-se sozinha”, disse a chanceler perante o Bundestag. 

Mas a polémica está lançada e o Presidente francês não deu sinais de arrependimento, argumentado que “ignorar os problemas” deixou de ser uma alternativa viável. Não chega a haver uma incompatibilidade absoluta entre as duas posições – a de Paris e a da maioria dos aliados europeus, a começar por Berlim e incluindo Portugal (ver texto ao lado). Há, sim, um sentido de oportunidade diferente entre os que pensam, como Macron (e não são muitos), que chegou o momento de pôr as cartas na mesa, e os que consideram que o melhor é “fazerem-se de mortos” até que a turbulência provocada na relação transatlântica pelo actual Presidente americano desapareça, quando ele próprio desaparecer da Casa Branca.

Cimeira para “agradar”

O secretário-geral da NATO, o norueguês Jens Stoltenberg, que tem andado de capital em capital a tentar colar os cacos, preparou uma cimeira que seja breve e cuja agenda agrade a Trump, para evitar que aconteça em Londres o mesmo que aconteceu em Bruxelas, em Julho do ano passado, quando o Presidente americano conseguiu lançar o pânico entre os aliados ao dar a entender que os Estados Unidos poderiam “dispensar” a NATO, se os europeus continuassem a não querer pagar pelos serviços prestados para garantia da sua defesa. Outra pequena frase esteve na origem do sobressalto: “Os Estados Unidos podem seguir o seu próprio caminho.” Trump, além de se mostrar relutante em referir o Artigo 5.º do Tratado de Washington (“um ataque a um é um ataque a todos”), resolveu elevar inesperadamente a meta para os gastos com a defesa de 2 para 4% do PIB até 2024. Um objectivo que nem os próprios EUA alcançam. Chegou a apelidar alguns aliados de “delinquentes” e acusou Berlim de se “deixar controlar” pela Rússia, apontando o dedo ao novo gasoduto que em breve ligará os dois países para fornecimento de gás à Alemanha.

Jens Stoltenberg tenciona apresentar durante a cimeira uma panóplia de números que provam que os aliados estão efectivamente a aumentar a sua contribuição: de 2016 a 2020 esse aumento saldou-se em 130 mil milhões de dólares. O Governo de Berlim já anunciou que aumentará a sua contribuição financeira para as despesas de funcionamento da NATO (2,5 mil milhões de dólares no total) de forma a permitir a redução da contribuição americana. É um gesto simbólico, mas que apenas diz respeito ao financiamento da organização e não à sua dimensão militar (mais de 70% a cargo da América). Berlim também já disse que só atingirá os 2% do PIB em 2031.

Entretanto, como escrevia no site Politico.eu Paul Taylor, há duas NATOs: a politica, em que ninguém parece entender-se, e a militar, que continua a funcionar como se nada tivesse acontecido. Nos últimos anos, sobretudo depois da anexação da Crimeia pela Rússia, têm aumentado significativamente os gastos do Pentágono com a Europa, nomeadamente para financiar a Iniciativa Europeia de Dissuasão, centrada na Polónia e nos Bálticos e destinada a deter qualquer aventura de Putin.

O espaço e a China

A cimeira, que começa hoje com uma recepção oferecida pela rainha no Palácio de Buckingham, terá apenas uma sessão de trabalho amanhã de manhã, seguida de um almoço livre para encontros bilaterais. Para além de decorrer nas instalações luxuosas de um campo de golfe a Norte de Londres, Stoltenberg incluiu na agenda um conjunto de temas que sabe serem do agrado do Presidente americano, entre as quais a defesa espacial e a ascensão da China. O secretário-geral da NATO insistiu em que a inclusão da dimensão espacial na estratégia da Aliança tem uma natureza exclusivamente defensiva e não inclui a utilização de armamento. Trump, dizem fontes de Washington, tenciona voltar à carga com a questão da Huawei, insistindo com os aliados para que proíbam o seu acesso à tecnologia 5G.

À espera de Novembro de 2020

Para tentar apaziguar os ânimos, Berlim propôs na última reunião dos chefes da diplomacia da NATO em Outubro a criação de um “grupo de peritos” presidido pelo secretário-geral para reflectir sobre o futuro da Aliança. A proposta já foi subscrita pela França, que vê assim uma forma de sair do isolamento provocado pelas declarações de Macron.  “Passámos do brain dead para o brainstorming”, disse a ministra da Defesa francesa, Florence Parly. O grupo deverá apresentar as primeiras conclusões em Novembro do próximo ano, o mês em que os aliados europeus saberão se já podem suspirar de alívio ou ainda não. As eleições presidenciais americanas decorrem justamente no início desse mês.

O que fazer com a Turquia

Outro objecto de atenta observação será o Presidente turco, cujo comportamento já conseguiu levantar, pela primeira vez, a questão de saber se é possível expulsar ou suspender um dos membros da organização, o que não está previsto nos estatutos. O último incidente grave entre Ancara e a NATO foi a invasão do Norte da Síria para eliminar os curdos sírios, que foram os aliados do Ocidente na luta contra o Estado Islâmico. Recep Erdogan nem sequer se deu ao trabalho de informar a NATO, embora tenha obtido uma espécie de luz verde de Trump, quando o Presidente anunciou inesperadamente a retirada das tropas especiais americanas da Síria – também ele sem informar os aliados e deixando as tropas francesas e britânicas no terreno sem apoio logístico.

Outra decisão altamente polémica do Presidente turco diz respeito à aquisição de um sistema de defesa antiaérea à Rússia, o S-400, que já levou os EUA a suspenderem a participação da Turquia no programa de construção e aquisição dos novíssimos aviões de combate F-35. Ancara mantém com a NATO a mesma ambiguidade com que trata a sua relação com a União Europeia: não quer cortar definitivamente os laços com o Ocidente, mas não quer qualquer limitação para a sua deriva antidemocrática e as suas aspirações à hegemonia regional.

Macron pergunta na mesma entrevista o que fará a NATO em matéria de Artigo 5.º se a Síria responder à agressão turca no seu território. “Se Bashar al-Assad decidir retaliar contra a Turquia, agimos de acordo com o Artigo 5.º? É uma questão crucial.” Erdogan já respondeu, acusando-o de ser ele quem está em “morte cerebral”. O problema é mais sério do que parece. Das cerca de 150 bombas nucleares americanas instaladas em território europeu, um número indeterminado está na Turquia, dividindo-se as restantes pela Itália, Alemanha e Reino Unido.