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Uma cicatriz a céu aberto: como os incêndios devastaram a Austrália

No ano mais quente e seco da Austrália, milhares de incêndios deflagraram. São os mais graves das últimas décadas: uma área ardida superior à de todo o território continental português, um rasto de destruição que não poupou pessoas, casas e animais. Com o Verão ainda no início, os fogos ainda continuam, apesar da acalmia dada pela chuva. Ondas de calor, seca, mão humana e alterações climáticas: a tempestade perfeita para a destruição. 

Ilha Kangaroo Área ardida em todo o ano de 2019 MontanhaGospers Morton Carrai Kosciusko Guy Fawkes River Sydney Mar de Coral Brisbane Perth Melbourne Adelaide AUSTRÁLIA OCIDENTAL TERRITÓRIO DO NORTE AUSTRÁLIA MERIDIONAL QUEENSLAND NOVA GALES DO SUL VITÓRIA TASMÂNIA Camberra

A Austrália é o sexto maior país do mundo e é também o sétimo maior país no que diz respeito à área florestal, segundo dados de 2016 do Banco Mundial


Área florestal em 2016

1.250.590 km²


Ainda que seja o sétimo país com mais área florestal, a quantidade de zonas florestais na Austrália pode ser justificada pelo seu tamanho, como nos outros países que encabeçam a lista: a Rússia é o primeiro da lista com 8.148.895km² e o Brasil surge em segundo lugar, seguido do Canadá e depois dos Estados Unidos. A Austrália tem uma área de 7.692.000km², o que significa que a área florestal corresponde a apenas cerca de 16% do território. No Brasil, por exemplo, a área florestal corresponde a 57,8% do total da área do país.


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Área ardida na Austrália desde Setembro de 2019

107.000 km²

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Só no mês de Dezembro foram registados mais de 420.000 fogos

Área ardida em 2020

O estado da Nova Gales do Sul, o mais populoso do país, é o mais afectado pelos incêndios de 2019 e 2020

Em 15 dias foram registados 7664 fogos em Nova Gales do Sul

Nos últimos meses, os incêndios florestais na Austrália devastaram mais de 11,2 milhões de hectares sobretudo na costa Este do país. Só no estado de Nova Gales do Sul, a área ardida é cinco vezes superior ao que ardeu no Brasil no ano passado. Mesmo juntando-se toda a área ardida em 2019 na Califórnia, no Brasil e na Indonésia, tal corresponde a menos de metade da área ardida na Austrália. Só até dia 10 de Janeiro foram contabilizados 7664 fogos na Nova Gales do Sul, quatro vezes mais do que nas últimas duas décadas.


Fogos registados no sistema MODIS

“Os parques naturais são a melhor forma de proteger espécies e paisagens – mas quando os parques naturais são dizimados, é preciso olhar-se para o quadro completo”

Chris Gambian, Conselho de Conservação da Natureza da Nova Gales do Sul


O estado de Nova Gales do Sul – de que faz parte a cidade de Sydney – tem mais de uma dezena de reservas naturais que foram fortemente afectadas pelas chamas, ao ponto de o Conselho de Conservação da Natureza de Nova Gales do Sul dizer que se trata de “uma tragédia global” e uma “crise absoluta”. O devastador “megafogo” das montanhas Gospers, por exemplo, surgiu a partir de um único ponto de ignição e destruiu uma área equivalente a sete Singapuras. Um grupo de cientistas alertou recentemente que este tipo de fenómenos se tornará cada vez mais intenso e mais frequente – quase rotineiros – com as alterações climáticas, que levam a temperaturas mais altas, baixa humidade, pouca chuva e ventos fortes.



Fogos registados nos últimos sete dias

O que se perdeu até agora?

Perdas humanas

Além da área ardida, os incêndios na Austrália deixaram outras cicatrizes profundas, incluindo perdas humanas: morreram 29 pessoas e há centenas de feridos e milhares de pessoas que ficaram desalojadas ou que foram obrigadas a sair das suas casas.



Habitats destruídos, animais em risco

A Austrália é um país de biodiversidade. Ainda não se sabe ao certo a verdadeira dimensão da perda no mundo animal e em toda a fauna – sabe-se que muitos animais perderam os seus habitats e são milhões os que podem ter morrido. Para já, são apenas estimativas: pensa-se que 500 milhões de animais foram afectados pelos incêndios só no estado australiano da Nova Gales do Sul, presumindo-se que tenham morrido milhões. Em todo o país, podem ser mil milhões de animais afectados pelas chamas, segundo ecologistas da Universidade de Sydney. (incluindo 30% da população de coalas, que não ficam em perigo de extinção porque há muitos por todo o país; outras espécies mais “de nicho” poderão estar vulneráveis).

Algumas das espécies que mais preocupam os especialistas:


Wallaby
São marsupiais parecidos com os cangurus e vivem sobretudo na Austrália. São herbívoros, vivem cerca de nove anos e medem entre 30 centímetros e um metro.

Cacatua-preta-brilhante
A cacatua-preta-brilhante é uma das espécies mais ameaçadas na Austrália – a perda de habitats é uma das maiores preocupações, agora agravada pelos incêndios.

Dunnart-da-ilha-de-kangaroo
O Dunnart-da-ilha-kangaroo é um pequeno marsupial que só pode ser encontrado na Ilha de Kangaroo, sobretudo na zona Oeste, devastada pelas chamas. Os fogos são uma das maiores ameaças para esta espécie.

Coala
Pensa-se que milhares destes mamíferos marsupiais tenham morrido nestes fogos, mas muitos vivem noutras partes do país e não foram afectados. Os incêndios florestais e destruição do habitat são das principais ameaças para os coalas.

Rato-do-rio-hastings
Este pequeno roedor (um adulto chega aos 95 gramas) vive em zonas florestais densas e está em perigo de extinção. Só existe na Austrália.

Regent honeyeater
A ave Anthochaera phrygia é uma espécie típica da Austrália que está em perigo crítico de extinção. É uma ave de porte médio com penas pretas e amarelas.

Greater glider
O pequeno marsupial peludo Petauroides volans é endémico da costa Este da Austrália. São altamente dependentes das florestas, daí que os incêndios sejam um dos principais factores de risco.

Fogos são mais uma ameaça para espécies em perigo

Além da área ardida, os incêndios na Austrália deixaram outras cicatrizes profundas, incluindo perdas humanas: morreram 29 pessoas e há centenas de feridos e milhares de pessoas que ficaram desalojadas ou que foram obrigadas a sair das suas casas.
Percentagem do habitat em zonas de fogo

Onde há fumo, há poluição

Até 6 de Janeiro, foram emitidos 370 milhões de toneladas de dióxido de carbono (segundo os satélites do programa europeu Copérnico). Há cidades cobertas de fumo e os níveis de poluição atmosféricas estão altos – tão altos quanto estiveram nos incêndios da Amazónia.

A cidade de Sydney – uma das mais populosas – esteve debaixo de um manto de fumo durante semanas, tendo a qualidade do ar atingido níveis “de perigo” em algumas ocasiões; o mesmo aconteceu no estado de Vitória. Segundo as autoridades médicas, isto fez com que houvesse mais 10% de pessoas assistidas em hospitais do que é normal, assim como centenas de pessoas assistidas por paramédicos devido a problemas respiratórios. O fumo e a má qualidade do ar obrigaram a suspender os treinos do Open da Austrália de ténis.

Índice de aerossóis na atmosfera

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REUTERS/Tracey Nearmy


Quais as causas?

“A tempestade perfeita”

O clima quente e seco faz com que todos os anos haja fogos na Austrália. Ainda que as alterações climáticas sejam uma parte importante da equação, contribuindo para as condições extremas que levam a que estes incêndios sejam frequentes e recorrentes, neste caso houve uma “tempestade perfeita”: 2019 foi o ano mais quente e mais seco desde 1910; há ventos fortes e trovoada que facilitam as ignições de fogos nas florestas secas; e não se pode descartar a mão humana — na Nova Gales do Sul, 24 pessoas foram detidas por fogo posto.



Clima quente

Cenário de seca e pouca chuva que dura há três anos

Alterações climáticas

Vento forte

Trovoada

Downbursts

Fontes de ignição (incluindo mão humana)

Tempo mais quente e seco

1910 - 1919 1920 - 2009 2010 - 2019

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Temperatura média anual nos últimos cinco anos

Anomalia da temperatura média anual face ao período 1961-1990, em °C

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2015
2016
2017
2018
2019

Precipitação média anual

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2015
2016
2017
2018
2019

ESA HANDOUT

As cicatrizes dos fogos na ilha de Kangaroo

A ilha de Kangaroo é a terceira maior ilha da Austrália, depois da Tasmânia e da ilha de Melville, e é considerada “um refúgio da biodiversidade”. Chegou a ser comparada à Arca de Noé pela quantidade de espécies de fauna e flora que perduram nos seus 4405 km2: tem cerca de 150 espécies nativas da Austrália, como o leão-marinho-australiano, os cangurus específicos desta ilha, os opossuns ou os mais de 260 tipos de aves. Na parte ocidental da ilha estão colónias de pinguins, mais especificamente no Parque Nacional de Flinders Chase, onde se pode também encontrar uma colónia de abelhas-da-ligúria – que se pensa serem as últimas existentes em todo o mundo. Grande parte da área florestal desta ilha é composta por eucalipto e, segundo um novo balanço, cerca de 48% da ilha foi afectada por estes incêndios.

Ardeu uma área equivalente a 75% do distrito de Lisboa, em km²

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Na imagem podemos comparar o antes e o depois dos incêndios









FICHA TÉCNICA

Texto: Claudia Carvalho Silva; Infografia: Francisco Lopes e José Alves; Ilustração: José Alves; Desenvolvimento web: Francisco Lopes e José Alves

Fontes: Reuters; NASA; World Bank; NSW Rural Service; Governo da Austrália; The Guardian; MyFireWatch