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Crónica

Enquanto os sinos tocam

Convinha, de vez em quando, ao Homem deste século lembrar-se de que ninguém lhe pediu para reescrever do início a História do mundo.

Tocam as oito na Sé de Lisboa. O som dos sinos é imponente, arrastado, marca o ritmo da cidade velha, onde o silêncio já vai caindo ao fim de mais um dia de normal bulício. A normalidade constrói-se todos os dias e o sol ainda inclemente sobre os pinheiritos do Campo das Cebolas ou os tuk-tuks a fazer chinfrineira ao pé da Casa dos Bicos são coisas a que só há pouco tempo nos habituámos a catalogar como corriqueiras.

O canto dos sinos da sé parece dizer-nos outra coisa. Que ela ali está, impávida perante as modas dos homens, baluarte de uma urbe que nunca lhe passou grande cartão, na esquina de duas ruas que existem praticamente desde que a cidade se fundou. A perenidade é uma reconfortante sensação, ainda que ilusória.

Dizia José Hermano Saraiva, num episódio que se encontra facilmente no YouTube, que as catedrais são o coração da vida religiosa de uma cidade. “Em Lisboa, a sé não é o coração, é o cotovelo”, lamentava. “Pensem, por exemplo, em Notre-Dame de Paris”, afirmava o historiador, enquanto a imagem da catedral francesa se desvanecia para dar lugar às torres do templo lisboeta. Assim sobrepostas, à luz do que vimos há umas semanas, as imagens causam um sobressalto: e se um dia a sé não estiver cá?

Aqueles sinos cantam o contrário, transmitem-nos que já viram muito, segredam que se hão-de acabar os paquetes no terminal de cruzeiros antes que se acabe a sé. Mas também se pensava que Notre-Dame fosse inabalável…

O fogo mediático sobre a catedral parisiense foi pouco mais curto do que o incêndio que a atingiu. Como vem sendo hábito, houve reacções e análises à vontade do freguês, que nos foram servidas quando ainda o pináculo não tinha caído: desde os que se apressaram a vaticinar o fim da Europa e do Ocidente aos que relativizaram tudo com um encolher de ombros.

Fruto da promessa de reconstruir Notre-Dame em cinco anos, começaram a perfilar-se os ateliers de arquitectura e já se conhece uma mão-cheia de ideias, que parecem todas mais ou menos iguais. Nos projectos já conhecidos há telhados de vidro, um pináculo de linhas rectas ainda mais alto do que o anterior e até bosques. Soam a tentativas de dessacralizar uma catedral que se converteu em monumento, em símbolo, e que continuará a sê-lo, com vidro ou sem ele.

Convinha, de vez em quando, ao Homem deste século, lembrar-se de que ninguém lhe pediu para reescrever do início a História do mundo e que, lá por terem passado dois mil e tal anos desde o princípio do nosso calendário, isso não faz de nós automaticamente mais evoluídos do que os nossos antepassados.

A pobre sé, esse “cotovelo” olhado de soslaio por sucessivas gerações de lisboetas, é um encanto. Como centenas de outras igrejas na cidade, no país e por essa Europa fora, quase sempre fonte segura de maravilhamento. São fruto de trabalho aturado, minucioso, necessariamente apaixonado, movido por um louvor que à nossa época parece estranho.

Quando os sinos da sé tocam, têm sempre competição feroz da cacofonia circundante. Hoje são os cruzeiros a despedir-se da cidade, os carros e autocarros a buzinarem-se na Infante Dom Henrique, as gaivotas a entrar por Alfama, o martelo mecânico das obras sempiternas. No passado, eram certamente outras coisas, mas os sinos da sé nunca se calaram. Nem os da sé nem os de outras igrejas lisboetas, mesmo as que passaram por incêndios e contratempos vários. Reerguendo-se ou reinventando-se, muitas delas aí estão com as suas cicatrizes, para nos lembrarem como é tão ilusória essa reconfortante sensação de perenidade.

Tocam as oito na Sé de Lisboa. Enquanto assim for, está tudo bem.