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Reportagem

Quando o Aleixo conta outra história do Porto

Inaugurado no ano da Revolução, o Aleixo foi morada dos imaginários de gente pobre da Ribeira. Ali se fizeram amizades e casamentos. Filhos, netos, bisnetos. A vida normal. Depois, veio a droga e corrompeu-lhe os sonhos. Tomou-se a parte pelo todo. Deu-se a sentença do fim. Breve viagem pelas delicadezas e desgraças de um bairro onde cidade e país se podem ver ao espelho

No princípio era o sonho.
Uma torre de 13 andares, casas como nunca haviam visto, o recorte do Douro nas janelas. Promessa de vida nova ou retorno ao ponto inicial mais tarde. O Aleixo abria as portas do seu primeiro edifício, a dias de Abril se cumprir, para abrigar famílias pobres da Ribeira. Naquele território, no lado ocidental da cidade, a vizinha ponte da Arrábida acabara de celebrar uma década. Havia dezenas de fábricas a laborar, chão em terra batida, zero condomínios de luxo.

No princípio podia ser temporário.
A miséria tinha tocado limites insustentáveis na Ribeira-Barredo. Havia fome, insalubridade, famílias numerosas a viver em “colmeias” e “cortiços”, tectos minúsculos onde se acotovelavam agregados e as crianças dormiam em gavetas de cómodas. Das 557 famílias inquiridas num estudo de 1970 citado no jornal A Capital, 283 viviam num único compartimento, apenas 45% das habitações tinham cozinha (muitas delas transformadas em dormitório à noite), só 30% tinham casa de banho. Eram “seres humanos vivendo como animais”, na “podridão”, uma “situação degradante”. Havia, mesmo assim, quem resistisse à saída. Mas também quem orasse “à Virgem” para dali fugir e fizesse promessas de uma “caldeirada” paga ao “velho duque” se a mudança se desse ainda nesse ano de 1974.

Aconteceu. À primeira torre, habitada 12 dias antes do 25 de Abril de 1974, seguiu-se a segunda, “assaltada” por moradores quando se espalharam rumores de que para ali iriam retornados das ex-colónias. Depois a terceira, e outra e outra. Cinco esguios prédios desenhados pelo arquitecto Manuel Teles, fiéis às regras do Plano Auzelle, defensor da construção em altura. Abrigo para cerca de 1500 pessoas. Eram casas de áreas generosas, patamares comuns onde a vizinhança se foi fazendo família, como na Ribeira. Os vasos floridos às portas, as crianças a brincar nas galerias, as escadarias como local de convívio, a roupa estendida no vão central. Ao longo dos anos, uma escola, ATL, infantário, centro de dia, cafés, campo de futebol, parque infantil, até um jornal impresso na escolinha.

Os alicerces de uma vida nova não fragilizavam a memória das origens. Constituída a Comissão de Renovação Urbana da Área Ribeira-Barredo, pensava-se na reabilitação daquela zona para depois receber de novo parte das famílias. Algum edificado foi renovado, mas poucos retornaram ao ponto inicial.
Sem escolha, felizes ou não, fixaram raízes no Aleixo.
Agora, outra vez sem escolha, satisfeitos ou devastados, tiveram de sair.

Nas três torres resistentes – duas já foram implodidas por ordem do ex-presidente da Câmara do Porto, Rui Rio – já não mora gente. A Câmara entaipou as entradas e entregou o edificado a um fundo de investimento imobiliário esta semana. Os moradores foram dispersos por bairros da cidade, feita rasa a promessa de os acolher juntos em casas construídas de raiz pelo Invesurb, Fundo Especial de Investimento Imobiliário (FEII) criado em 2010, e agora gerido pela Fundbox. Em troca dos valiosos terrenos, deveriam edificar cinco blocos habitacionais. Mas, até agora, só dois foram concluídos e o Invesurb já admitiu falta de verbas para seguir os trabalhos. Com os terrenos do seu lado, querem fazer o desmantelamento das torres em cerca seis meses. Mas Rui Moreira já avisou que os planos de futuro — o projecto conhecido inclui sete blocos de habitação de luxo com quatro a cinco pisos e um edifício para comércio — só serão carimbados pela autarquia depois de todas as casas sociais prometidas em troca estarem erguidas.

Mas, afinal, como chegou o Aleixo à fila dos condenados?
O sociólogo João Queirós deslindou uma “história de abandono quase genético” do bairro. Ao seu “nascimento tumultuoso”, com ocupações ilegais da segunda torre e intervenções policiais, seguiu-se um “desconfiguração” das suas valências desde muito cedo. Ainda corria a década de 70, conta o investigador, e já alguns problemas sociais ocupavam páginas de jornais.

O relativo estado de graça do bairro foi, pois, demasiado curto. Nos anos 80, Portugal é a nova rota da heroína. A droga encontrara o caminho, sobretudo a partir da Ásia, e instalara-se em territórios “defendidos dos olhares públicos” e onde a “vulnerabilidade económica” era mais notória. “O Aleixo é um exemplo emblemático disso. Embora esteja longe de ser um caso à parte.” Palavra de Luís Fernandes, investigador que foi parar ao bairro em 1990 para estudar o fenómeno da droga em contexto urbano. Nessa década, recorda, o cenário estava já agudizado.

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A desindustrialização havia feito as suas grandes vítimas nos bairros periféricos do Porto. Tal como nos de Lisboa ou qualquer cidade da Europa Ocidental. No Aleixo moravam muitos operários fabris, trabalhadores da construção, estivadores, vendedeiras. Gente com rendimentos baixos ou no desemprego, com pouca escolaridade. Quando a heroína e outras substâncias pesadas bateram a algumas portas, não precisaram de licença para entrar. “O mercado de droga era um sistema de oportunidades para quem estava marginalizado da economia formal”, aponta.

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O número de consumidores e traficantes crescia, as autoridades “falhavam na execução de medidas de combate a consumos duros”. Ganhava a tuberculose, a hepatite, o VIH. Muita gente adoeceu. Muitos morreram. E isso tornou o problema “mais visível e gritante”. Mas não só no Aleixo, alerta Luís Fernandes: “Por isso digo que demoli-lo é arbitrário”. Nas torres amarelo torrado, sobretudo na primeira, a polícia nunca conseguiu eliminar o tráfico, apesar de ser, durante alguns períodos, presença constante. Porquê? “Sobretudo porque não se combatem as necessidades prementes das pessoas com respostas policiais”, responde. E por necessidades prementes o investigador entende “um mínimo de rendimento disponível para fazer face à vida”.

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Ainda nessa década de 90, com operações policiais com tiros e a presença constante de agentes à porta das torres, sobretudo da 1, o tráfico amansara. O trabalho feito pela Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro, com fundos comunitários, dava alguns frutos. Mas murchara em pouco tempo.

Havia camadas mais profundas por sarar. Foi ao estudar as políticas de habitação do centro histórico que João Queirós “esbarrou” no Aleixo. O bairro era, em certa medida, uma “expressão das consequências” de opções políticas, sociais e habitacionais. Entre as biografias do Aleixo e do Porto descobriu “várias intercepções”, com o bairro como “um revelador da história da cidade e de tendências económicas, sociais e políticas do país”. Toda essa viagem de meio século — de 1969, quando o bairro começa a ser pensado, até 2019 — será contada, ainda este ano, no seu próximo livro Aleixo: génese, desestruturação e desaparecimento de um bairro do Porto (Edições Afrontamento).

Naquele território, concluiu o sociólogo, cabe a postura de sucessivos Governos e municípios em relação à habitação social, vislumbram-se os “efeitos da desindustrialização”, acompanha-se a consolidação de uma “economia das drogas” e nota-se até uma “aproximação neoliberal à maneira como se gere o espaço urbano”.

Quem vê a Faina Fluvial de Manoel de Oliveira não imagina aquele Douro de gente pobre e trabalho duro transformar-se em desejo do capital. No filme, rodado em 1931, as margens do rio eram destino de fábricas, armazéns, centrais de produção eléctrica, estaleiros. Mas, trocadas as rotas para o porto de Leixões, o Douro perdeu calo e esbanjou vaidade. Ganhou estatuto, como se não fosse o mesmo de sempre, e contaminou tudo quanto tinha vista para ele. Para o bem e para o mal. O Aleixo, em certa medida, foi também vítima  das suas coordenadas geográficas.

Se um território se torna valioso, o mercado imobiliário procura-o. Se nesse território vive gente, o mercado imobiliário resolve. É uma narrativa comum a vários pontos da cidade, a várias cidades do mundo.

Quase na viragem do milénio, ano 2000, fala-se pela primeira vez da ideia de demolir o Aleixo. Nuno Cardoso, então presidente da autarquia, alegava as fracas condições de habitabilidade e admitia não ser adepto de habitação social em altura. Mas garantia que as torres só iriam abaixo se no mesmo lugar se construíssem casas para os seus moradores.

A campanha eleitoral de 2001 traz o bairro na agenda. Rui Rio, candidato estreante, dizia não concordar com a demolição. E meses depois, já presidente da câmara, vai ao bairro jurar aos moradores, olhos nos olhos, não fazer nada contra a vontade deles. Paulo Morais, o seu vereador do urbanismo, deixou-o até escrito depois de uma reunião com a Associação de Moradores e a sua presidente da altura, Rosa do Aleixo.

Mas os rumores de um plano diferente não calavam e instalavam um burburinho de desconforto e conflito no bairro. Em 2007, um inquérito feito pela associação — que por essa altura ainda geria uma série de estruturas no Aleixo — mostrava a vontade dos moradores: das 305 famílias ouvidas, 209 eram contra a demolição, 13 a favor e 83 não se pronunciavam.

De nada valia a vontade deles. Rui Rio, antes visita no bairro, virou-lhes as costas. Anunciou o fim. Em 2008, já com a demolição avançada do São João de Deus, “o pior bairro do país”, desviava atenções para o Aleixo, “o mais problemático do Porto”. A Câmara lançara, em Julho desse ano, um concurso público para a constituição de um Fundo Especial de Investimento Imobiliário que tomasse conta daqueles terrenos. A escola, pilar do bairro, já não funcionaria no ano lectivo seguinte. Acabaria reduzida a pó.

Na campanha eleitoral de 2009, Rio assume a demolição como bandeira e repete o que vinha dizendo nos últimos tempos: o Aleixo é “o principal centro de tráfico do Porto” e “uma vergonha para a cidade”. Deve ser “integralmente demolido”. Assim começa a fazer em 2011, com uma maioria absoluta no hemiciclo portuense. Num barco da Douro Azul, a convite do empresário Mário Ferreira, assiste à distância à implosão da torre 5. Enquanto abria champanhe, corriam lágrimas e confrontos no bairro. Se a ideia era também terminar com o tráfico, perguntava-se, por que razão implodiu o edifício menos problemático?
Dois anos depois, a cena repetiu-se na torre 4.

Simão Mata tinha chegado ao Aleixo nas carrinhas da equipa de rua Norte Vida em 2009. Discípulo de Luís Fernandes na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, fez do bairro objecto de doutoramento, em busca das “personagens” acompanhadas pelo seu professor na década de 90. Ultrapassado o “desconforto” inicial de quem nunca havia mergulhado naquela realidade, descobriu uma “atracção” pela sua complexidade.

Nessa altura, duas décadas volvidas da chegada de Luís Fernandes ao Aleixo, já havia “controlo de riscos e minimização de danos”. Na carrinha, Simão fazia troca de seringas, distribuía prata para consumo fumado. Conversava. A Norte Vida era uma “primeira plataforma” de contacto, a almejar o resgate. Por algumas vezes, viram gente mudar de rumo. Por muitas vezes, souberam não haver remédio. Na busca pelas pessoas contactadas antes por Luís Fernandes, esbarrou numa mortalidade elevada, na multiplicação de doenças. Nos últimos anos, o bairro já controlava melhor os riscos associados ao consumo de droga. Mas era ainda um abrigo inquietante para doenças. Para a morte.

Com o desaparecimento de duas torres, o Aleixo enfraqueceu. Renato Sousa andava por ali desde 1996. Um estágio tinha-o conduzido ao ATL do bairro e nunca mais perdeu o vínculo: fez voluntariado, foi professor, ajudou em processos burocráticos. Em 2013, com a Associação de Moradores demissionária e o jardim-de-infância em risco depois de a torre onde funcionava ir abaixo, construiu uma lista que acabaria vencedora.

Nessa altura — com Rui Rio prestes a terminar o terceiro mandato deixando o aviso de que a demolição era um processo “irreversível” —, a nova direcção da Associação de Moradores jogava as cartas na “continuidade” da estrutura, salvando os equipamentos geridos por ela. Assim conseguiu, já com Rui Moreira presidente.

A vitória do candidato “independente” acabara por acalentar novamente esperanças. Em Julho de 2014, é feita, a seu pedido, uma auditoria ao FEII. Os resultados punham a nu “irregularidades” na gestão de Rio, desmentidas pelo antecessor. O Fundo treme, mas não cai. 

Passaram-se anos de um vaivém doloroso no Aleixo. O bairro ia-se degradando, alguns moradores pediam para sair, as estruturas sociais e de apoio enfraqueciam. O Fundo Imobiliário, com problemas de liquidez, muda várias vezes de mãos. No final de 2016, Rui Moreira já admitia o que antes era impensável: as famílias saídas do Aleixo poderiam não ser realojadas em casas construídas pelo FEII mas sim noutros bairros sociais.

Há menos de um ano, em Setembro de 2018, o presidente da câmara surpreende: desta vez, o Aleixo estava em risco de ruína, as torres não eram recuperáveis, as condições sociais e de salubridade estavam no limite. Em meio ano, iria retirar toda a gente do bairro. E, não estando prontas as casas prometidas pelo FEII, os moradores seriam dispersos pela cidade.

O Aleixo era um “condenado no corredor da morte”. Já sem ponta de “esperança”. As palavras com sabor amargo são do presidente da Associação de Moradores, que por estes meses tem procurado amparar uma “comunidade de luto”. Pela perda das casas, da memória, dos laços. Aquilo a que João Queirós chama um “processo de desclassificação” do bairro recolhia os seus despojos: as “acções conjugadas de processos de abandono, descivilização do bairro e estigmatização” haviam criado uma “sinergia negativa” em nada auxiliadora de consensos no Aleixo. E em tudo geradora de uma visão exterior única: a ideia “de que esta era uma solução inevitável”.

João Queirós auscultou dores e alegrias por anos. Viu muita gente afirmar o desejo de sair dali, saturada do tráfico e rusgas policiais, dos elevadores avariados, da falta de limpeza, do abandono. E muita gente negar esse afastamento a qualquer custo, atentando nele uma forma encapotada de expulsar os pobres de terrenos ricos. A unanimidade só a encontrou num sentimento de uma certa invisibilidade: “Não foram ouvidos, receberam a comunicação de uma solução fechada. Isso todos diziam.” 

A comunidade ficou dispersa, quase todos em casas mais pequenas. Fará sentido, numa cidade com enorme necessidade de habitação social, destruir um bairro onde vivia gente? Quanto tempo terá aumentado a lista de espera — com mais de mil pessoas e pelo menos outras tantas excluídas pelas balizas do regulamento, mesmo tendo carência habitacional — para receber casa?

Renato Sousa vela um consolo: a Associação de Moradores do Aleixo “não vai morrer”, ainda que das torres se faça pó.  “A memória dos moradores e do bairro não vai ser esquecida”, pronuncia Renato, informando que o centro para a terceira idade, o jardim de infância e o ATL continuarão a funcionar na freguesia de Lordelo do Ouro. “Nem tudo se perdeu.”

As antecipações de Simão Mata quanto ao futuro dos consumidores, moradores ou não, são mera análise do pretérito. “Não posso antecipar”, avisa, “mas há dados sobre o que aconteceu com as primeiras demolições”. E isso, diz o psicólogo que no próximo ano publicará a sua tese de doutoramento, é evidente: “O problema piorou. Havia zonas protegidas que ganharam mais expressão após o desaparecimento das torres 4 e 5. O álibi da droga não colhe.”

Mas o estigma sim. O fim do Aleixo é também prova do quão “transversal” era essa ideia do “bairro supermercado de droga” ou “cancro social”. Lugar para ver ao longe, para passar ao largo. Porque era gueto, insegurança, decadência. João Queirós lamenta a falta de “participação cívica” dos portuenses: o Aleixo, sublinha, foi desconsiderado de forma sistemática e incapaz de gerar alguma coesão. Quer pelo património como pelas pessoas. “Nesse aspecto, a cidade não fica muito bem na fotografia”, afirma. E, no entanto, é a mesma que um dia se algemou em defesa do Coliseu, se entrincheirou no Rivoli, batalhou pelo Bolhão e tem protestado contra os despejos. Onde esteve ela quando o Aleixo precisou desse sobressalto cívico?

Esvaziadas as três gigantes torres, pergunta-se como se moldará a cidade ao Aleixo dividido. Como se adaptará o Aleixo à cidade que o ignorou. Em Portugal, não há muitos exemplos de demolição de habitação social capazes de servir de bússola ou bola de cristal. Mas as experiências nos EUA e França mostram algo claro: os efeitos da dispersão são, “com frequência, negativos”. João Queirós admite ser cativante a “ideologia de promover mistura, espalhando a população por diversos contextos”. Mas deixa um aviso: “Só dispersar, dando uma resposta física a problemas sociais, geralmente não dá bom resultado.”

Quando o Aleixo abriu portas, abraçou a esperança de um país novo onde Abril era verbo. Agora, nesse território do sonho, já ninguém habita. O Aleixo acabou. Apesar do olhar triste de Lurdinhas, das memórias e protestos de Venâncio, de Filipe e de Elói, da revolta de Graça, de Luísa e de Natália, do saber dolorido de Luís, de FM e de Salvador, das raízes densas de “Guela”. Ou talvez a História dê razão à frase escrita junto ao campo de futebol, escondida entre as torres 1 e 2, lugar onde a cidade nunca entrou. Se assim for, este é “um bairro que nunca acaba”.