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Entrevista

Catarina Furtado: “Se formos moralistas não atingimos os nossos objectivos”

Em pequena, Catarina Furtado sonhava com a dança e a coreografia, mas uma lesão levou-a a formar-se na área do jornalismo. Trocou a rádio pela televisão, a apresentação pelo documentário. O seu maior desejo é mudar vidas, confessa.

O local combinado é num dos cafés da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Ao telefone, Catarina Furtado explica que foi ali que escreveu o livro Adolescer É Fácil #só que não. Ao chegar, reencontra uma amiga do tempo do conservatório de dança. Abraçam-se. Durante a entrevista, há um jovem que interrompe para a cumprimentar. Conheceram-se ele tinha oito anos, num programa que Catarina apresentou. Hoje é músico, acabou de chegar do estrangeiro, conta. Ela sente-se orgulhosa e feliz com aqueles reencontros.

O motivo da entrevista é o livro, publicado pela Porto Editora (PE) e escrito para adolescentes, com dicas e conselhos, mas que também reflecte o trabalho que Catarina Furtado tem feito como embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), há 19 anos, e como presidente da associação Corações com Coroa (CCC), desde 2012, com histórias e exemplos do que se passa em Portugal, mas também noutras paragens.

Em pequena, Catarina Furtado sonhava com a dança e a coreografia, mas uma lesão levou-a a formar-se em jornalismo. Porém, não seguiu as passadas do pai, o jornalista Joaquim Furtado. Trocou a rádio pela televisão. Foi a “namoradinha de Portugal”, continua a apresentar, mas sente-se concretizada com o ser documentarista, com Príncipes do Nada e Dar Vida sem Morrer. Hoje sente o peso da idade e tem pena de que os mais pequenos não a reconheçam, mas isso não a amedronta. Afinal, tem muitos planos, como o de continuar a ser voluntária, como é desde os nove anos e ajudava a levar à praia as crianças de ensino especial da Crinabel, onde a mãe leccionava.

Porquê escrever um livro para adolescentes? 
Foi a Porto Editora que me desafiou. Aparentemente, seguiam o meu trabalho enquanto voluntária do UNFPA e da CCC e vieram ter comigo dizendo que eu tinha material suficiente para poder fazer uma espécie de guia. Eu percorro muitas escolas há muitos anos, enquanto embaixadora de Boa Vontade mas também por iniciativa própria. Uma das coisas que os embaixadores do UNFPA têm como objectivo é trabalhar com os jovens, a saúde materna, a saúde sexual e reprodutiva, a mortalidade materna. Quando comecei a ler mais sobre o mundo e as estatísticas, comecei a pensar ‘isto tem de ser partilhado; os miúdos têm de saber que temos a geração com mais jovens capacitados, que têm um potencial que tem de ser aproveitado, que há desigualdades sociais’. Há escolas que dão isso, mas é toda uma área para a qual não há tempo de currículo para ser estudada. Tenho pedidos para ir às escolas, sobretudo desde que comecei a fazer o [documentário] Príncipes do Nada, há 13 anos, para falar sobre educação, saúde, desenvolvimento, igualdade de género, discriminação. Depois também comecei a ir por causa da associação CCC. Acabou por ser uma trilogia e a PE percebeu esse potencial.

Este livro é um guia?
Eu disse [à PE] que não escrevia um guia porque não sou nenhuma autoridade, não sou formada em educação para dizer que é desta ou daquela maneira; o que é certo ou é errado.

As histórias que conta no livro sobre Moçambique ou a Guiné-Bissau, por exemplo, são muito distantes das nossas. Os jovens portugueses têm a noção de que o mundo é assim tão diferente?
Hoje eles têm cada vez mais essa noção. A minha experiência é que eu estou constantemente, nas escolas e sobretudo agora através das redes sociais, a ter pedidos de jovens, a perguntar como podem fazer voluntariado, ajudar ou construir uma associação na escola. No livro tentei contar algumas histórias de Portugal mas quis, muito propositadamente, contar histórias do espaço lusófono e não só. 

Tem notado um aumento da preocupação e sensibilidade dos miúdos para essas causas?
Tenho. Não sei se é resultado dos ODM — Objectivos do Milénio — que têm de estar nos currículos das escolas, embora nem todas levem aquilo a sério —, e dos ODS — Objectivos de Desenvolvimento Sustentável — necessariamente têm de fazer trabalhos sobre isso, têm de investigar e debruçar-se sobre algumas questões sobre as quais não faziam ideia. Há muita coisa que eles não sabem, mas tenho de ser muito franca: há muita coisa que os adultos com quem falo não sabem. Sinto que há sensibilidade e sobretudo que são como barro e isso é que é desafiante.

Como barro?
Fui a um centro educativo e havia um jovem de 18 anos, já repetente, que se sentou na primeira fila, de óculos escuros e boné, com aquele ar de ‘agora vem esta gaja e vou apanhar uma seca’. Comecei a contar a história de um menino de Moçambique e de outro, do Norte, que me disse que estava muito longe de Lisboa e por isso nem ia ter sonhos — ouvir isto em Portugal é muito triste — e o miúdo começa a mudar de atitude, a tirar os óculos, vai-se endireitando na cadeira e a sessão acaba com ele a fazer uma pergunta. É barro. Não sei se a um adulto eu consigo fazer isto.

Mas o que lhes traz este livro que eles não leiam na Internet?
Algumas destas coisas encontram na Internet, onde é muito difícil fazer a triagem. Por exemplo, o que é a menstruação, as hormonas, as doenças sexualmente transmissíveis, doenças como a bulimia, a anorexia... vais ao Google e aquilo é um mundo. No livro só quis pôr o essencial. 

Usou uma linguagem a meio caminho entre a do adulto e a do adolescente. Como conseguiu?
Eu comecei por tentar escrever de forma mais próxima. O Ricardo Araújo Pereira [no prefácio] escreve que nós [adolescentes] percebemos quando eles [adultos] estão a forçar. Eu tenho quatro adolescentes em casa, portanto, tenho muita experiência local e diversificada. Comecei por pôr no computador coisas do género — “tipo, não é?” [como falam os adolescentes] — e pensei “isto é ridículo, tenho 47 anos”. 

É um livro a pensar mais nas raparigas do que nos rapazes? 
É um livro escrito por uma pessoa que pensa mais nas raparigas do que nos rapazes no sentido em que não só sou mulher, como estes 19 anos a ver as realidades em muitos países não me deixam dúvidas de que as mulheres são mesmo as mais discriminadas. Necessariamente, espelho isso no livro. Tive algum cuidado. Lembro-me de estar a meio do livro e voltar tudo atrás e pensar “será que estou a dar mais exemplos de raparigas e estou num discurso mais virado para elas?” e percebi que sim. Tentei depois equilibrar, mas a verdade é que não está equilibrado e eu preciso que os rapazes percebam isso. Quando faço palestras, digo aos rapazes que a igualdade de género só vai ser atingida se eles também tiverem interesse que isso aconteça, se for uma causa para eles. 

Por um lado escreve sobre a questão da violência do namoro, por outro há uma certa imparcialidade. Porque não quer ser moralista?
Não quero ser moralista. O que sinto é que se formos moralistas não atingimos os nossos objectivos. É uma estratégia, pensei muito nela. No início, quando ia às escolas, tinha um tom mais distante, [do género] eu sou adulta, já andei na escola, já estudei, sei perfeitamente que as drogas fazem mal. E percebi que havia um muro entre mim e eles. Quando comecei a adoptar um outro tipo de discurso — “Sabem uma coisa? Eu também tive um desgosto de amor, o meu namorado deixou-me” ou “o meu amigo gay sofreu horrores quando teve de dizer aos pais” —, um discurso muito mais próximo, cheguei a eles. Percebi que tenho de ter uma estratégia mais certeira, que não seja moralista. Por exemplo, sobre experimentar drogas, digo que há casos em que o organismo reage bem, outros mal, em que umas pessoas ficam viciadas e outras não ficam... Deixo tudo em aberto.

O não ser moralista nem se comprometer é deixar a porta aberta para eles saberem que podem escolher?
Saberem que podem falar sobre isso. De uma forma geral, o “errado” está muito na cabeça deles.

Por causa dos pais?
Sim, e da sociedade em si, que diz que as drogas são más — e é verdade. Mas há aquela ideia de que é tudo errado e a verdade é que sabemos que eles vão experimentar o charro com os amigos, à noite, por mais que tenham em casa pais que lhe digam “olha lá...” O meu sonho com este livro é que eles possam ter liberdade de falar com os adultos mais à vontade sobre coisas que normalmente são tabu. Como a primeira vez. Foi um capítulo que escrevi, reescrevi, voltei atrás... Que autoridade tenho eu para dizer a uma miúda “não percas a virgindade aos 13 anos”? Na verdade, na verdade, eu não tenho. Gostaria que não fosse aos 13 anos porque acho que não tem maturidade, mas não tenho autoridade, não lhe vou dizer que é errado. O que lhe quero dizer é: “Não tenhas pressa.” 

Nesta altura, há a questão da influência. Uma miúda ou um miúdo sente-se mal se for quem está mais atrasado do grupo a perder a virgindade ou se não tiver experimentado um charro. Isso acontece muito na adolescência, o bullying de seres um bocadinho diferente. Há testemunhos destes em todas as escolas e eu digo-lhes que a diferença é gira. O que eu quero é que ela pense “eu se calhar vou esperar mais um bocadinho, ela está a dizer-me que não tenho de competir com as minhas amigas que já o fizeram”. O que quero é que possam reflectir. 

A Catarina quer ser uma espécie de grilo falante?
Sim, um grilo falante! Em O Sonho de Uma Noite de Verão há o Puck, eu sou uma espécie de Puck de Shakespeare. Gri-gri! (risos)

Os números da violência no namoro são elevados, é um tema do qual se fala e, no entanto, as raparigas sujeitam-se a relações controladoras. Como?
Eu não tenho resposta para isso. Não consigo perceber como é que há cada vez mais, quando há campanhas e mais informação. É muito fácil de dizermos que é a Internet.

É a banalização da violência?
É a banalização. Há uma grande contradição: os jovens estão mais atentos, sabem mais sobre o mundo, mas está a faltar a verdadeira empatia. E há estudos sobre isso: a empatia está em défice porque passam horas, horas e horas à frente do ecrã, que lhes retira empatia.

E não será também porque hoje têm menos auto-estima?
Também tenho um capítulo sobre auto-estima porque é uma questão fundamental, sobre o corpo e sobre muscular o cérebro. Hoje em dia, os adolescentes vão para o ginásio mas é também preciso muscular o cérebro. Sim, há um problema de auto-estima porque há mais competição acesa, com o Instagram, com o Facebook. Eles estão constantemente em confronto e em competição e nós não tínhamos isso. Não estávamos a ver se aquela outra da turma já tem mais likes do que eu... Sentem-se constantemente em processo de avaliação. E depois, tudo o resto que compõe a adolescência — o só que não [no título do livro] — fica ali num turbilhão que a falta de auto-estima transforma numa agressividade maior. Isto também é válido para os adultos: aquelas pessoas que são mais agressivas, mais duras, mais altivas, normalmente têm muitas questões relacionadas com a falta de auto-estima.

Mas isso da violência não consigo entender. Tem sido uma das nossas áreas de trabalho na CCC, estamos há três anos a ir às escolas e tem sido um sucesso. Depois das sessões, são diagnosticadas pessoas, normalmente raparigas, que vêm às nossas consultas ou que são encaminhadas para a psicóloga da escola porque passaram a assumir [episódios de violência].

Têm recebido muita gente?
Muita, e sobretudo temos encaminhado muita gente para os psicólogos das escolas. Só os alunos de escolas mais perto de Lisboa vão à associação, ou faz-se atendimento por telefone. São sempre consultas gratuitas e para mulheres e raparigas.

Quantas pessoas a associação tem a trabalhar nessa área?
Temos duas psicólogas com consultas todos os dias. Temos uma advogada, uma enfermeira, uma assistente social, uma nutricionista (para questões de bullying por transtornos alimentares). Todas pagas por nós. Todos os dias, desde há sete anos, temos a porta aberta. 

Como se financia tudo isso?
(Faz o gesto de bater à porta) Knock, knock on the door. O único projecto que é apoiado por uma candidatura da Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade é este da CCC Vai à Escola. Para o atendimento, são donativos de pessoas e empresas a quem eu vou bater à porta. Há sete anos que é assim. Uma parte dos fundos vem das quotas dos sócios (30 euros por ano para individuais e 50 para as empresas).

A estrutura da CCC é de oito empregadas a tempo inteiro, com contrato certinho e Segurança Social. Quatro pessoas na sede e quatro no café social na Junqueira. Estas últimas estavam no desemprego há muito tempo e tudo o que lá se consome reverte na íntegra para os ordenados delas e, quando sobra, para os projectos da CCC.

Eu ando sempre a pedir. A minha profissão é mostrar trabalho e pedir apoios. Esta é a minha empresa, só que é social. Eu sou voluntária e na direcção estão também a Ana Magalhães e a Cláudia Cerveira, que é a directora-executiva e a única que tem ordenado.

O café tem dois mecenas: o Continente [da Sonae, tal como o PÚBLICO], que dá a comida, e a Nespresso, que dá os cafés. Foi o [arquitecto] Aires Mateus que voluntariamente desenhou o espaço. Cada projecto tem os seus mecenas. Já demos 14 bolsas de estudo, financiadas por David Rosas, Fundação Montepio, Lidl, ISLA Santarém e Magestil. A última campanha de Natal da Worten foi para a CCC financiar mais 20 bolseiras, estamos a fazer a triagem. As raparigas passam por testes, consultas com a psicóloga e a assistente social, temos os IRS da família, conhecemos a família, vamos às suas casas. Mudamos realmente as suas vidas. 

O que a fez criar a CCC?
Nunca quis ser apresentadora de TV, nunca foi um sonho para mim. O meu sonho era ser bailarina. Mas quando comecei a fazer TV e a gostar muito, achei sempre que esta haveria de ser um caminho para deixar outra marca qualquer, que o facto de ser conhecida e ouvida tinha de me dar um poder qualquer. Comecei a fazer voluntariado aos nove anos, a minha mãe foi professora do ensino especial mais de 20 anos de crianças da Crinabel, e eu ia para a praia com os miúdos de lá. Pode parecer esotérico, mas quando nos inclinamos muito para as coisas, elas acontecem: apareceu-me o convite da ONU em 2000, ainda por Kofi Annan. Aproveitei para ler, ler; eu nem sabia o que era a mutilação genital feminina; comecei a perceber o mundo e a viajar, fui eu que propus fazer o Príncipes do Nada. Depois da experiência com o UNFPA, pensei que em Portugal também tinha de criar algo. Neste momento, a CCC tem uns dez projectos e é onde eu sou feliz. Curiosamente, eu fundei a associação com o dinheiro de um processo que ganhei em tribunal contra uma revista cor-de-rosa. Com esse dinheiro demos os passos dos primeiros tempos.

Só em Portugal?
Não, somos uma ONGD — Organização Não Governamental para o Desenvolvimento. Estamos também na Guiné-Bissau. Fizemos uma maternidade toda com doações. Foi lindo, é emocionante ver agora aquelas mulheres a darem à luz com condições. 

Chegar aos órgãos decisores porque é uma figura pública é mais fácil para si do que para uma associação constituída por pessoas anónimas?
É mais fácil, mas tenho muitos casos de pessoas anónimas que fazem coisas extraordinárias e um dos meus sonhos é, aliás assim nasceu o Príncipes do Nada, dar visibilidade a pessoas anónimas que fazem coisas incríveis, às vezes sem apoio. Mas claro que me atendem mais depressa, mas nem sempre dão. Às vezes pedem a fotografia [comigo] e não dão nada!

Recebe muitas negas?
Não. Seria muito ingrata se dissesse isso. Não levo e tenho mesmo de agradecer a saúde financeira que a CCC tem. Pagamos oito ordenados, mas não sabemos quanto tempo vamos durar, ou seja, permanentemente vou continuar a ter de pedir apoios. É preciso transmitir confiança, as pessoas estão muito desconfiadas. Pedrógão foi um balde de água fria.

As associações ressentiram-se com o que aconteceu com os donativos de Pedrógão?
Muito. No entanto, as pessoas continuam a querer ajudar. Quando apresentei o concerto que a RTP fez por Moçambique, vimos que as pessoas ajudaram. Foi incrível, não queria acreditar, mas [na minha conta de] Instagram, as pessoas diziam-me: “Vamos lá a ver se isto não é como Pedrógão.” As pessoas ajudam e ajudam mais se souberem exactamente para onde vai o dinheiro. 

Mas ainda se faz pouco?
Claro que podia fazer-se muito mais, mas também há o contrário, há organismos que fazem e que não divulgam.

O livro é também uma forma de promover os projectos em que está envolvida?
Sim. E como tenho como público-alvo, para além das mulheres, as jovens (através do atendimento gratuito em várias áreas e das bolsas de estudo) e os jovens (rapazes e raparigas) através do projecto CCC Vai à Escola (onde falamos sobre violência no namoro, bullying, racismo, cidadania) e as conferências, tertúlias, palestras para os jovens, este livro é uma espécie de compilação de partilhas de experiências, de informação, de dicas para atenuar as dores da adolescência e de alguma forma tentar diminuir o generation gap.

Está quase a fazer 20 anos como embaixadora de Boa Vontade...
Ah, pois estou! (risos)

... Os portugueses reconhecem o trabalho que faz?
Acho que não (risos). Há momentos em que tenho de confessar-vos que sinto frustração porque há coisas que são tão urgentes de serem sabidas. Mas também já aprendi a lidar com isso. Conhece quem quer conhecer. Há pessoas que me dizem na rua: “Sei que o seu programa Príncipes do Nada foi sobre a mortalidade materna na Guiné-Bissau, mas eu não consigo ver... desligo logo.” Se há coisa que eu defendo é a liberdade de opção, não posso indignar-me com estas pessoas que não querem ver o que está do outro lado. Mas tenho alguma pena, porque com informação podemos ter mais conhecimento para poder agir. Tenho exemplos de coisas pequenas, de pessoas que agiram porque viram uma reportagem ou um post [nas redes sociais]. Não é uma questão de ego, é mesmo porque era bom saberem. Por exemplo, quando fiz a reportagem sobre os albinos, houve um grupo de médicos que mandou para Moçambique centenas de protectores solares, que lá são como caviar. Não imaginam como fico contente.

Enquanto embaixadora do UNFPA, que projectos têm a mão de Catarina Furtado?
É preciso dizer que os embaixadores de Boa Vontade existem porque são figuras públicas e têm um microfone à frente, Há os internacionais, como a incontornável Angelina Jolie ou a Amal Clooney, que está a fazer um trabalho brilhante. O que a ONU nos convoca para fazer são palestras, moderar debates entre líderes políticos ou partilhar mensagens. O resto é fruto da nossa criatividade, com o aval deles.

O que é que tem de fazer?
Tenho de ser muito criativa, fazer coisas que ponham no centro das atenções o trabalho do UNFPA. Fui a países em estado de emergência, como o Haiti, e agora vou fazer uma reportagem em campos de refugiados onde o UNFPA está a ajudar bebés a nascer com algumas condições. Quando pensei sobre o que poderia fazer — ainda por cima porque não sou conhecida internacionalmente — surgiu o Príncipes do Nada, onde posso mostrar o trabalho do UNFPA mas também das áreas de desenvolvimento.

Se pegarmos nesses três exemplos — Catarina Furtado, Angelina Jolie e Amal Clooney — estamos perante três mulheres bonitas...
Isso é uma pergunta de um jornalista homem! Os primeiros embaixadores eram homens. Hoje, os homens estão mais ligados às causas ambientais, por exemplo, e as mulheres às sociais. O UNFPA escolhe figuras públicas, na área do teatro, cinema, música. Por acaso, a Amal Clooney é advogada, casada com o George Clooney, mas já tinha uma carreira antes do casamento. O mandato é renovado de dois em dois anos. Sempre que falo da Angelina Jolie, é porque eu e ela temos isto em comum — não temos mais nada, nem um Brad Pitt (risos) —, somos as mais antigas, as permanentemente renovadas. Já passei por três secretários-gerais: Kofi Annan, Ban Ki-Moon e António Guterres. E se tivesse sido ao contrário? Se fosse primeiro António Guterres, o que é que diriam? “Ah, foi buscar uma portuguesa...”

Assumiu na rádio que foi vítima de assédio sexual no início da sua carreira. Porquê falar nisso só agora?
Porque só agora ganhei coragem, só agora pensei que fazia sentido, porque houve um movimento internacional que passou a ser nacional e nestas coisas precisamos uns dos outros para percebermos que faz sentido uma mobilização geral. Na altura, pensei que havia tantas pessoas a assumir, por que é que eu tinha aquele segredo guardado e tenho autoridade — porque trabalho nestas áreas e passo a vida a dizer às mulheres que não tenham medo. Na CCC chegam muitas mulheres a chorar porque perderam o emprego em empresas que se dizem amigas da igualdade de género, porque disseram que estavam grávidas. Isto acontece todos os dias no nosso país. Eu decidi dizer e aconteceram duas coisas: pessoas que vieram dizer-me “obrigada Catarina” e outras que questionaram.

Começou a carreira aos 19 anos, foi fazendo um percurso de ascensão, já sente o peso da idade?
Sinto o peso da idade. Sinto que a idade que tenho me dá paz para dizer o que penso e fazer o que quero. É um estado. Não gosto da idade! Eu tenho pânico de morrer e, cada ano que passa, vejo mais perto a finitude. Aliás, uma coisa bonita que o Ricardo [Araújo Pereira] escreve no prefácio [do livro] é sobre a ideia de que somos “imunes ao tempo e ao acaso”. Estou muito contente com a carreira que tenho, com aquilo que fui construindo, mas fico com pena que os miúdos de seis anos não saibam quem eu sou.

Não sabem porque não vêem televisão, estão no YouTube. Já está no YouTube?
Não...

Mas já está nas redes sociais. Foi difícil?
Já estou nas redes sociais e foi difícil porque eu não queria.

No entanto, sentiu que era uma necessidade?
Senti que era bom para mim do ponto de vista profissional, que ia implicar algumas nuances na minha vida pessoal. Por exemplo, ir a um museu e sentir que é simpático partilhar uma imagem e o João [Reis, o actor e marido] está ao meu lado e diz-me: “Estamos aqui, não estamos lá fora.” Percebi que as redes sociais, se forem bem controladas e bem geridas, podem ser uma mais-valia. Eu comuniquei o lançamento do livro nas redes sociais, em primeiro lugar. Onde senti que pode fazer diferença é nas mensagens que têm que ver com as questões sociais. Faço grandes testemunhos de coisas que acontecem, nomeadamente sobre violência doméstica, etc.

No entanto, muitas figuras públicas não colocam nas redes sociais fotografias no museu, mas na praia, de biquíni. No seu caso, quando o faz, é à procura da eterna juventude?
No meu caso é um statement: eu acho que a vida é muito mais difícil para as mulheres, mesmo para as que têm sucesso. Temos de provar o dobro, constantemente, sempre, perante esta facada que existe sobre a nossa idade, sobre o peso da nossa idade. O George Clooney grisalho é um charme imenso e as mulheres não. Eu penso: por que é que eu, aos 47 anos, não posso pôr uma fotografia de biquíni? É uma afirmação. É dizer: “Libertem-se disso.”

Mas não é precisamente alimentar o estereótipo da mulher bonita, elegante, de biquíni?
Acho que não, que não estou a alimentar esse estereótipo. 

Se lutamos e queremos a igualdade, precisamos de estar de biquíni?
Não, mas precisamos de dizer às mulheres de 40 ou 50 anos que podem fazer o que quiserem. Podem estar de biquíni. É pegar no estereótipo e dar-lhe a volta.

Há uma idade limite para se fazer televisão?
Em Portugal? Na BBC, há pessoas com a idade do meu pai a apresentar telejornais. Mas, em Portugal, temos o Júlio Isidro.

Na RTP Memória.
Às vezes faz prime time, já apresentou comigo o Festival da Canção. Temos a Júlia Pinheiro, que já tem mais idade do que eu... Eu não sinto ainda o peso da idade na televisão.

Tem esse medo?
Não tenho. Sei o que é que vou fazer a seguir! (risos)

O que é que vai fazer a seguir?
Vou dedicar-me inteiramente àquilo que quero fazer muito: mudar as vidas das pessoas!

Ser documentarista é uma forma de manter uma carreira em televisão?
É uma forma de contar histórias. Eu comecei a fazer [documentários] há 13 anos, estava no auge da minha carreira. Portanto, não se trata de uma evolução, mas de uma necessidade. Eu tenho background de jornalismo e quando era miúda a coisa que mais gostava era de contar histórias. Assim que tive a hipótese de ver o mundo e de contribuir para que o mundo seja mais informado, pus-me a fazer documentários. E agradeço às várias administrações e direcções da RTP, que têm aprovado o Príncipes do Nada.

Vai haver uma nova série?
Sobre refugiados, vou começar a fazer em Junho. Ainda não sei quando vai para o ar.

Agora está no ar o À Roda da Alimentação, uma parceria com o Continente. Apresenta-o porque a alimentação está na moda?
Não. Sempre, enquanto bailarina e mesmo depois, fui superpreocupada com as questões da alimentação e do exercício físico. Sempre. Houve alguém que soube que eu tinha estas preocupações e propôs-me esta parceria. Lá em casa é o João que cozinha, coisas muito saudáveis. Usamos muito as quinoas, os tofus...

São alimentos que começaram a ser introduzidos recentemente.
Já comemos há algum tempo, ele é um visionário nessas coisas!

Se somarmos o programa, o blogue, o programa Chefs’ Academy...
Cozinhar? Se eu sei? Já estou a começar!

Já sabe fazer um ovo estrelado?
Eu nunca aprendi a cozinhar, tive uma mãe que é uma cozinheira extraordinária, os namorados que arranjei eram todos bons cozinheiros. Todos. Depois fui casar com um cozinheiro! As pessoas na rua, quando fazia o Chefs’ Academy, diziam-me: “Ó Catarina, tão boa menina, é uma pena não saber cozinhar...” É uma pena! E eu comecei a ficar orgulhosa por não saber. 

O que é que já sabe fazer?
(Risos) Uns sumos, umas papas de aveia...

Isso é só misturar ingredientes!
Mas é preciso saber as doses dos ingredientes, eu nem isso sabia! Saber quantidades... eu já estou muito evoluída!

Vai regressar ao horário nobre com um programa para miúdos?
Aqui Mandam as Crianças, é como se chama.

Tem saudade da televisão feita com glamour, como no Chuva de Estrelas?
O The Voice tem glamour. Tenho saudades da possibilidade de fazer coisas que implicavam um orçamento maior e que hoje em dia é impossível. Hoje fazem-se verdadeiras omoletes sem ovos. É muito duro trabalhar em televisão hoje em dia. Os sponsors são escassos. Quando comecei, eles pelavam-se por estar na televisão. Agora é ao contrário. Tenho saudades de projectos como A Caça ao Tesouro, que hoje seria impossível porque era bastante caro.

Se fizesse um top, o que ficava em primeiro lugar: a Catarina actriz, a embaixadora, a apresentadora, a voluntária?
No mundo ideal, eu acho que todos nós podemos conciliar coisas. Dentro de mim tenho tantas vontades diferentes que tenho de as saciar por etapas. Consigo conciliar a apresentação com a representação. O que é transversal é a minha condição de cidadã e enquanto cidadã é ser voluntária. Eu sou mãe e voluntária e depois uma comunicadora.

E a actriz, tem novos projectos?
Queria tanto! (suspiro) Queria voltar ao teatro, que é onde acho que consigo despir-me completamente. Onde não há os pozinhos da televisão, que às vezes baralham um bocadinho.