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Menopausa: uma valsa que junta trabalho, prazer e família

Se a valsa é dançada em três tempos, também a menopausa troca o passo em três campos: no trabalho, no prazer e na família. Maria Beatriz, que teve de desistir do emprego “de uma vida”, Ana Paula, que passou a sofrer nas relações sexuais, e Conceição, que amontoou problemas em casa. São mulheres que pisam os empecilhos e ensaiam soluções para serem as “protagonistas” da sua menopausa.

Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Um calor que nasce no peito e trepa até ao rosto de Maria Beatriz. A pele avermelha e queima “como uma água que começa a ferver”. Segundos depois, o calor dá tréguas: resta o mal-estar, os arrepios, a transpiração que a deixa “toda alagada”. É por esta mescla de sensações que Maria passa cada vez que tem um afrontamento. “Sinto que estou a entrar num microondas”, resume.

Há dias em que sente dois ou três afrontamentos seguidos e, muitas vezes, surgem de rompante “em situações mesmo indesejadas”, como a que aconteceu no ano passado, em que estava numa entrevista de emprego para uma empresa de call center, em Algés. “A entrevista estava a correr bem. Tinha de falar francês e o senhor disse que o meu francês era muito bom. Já estava a dizer as condições de trabalho. De repente, começo a sentir aquele calor a subir. Ele olhou para mim muito sério. Tirei o meu leque, disse-lhe que estava tudo bem, que era normal da menopausa. Ele perguntou-me ‘e se lhe dá um ataque destes quando está a falar com um cliente?’”, recorda Maria, de 52 anos, que então ficou sem resposta. “Depois lá lhe disse ‘o senhor está a ver-me, mas o cliente só me ouve'”, acrescenta. “Não quer dizer que a vaga fosse minha, mas senti que fiquei logo excluída. Antes de sair, pedi desculpa. Ele disse que estava tudo bem, mas eu já sabia que não me ia ligar.”

No ano passado, segundo os dados da Pordata, mais de dois milhões de mulheres estavam na menopausa. Como a esperança média de vida de uma mulher é 83 anos e a menopausa acontece, em média, aos 51, cerca de um terço da vida da mulher acontece na menopausa. Também é nesta fase que tem ainda cerca de 20 anos de trabalho pela frente.

Apesar de se tratar apenas de uma mudança fisiológica — os ovários diminuem a secreção de hormonas femininas, os estrogénios — o inquérito nacional, realizado em Maio de 2018, mostra que, em quase um quarto das mulheres, a menopausa teve impacto na sua vida laboral. Em 5% dos casos, provocou mesmo absentismo laboral. Os afrontamentos, as alterações de sono, a irritabilidade, ansiedade, maior propensão a doenças cardiovasculares e osteoarticulares são algumas das consequências da menopausa que podem interferir com o trabalho da mulher.

Reforma antecipada ou mudar de profissão

Maria saiu da escola quando completou a quarta classe. A avó arranjou-lhe trabalho numa fábrica de costura em Almada. Como detestava as máquinas e os tecidos, com 13 anos começou a servir às mesas em restaurantes e hotéis. Aos 46 anos já era chefe de cozinha quando começou a sentir o embate do início da menopausa — além de a menstruação se tornar irregular, apareceram os afrontamentos, as dores nos músculos e os “nervos à flor da pele”. “Estava a trabalhar num restaurante e tudo mexia com o meu sistema, levava as noites a chorar. Começava a ter muitas dores no corpo, nos músculos, nas articulações, acordava com a sensação de que tinha levado uma tareia a noite toda. Tinha dificuldade em pegar num saco de batatas, nos tachos, a estar oito horas de pé”, descreve.

Maria Beatriz, 52 anos Rui Gaudêncio

Quando foi ao médico descobriu que tinha fibromialgia — doença crónica que provoca dores musculares difusas e pouca tolerância ao esforço físico. Apesar de não ser fruto da menopausa —​ que pode surgir a partir dos 45 anos sem ser considerada precoce —, a fibromialgia manifesta-se, na esmagadora maioria das vezes, neste período. No entanto, há outros problemas, como a osteoporose e dores osteoarticulares, que são “consequência directa” da menopausa, diz Fernanda Geraldes, ginecologista e presidente da Secção Portuguesa de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG). “A perda de massa óssea é muito agravada quando a mulher entra na menopausa, desaparecendo 2 a 3% de massa óssea por ano nos primeiros cinco anos”, justifica Fernanda Geraldes. “A diminuição de estrogénios também prejudica a “lubrificação das articulações”, acrescenta.

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Depois de meses a tomar diariamente paracetamol para suportar as dores, o médico aconselhou Maria a pedir a reforma ou a mudar de profissão. “Nunca fui de baixar os braços, por isso, mudei de profissão”, recorda. Como sabe falar fluentemente francês — aprendeu em pequena com os primos emigrantes — e precisava de um trabalho onde pudesse estar mais tempo sentada, achou os call centers “uma boa opção”. Esteve quase meio ano a saltar de entrevista em entrevista, onde a menopausa era sempre tema. “Eles perguntavam-me porque é que eu queria mudar de profissão e eu era sincera. Falava da menopausa.” Em vários momentos, disseram-lhe que o seu perfil não se adequava, porque “procuravam mulheres mais novas”, recorda.

Agora trabalha na linha de apoio ao cliente numa empresa na Amadora. “Eu trabalhava com as mãos, agora é o cérebro. Tudo é novo. Demoro mais tempo a aprender a mexer no computador”, conta a mulher, que tem um caderno onde anota todos os passos dos programas informáticos. Quando se esquece de algo, pede ajuda aos colegas. “Na brincadeira, um colega ou outro já me disse ‘cota, calada, isso é efeito da menopausa, não digas disparates’, mas não levo a mal. Às vezes respondo: Se fosse uma receita, eu queria ver quem estava em vantagem”, conta Maria numa gargalhada.

Cristina Mesquita de Oliveira, do Porto, formou no ano passado o grupo de Facebook Menopausa Divertida —​ que tem mais de quatro mil membros — e partilha que, no grupo, há cada vez mais queixas laborais. “Mulheres que estão no auge da sua carreira e que com a menopausa se começam a sentir mais cansadas, com os sonos trocados, os constantes afrontamentos, maior irritabilidade e foram convidadas a deixar as suas funções porque já não produzem da mesma forma. Outras dizem que ouvem comentários de troça dos colegas”, explica a administradora do grupo, que lamenta também existirem outros momentos — como na altura da gravidez e primeiros anos de maternidade — em que as mulheres são discriminadas no trabalho.

Fernanda Geraldes, da SPG, considera que é necessário as empresas encararem a menopausa “de forma mais positiva” e sublinha as “vantagens” laborais da mulher nesta fase: “Tem mais experiência, mais formação, pode ser mais confiante, mais liberta por já não ter filhos pequenos.”

No caso de Maria, as mudanças laborais “mexeram um bocadinho” com a auto-estima: “Eu gosto é de estar numa cozinha, foi o trabalho de uma vida. Ter de acalmar, ver que já não consigo fazer o que conseguia diminui-me um bocadinho”, afirma. “Depois começo a olhar para os meus filhos, um com 26 anos e outro com 30, e penso: ‘Qualquer dia sou avó. Será que vou conseguir pegar nos meus netos?’”, questiona. “É complicado, mas não me deixo abater e eu quero ser uma mulher que supera isto”, acrescenta.

“Era como uma faca a espetar”

Segundo o inquérito nacional de 2018 que envolveu mulheres entre os 45 e 60 anos, mais de metade das inquiridas (57%) afirmou que os sintomas da menopausa interferem com a sua vida diária. Além do impacto em contexto laboral, o mesmo estudo mostra que cerca de 24% das inquiridas passaram a ter dores nas relações sexuais e 23% redução do desejo sexual.

Ana Paula Ribeiro, 56 anos, recorda que, há nove anos, começou a sentir que “alguma coisa” não estava bem. “As relações sexuais começaram a ser muito dolorosas.” Não sabia se estava relacionado com a menopausa, pois como utilizava o DIU como método contraceptivo não tinha menstruação há vários anos. Desconfiou que fosse uma infecção, procurou ajuda na farmácia e comprou um creme para infecções fúngicas vaginais, que “fez pior”, recorda.

Apesar do incómodo, Ana Paula tinha “outras prioridades” na altura. O pai tinha cancro e era Ana que o acompanhava nas consultas e tratamentos. “Esqueci-me um bocadinho de mim, deixei de me preocupar comigo, havia outras coisas à minha volta que eram mais preocupantes”, diz. O pai acabou por não resistir à doença e, anos depois, também a mãe e o marido morreram de cancro.

Ana Paula dá aulas de relações públicas e marketing ao ensino profissional no Feijó, Almada. Rui Gaudêncio

A dada altura, decidiu ir à médica de família e foi quando descobriu que tinha atrofia da vulva – que causa secura vaginal e dor nas relações sexuais. “É uma das grandes consequências da menopausa e prejudica muito a qualidade de vida da mulher”, explica a ginecologista Fernanda Geraldes. “É difícil imaginar, só sabe quem passa por isto. A pele entre a vulva e o ânus parece que vai estalar, dói só ao urinar, e às vezes a entrada do pénis era como uma faca a espetar”, acrescenta Ana Paula Ribeiro.

Começou a procurar soluções para fintar o problema. O primeiro passo foi colocar um espelho entre as pernas para “ver o que se passava”. “Foi quando me assustei e vi a pele muito mais branca”, relembra. Há quatro anos que é viúva, mas antes disso teve de repensar a sua vida sexual com o marido. “Além das carradas de lubrificante, o sexo passa a ser planeado. Não era como antes, do tipo ‘bora lá’. Era um processo em que eu sabia que ia sofrer. Isto só é possível com um companheiro fantástico e com muita sensibilidade”, defende.

Nestes casos, alerta a sexóloga Graça Santos, é imperativo as mulheres cuidarem da vagina. “Usar um creme hidratante vaginal diariamente, usar lubrificante durante a relação sexual, e, se não houver contra-indicações, pôr, pelo menos duas vezes por semana, um creme à base de estrogénios locais”, aconselha. A ginecologista Fernanda Geraldes acrescenta que existem também “comprimidos vaginais de estrogénio e óvulos vaginais que, além de melhorarem a secura vaginal, têm demonstrado bons resultados a nível da sexualidade”.

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“Ainda estamos vivas”

A par da secura vaginal, muitas mulheres sofrem alterações no apetite sexual. “Deixam de ter aquilo que é chamado desejo espontâneo. Depois pensam ‘se não estou com vontade agora, não vale a pena iniciar’, mas se não tiverem disponíveis a iniciar uma carícia sexual para depois acabarem por sentir excitação, isso acaba por nunca acontecer”, afirma a sexóloga Graça Santos.

Segundo a responsável pela consulta de sexologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, não há respostas “simples” para estimular o apetite sexual da mulher. “Enquanto a um homem se pode prescrever [comprimidos] Viagra, a sexualidade da mulher tem mais que ver com o contexto da relação e da forma como se sente desejada e erotizada”, explica Graça Santos, que lamenta o envelhecimento ainda ser punitivo para as mulheres. “A mulher na menopausa é deserotizada pela própria sociedade e ela interioriza isso. Esta fase é vista como fim da fertilidade, o fim da feminilidade, e muitas mulheres sentem isso como uma desvalorização do eu, da capacidade de ser atraente e de inspirar e viver sentimentos sexuais. É só a avó que pode ficar com o neto”, explica a sexóloga.

A repressão da expressão sexual que muitas mulheres sofrem para não serem “demasiado exuberantes” e o modelo castrador da sexualidade que apenas legitima o sexo quando está associado à reprodução também são factores que contribuem para que nesta fase a vivência sexual da mulher se torne mais espaçada ou, em certos casos, se extinga, alerta Graça Santos. “Não é só a sexualidade a pares mas também a masturbação”, que quando é proposta em consulta “é muitas vezes vista como algo vergonhoso”, acrescenta a médica.

“Nós estamos vivas, ainda não morremos. Quando digo às minhas amigas que não tenho homem mas tenho mãozinhas, parece que digo uma grande asneira”, exemplifica Ana Paula, que considera que os problemas sexuais ainda estão afundados em tabus. “Quando recebi a carta do Garcia de Orta [hospital onde é acompanhada], a dizer que tinha uma consulta de patologia da vulva nem sabia que isso existia, nunca tinha ouvido falar de tal coisa”, relembra. Ainda assim, quando vai às consultas, garante que as salas de espera estão cheias. “Somos é poucas a falar disto. São assuntos que não se comentam com as amigas nem com a família”, afirma. “Há um ano e meio ultrapassei um cancro [de ampola de Vater] e, mesmo nessa altura, era mais fácil falar com a família sobre o cancro do que sobre a atrofia”, conclui.

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Para Conceição Julião, 58 anos, a menopausa foi uma fase em que os problemas com o marido se amontoaram. “Quando tenho vontade, satisfaço-me sozinha. A masturbação é uma coisa normal, deixei de ter problemas com isso. Antigamente, a gente dizia que era pecado, mas pecado é não nos sentirmos bem”, declara.

Garante que pensar na menopausa nunca a atormentou. A única “pena” que teve foi já não poder ter filhos. “Sempre tive uma paixão muito grande por ter filhos, mas a vida não deu para mais. Só tive dois. Mas eu conservava o sonho de ser uma barriga de aluguer para uma nora ou para alguém próximo que, por razões de saúde, viesse a precisar. Era uma hipótese muito remota, fazia apenas parte das minhas conjecturas emocionais, mas agora já não é possível”, afirma.

No seu caso, o início da menopausa “foi mau” porque coincidiu com muitos acontecimentos, que Conceição consegue datar de cor. No dia 12 de Dezembro de 2002 foi operada – retirou um quisto e o ovário. No início de Junho, em 2003, mudou-se de Setúbal para perto das Caldas da Rainha. Em Dezembro de 2008, foi a Lisboa para se queixar ao médico da constante vontade de urinar. Descobriu que tinha cancro no ovário. No dia 2 de Fevereiro de 2009 fez uma histerectomia total, que consiste na remoção do útero.

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Com a introdução da menopausa e as sessões de quimioterapia, Conceição começou a entrar “num poço muito fundo” e a enfrentar uma depressão. Engordou 30 quilos — chegando a pesar mais de 90 —, o que “destruiu” a sua auto-estima. Quando tinha sintomas da menopausa — como os afrontamentos —, ficava “com vontade de se esconder para que ninguém visse”. “As pessoas iam perceber que era um afrontamento, não tem nada de mal, mas acho que é uma questão de negação, isso vai mexer com coisas emocionais mais profundas que suavizamos com o parecer dos outros”, diz.

Foi também nesta altura que Conceição ficou desempregada, o filho adolescente atravessava uma “fase complicada”, os problemas financeiros multiplicaram-se, bem como os conflitos familiares. “O que mais me custou foi o ambiente familiar, principalmente a relação com o meu marido. Tinha os nervos à flor da pele e as minhas reacções, às vezes, com mais histerismo, eram logo associadas à menopausa. E isso fere-nos, esmaga o nosso emocional, a nossa auto-estima”, defende.

Conceição Julião, 58 anos.

No último inquérito nacional, entre os aspectos da vida pessoal afectados na menopausa, 22% das inquiridas destacaram o impacto na vida familiar e conjugal. “Há muitas mulheres que, na discussão com o marido, ouvem comentários como ‘estás é com a menopausa’ para desvalorizar o que dizem”, afirma Manuel Neves e Castro, ginecologista e fundador da Sociedade Portuguesa de Menopausa — que foi mais tarde substituída pela Secção Portuguesa de Menopausa. “Sempre que tenho alguma cliente na menopausa, costumo perguntar como o marido reage. Se perceber que reage mal, sugiro que ele venha também às consultas para podermos falar”, acrescenta.

Morrer para renascer

“Tive de encontrar outro foco para mim, para a minha vida e auto-estima. Estou a reerguer-me”, partilha Conceição. Para aliviar os sintomas da menopausa, começou a procurar soluções mais naturais, como as cápsulas de onagra. Iniciou também uma alimentação vegana e hoje já faz, na sua casa, manteiga e queijo sem produtos de origem animal. “Consegui emagrecer quase 30 quilos”, regozija Conceição, que tem aproveitado o tempo livre para se inscrever em cursos — como o de Doula – e em vários círculos de mulheres. “Comecei a desmistificar ideias antigas, que foram criadas pelo patriarcado, como o período ser uma coisa suja. Comecei a perceber o que há de bonito em nós”, explica.

O próximo desafio é ir com um grupo de missionários para Angola durante seis meses. “Para me preparar para a viagem, comecei a fazer caminhadas numa passadeira rolante, e todos os dias ando uma hora enquanto vejo um filme à frente da passadeira”, conta. “Decidi que vou cuidar de mim. Ir abaixo é o que nos faz morrer para renascer. E esse renascimento deve ser feito de forma muito consciente”, conclui.

“A menopausa não é uma doença, mas é um momento na vida da mulher em que ela tem de parar, escutar e olhar para a frente”, diz Manuel Neves e Castro. Para o ginecologista, os médicos têm de ser a alavanca para as mulheres encararem a menopausa da melhor forma. “Muitos médicos não ligam aos sintomas que as mulheres partilham nesta altura, como a diminuição da auto-estima, problemas de sexualidade, aspectos estéticos. Há muitos que dizem: ‘Aguente, isso há-de passar.’ Mas tudo isto são problemas de qualidade de vida, e as mulheres merecem saber o que podem e devem fazer para manter a qualidade de vida nos anos vindouros”, diz o ginecologista, que propôs “há mais de 20 anos” a criação do dia mundial da menopausa à Organização Mundial de Saúde —​ agora celebrado a 18 de Outubro.

Também a sexóloga Graça Santos diz que não há “muito espaço nas consultas para que a mulher fale”: “Há muitos técnicos, médicos, psicólogos, sexologistas que não valorizam as queixas sexuais na menopausa ou não perguntam.” “Se não perguntarem, as mulheres não vão falar de forma espontânea”, acrescenta Fernanda Geraldes, que sublinha as acções da Secção Portuguesa de Menopausa com a comunidade científica para sensibilizar para este tema. “Acho que ainda há um longo percurso a fazer nesta área”, considera. 

O inquérito nacional de 2018 mostra ainda que 85% das mulheres procuram informação sobre a menopausa junto do médico de família, 35% do ginecologista, 30% do farmacêutico e 28% na Internet. No site Google Trends — que analisa quais são as palavras mais pesquisadas por região e idioma — é possível perceber que, em Portugal, há mais mulheres a pesquisar sobre menopausa do que, por exemplo, sobre a pílula. “Era cada vez mais fundamental haver bons sites a falar da menopausa sem tabus”, afirma Fernanda Geraldes.

As mulheres são as protagonistas

Quando Cristina Mesquita de Oliveira, do Porto, começou a ter sintomas de menopausa foi ao Google. “Encontrei um número disparatado de resultados relacionados com a palavra sintoma e doença. Só havia artigos médicos”, afirma Cristina, que procurava um espaço onde pudesse falar com outras mulheres. Como não encontrou, decidiu criar o grupo de Facebook Menopausa Divertida.

Este é um espaço de desabafo. “As mulheres dizem que não têm com quem falar, que o marido já não aguenta, que aqui podem vir resmungar e ninguém vai dizer que estão tolas”, diz. Também há rubricas — como a “make up para totós” onde são partilhadas dicas de maquilhagem à prova de afrontamentos — e organizam encontros. Já se reuniram no Porto, em Lisboa e Almada. “Já há mulheres a perguntar: e para quando em Coimbra?”, continua Cristina, que fez mais de 300 quilómetros para não faltar ao último encontro no Fórum Almada.

Cristina Mesquita de Oliveira faz exercício físico todas as semanas Anna Costa

“Todas queremos viver, ser bonitas, ter expectativas no futuro, somos um grande apoio umas para as outras e juntas podemos abanar o mundo, pelo menos o nosso”, defende. “Queremos ser as protagonistas da nossa menopausa. Os protagonistas não podem ser os médicos. Os médicos só tratam as mulheres doentes em fase de menopausa, mas a menopausa não é nenhuma doença”, acrescenta. No futuro, Cristina gostava que este grupo ajudasse as futuras gerações a olhar para a menopausa sem amarras nem tabus, mas de forma “leve e divertida” — como se de uma valsa se tratasse.