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A maior vítima da guerra comercial: a Alemanha

O conflito comercial é entre a China e os EUA, mas a economia alemã, muito dependente das exportações, é das que mais tem a perder, afectando com isso o resto da Europa.

Reuters/JOSUE GONZALEZ

Para a economia alemã, habituada a ter nas exportações o principal motor do crescimento, o cenário mais temido sempre foi o de um regresso do mundo a uma era de proteccionismo comercial. Para já, este cenário ainda não se concretizou, pelo menos totalmente, mas a recente escalada do conflito entre os EUA e a China, combinada com a perspectiva de um “Brexit” desordenado, pode já ter sido o suficiente para a Alemanha entrar, durante o segundo trimestre do ano, em recessão, forçando o governo a ponderar uma alteração da sua política orçamental.

Os dados oficiais do PIB do segundo trimestre na Alemanha (e também na maioria dos países da zona euro, incluindo Portugal) vão ser divulgados esta quarta-feira. A maior parte dos analistas aponta para a possibilidade de uma contracção da economia alemã entre 0,1% e 0,2%. E também antecipam que esta variação negativa pode ser o início de um período de recessão para a maior economia europeia, já que são vários os sinais que apontam para uma manutenção da tendência negativa também no terceiro trimestre. Uma recessão técnica é habitualmente declarada quando uma economia regista dois trimestres consecutivos de variação negativa do PIB.

E, de facto, durante as últimas semanas, sucederam-se os sinais de que a economia pode já ter entrado numa recessão. Em Junho, as exportações de bens caíram 8% e a produção industrial 1,5%, quedas bem maiores do que aquelas que eram antecipadas pelos analistas.

Os resultados dos inquéritos feitos às empresas do sector industrial têm repetidamente sido uma decepção. E, esta terça-feira, o indicador de confiança dos investidores produzido pelo instituto ZEW mostrou que as expectativas, tanto em relação à situação actual como no que diz respeito aos próximos meses, se deterioram de forma muito acentuada em Agosto, principalmente no sector industrial. O índice caiu para -44,1 pontos, muito mais do que era previsto, atingindo o valor mais baixo desde Dezembro de 2011.

O que está a levar a estes resultados, todos concordam, é fundamentalmente o receio – que se está a generalizar entre as empresas e os consumidores - de que um agravamento do clima de guerra comercial no mundo prejudiquem uma economia que tem baseado o seu sucesso das últimas décadas na força da sua indústria e exportações.

É certo que a taxa de desemprego se mantém abaixo de 4% e a Alemanha não corre qualquer risco de entrar numa crise orçamental, mas as expectativas de que o país possa continuar, como fez nos últimos anos, a garantir o seu crescimento por via de excedentes externos muito elevados, vão diminuindo à medida que se assiste em alguns dos principais clientes da Alemanha a um discurso proteccionista. Actualmente, as exportações representam 47% do PIB alemão, o que significa que qualquer perda a este nível tem um impacto global muito significativo.

Em teoria, a Alemanha (e o resto da zona euro) até poderia ter alguma coisa a ganhar com o facto de EUA e China aumentarem as taxas alfandegárias entre eles, abrindo novas possibilidades de entrada a terceiros nesses mercados. Mas há dois problemas: se os EUA e a China abrandam, a procura global mundial diminui, afectando todos. E não há qualquer garantia de que Trump, a seguir à China, não se vire para a Europa (e para a Alemanha em particular) como alvo da sua batalha comercial seguinte. O presidente norte-americano já ameaçou que, se não for possível chegar a um acordo com a UE, aumenta as taxas alfandegárias sobre a importação de automóveis, uma medida que penalizaria fortemente a Alemanha.

Perante este cenário, uma das possibilidades em cima da mesa é a Alemanha passar a apostar mais na procura interna. Ao longo dos últimos anos, entidades como o FMI têm vindo a recomendar a Berlim que use o espaço de manobra de que dispõe no seu orçamento, permitindo que se registem défices, para reforçar o investimento e incentivar uma política salarial mais generosa.

O governo alemão, no entanto, tem sido muito moderado nas mudanças que tem operado na sua política económica. Tem havido algum reforço do investimento público, mas nunca abandonando o objectivo de défice zero. Será que agora, com a economia a ameaçar uma entrada em recessão, alguma coisa de substancial irá mudar?

Esta semana, a agência Reuters noticiou que o governo alemão estaria a ponderar abandonar a sua meta de défice zero e utilizar um aumento da dívida para financiar um programa de investimento público de combate às alterações climáticas.

Se há tema com algumas hipóteses de suavizar as preocupações de moderação orçamental na Alemanha é o da necessidade de investir para garantir a sustentabilidade orçamental, como demonstra a forte prestação eleitoral conseguida recentemente pelos Verdes, que defendem a necessidade de “investimentos massivos para a protecção do clima”.

No entanto, no início desta semana, a líder da CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer, veio já reduzir as expectativas relativamente a uma viragem brusca da política económica alemã. “Penso que seria errado que agora anunciássemos que iríamos colocar de lado o princípio do défice zero”, disse.

Uma coisa é certa, aquilo que acontecer na Alemanha, terá um impacto imediato em todos os países da zona euro. E, para Portugal, uma travagem alemã representa um obstáculo importante para o desempenho da economia. A Alemanha está sempre entre os três principais clientes das exportações e as suas empresas estão entre as que mais têm feito investimentos de longo prazo em Portugal.