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Efacec, o negócio mais vulnerável de Isabel dos Santos em Portugal

Garantir fundos próprios e ganhar novas encomendas são os principais desafios que se colocam à empresa presidida por Mário Leite Silva, braço-direito da empresária angolana, também constituído arguido.

Isabel dos Santos na inauguração da Unidade de Mobilidade Eléctrica da Efacec Nelson Garrido

Os trabalhadores da Efacec “estão muito preocupados” com os acontecimentos que envolvem a sua maior accionista, Isabel dos Santos, constituída arguida pela justiça angolana, situação que também se verifica com gestores que lhe são próximos, como Mário Leite Silva, presidente da empresa de Matosinhos, e que tem tido um papel interventivo na sua gestão.

A situação da empresa, com perto de 2500 trabalhadores em Portugal e em vários países do mundo, também foi particularizada pelo primeiro-ministro, António Costa, quando questionado sobre as eventuais consequências do Luanda Leaks nos negócios da empresária em Portugal. “Espero que as empresas mantenham a sua actividade, até porque algumas delas são essenciais para a economia nacional, designadamente a Efacec — uma empresa industrial num sector de ponta de referência”, afirmou António Costa, esta quarta-feira.

O governante não individualizou outras participações, muito relevantes em termos de capital, nomeadamente na Nos e na Galp, mas sem posição de domínio. A empresária é ainda accionista do EuroBic, mas já colocou essa participação, de 42,5% do capital, à venda, situação a que não será alheia a pressão do Banco de Portugal.

A preocupação dos trabalhadores, expressa por um dirigente do Sindicato das Indústrias Transformadoras e Energia do Norte (SITE Norte) e também por representantes da comissão de trabalhadores, é ampliada pelo facto de a empresária angolana deter a maioria do capital (67,2%) e de dominar a gestão da empresa, com intervenção reduzida dos outros dois accionistas, Têxtil Manuel Gonçalves e o grupo José de Mello, através da MGI Capital.

A Efacec é o negócio mais exposto ou mais vulnerável à empresária Isabel dos Santos, por várias razões. Uma delas, apurou o PÚBLICO, é o facto de apresentar uma carteira de encomendas modesta, que precisa de ser substancialmente ampliada, e de esse objectivo poder ser prejudicado pela imagem reputacional da maior accionista. No Relatório e Contas de 2018, a empresa inscreveu 433 milhões de euros de vendas e uma carteira de encomendas de 533 milhões de euros.

O plano de crescimento da Efacec, definido pela empresária, que entrou na empresa em finais de 2015, assentava principalmente em Angola, onde não se veio a confirmar nem um grande crescimento de negócios, nem o recebimento de todos os investimentos realizados no passado.

Outra vulnerabilidade prende-se com a estrutura de capitais próprios, numa altura em que o financiamento bancário ou junto de investidores institucionais será mais difícil. O EuroBic cortou relações comerciais com a empresária, e a emissão de obrigações que a Efacec fez em 2019, no montante de 58 milhões de euros, junto de investidores institucionais, foi feito à taxa de 4,5%, relativamente elevada, face a outras emissões empresariais.

Em 2018, a situação dos capitais próprios foi prejudicada pelo pagamento de compensações acessórias aos accionistas, não sendo possível perceber se esses pagamentos continuaram no ano passado, ou se, pelo contrário, entram outras prestações. De acordo com as contas relativas àquele exercício (as de 2019 ainda não estão disponíveis), o passivo da empresa subiu de 327,6 milhões de euros para 414,4 milhões de euros (+26%), por aumento da dívida financeira bruta. 

Depois de em 2017 terem injectado 35,9 milhões de euros na empresa — 26 milhões pela Winterfell2 Limited, detida por Isabel dos Santos e 9,8 milhões pela MGI Capital — em 2018 foi aprovado o reembolso de 24,4 milhões de euros, dos quais foram pagos 11,6 milhões à Winterfell2. Os restantes 12,8 milhões de euros foram inscritos na rubrica credores e acréscimo de gastos, o que afectou a dívida líquida da empresa. Esta operação foi a que mais contribuiu para a redução do capital próprio em 29,5 milhões de euros, a que se junta uma redução em 5,3 milhões de euros, na sequência de um processo de aquisição de acções próprias ao accionista MGI Capital.

O aumento dos lucros, para 14 milhões de euros, e da injecção, no mesmo ano, de cinco milhões de euros em suprimentos pela accionista Isabel dos Santos, minimizaram o impacto das operações anteriores.

As contas foram auditadas pela PwC, sem reservas, com apenas o Conselho Fiscal a sinalizar o pagamento das prestações acessórias.

A administração da Efacec não se mostrou disponível para responder aos pedidos de informação solicitados pelo PÚBLICO. O Sindicato das Indústrias Transformadoras e Energia do Norte pediu uma reunião à administração da empresa, que ainda não foi marcada.

Em declarações ao PÚBLICO, Miguel Moreira, dirigente do SITE — Norte pede a imediata suspensão do despedimento de alguns trabalhadores, que estão a contestar esse processo em tribunal e que exigem o fim de alegados “actos de perseguição de funcionários, com a abertura de processos disciplinares por tudo ou por nada”. Miguel Moreira refere ainda que só uma mudança de atitude da administração pode “travar a saída de mentes brilhantes, pessoas muito capazes, que fazem falta à empresa”.