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Wagner Moura: “A censura no Brasil não é uma possibilidade. É um facto”

O filme Marighella, realizado pelo actor brasileiro Wagner Moura, foi apresentado na 13.ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival. Depois de cancelada a sua estreia em sala no Brasil, a sessão no Teatro Tivoli, em Lisboa, seguida de debate, esgotou. A noite foi de resistência, com declaracões vindas de uma plateia cheia de brasileiros, angolanos e de portugueses como aquela que afirmou: “Wagner Moura, Bolsonaro não gosta de você, mas eu gosto”.

“Sessão histórica”, chamou-lhe Paulo Branco, agradecendo a todos “o entusiasmo” de estarem naquela que seria a única sessão do filme Marighella, do brasileiro Wagner Moura, na 13.ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival, num “momento muito particular para o filme e para o Brasil”. Mas com a bilheteira esgotadíssima e perante uma multidão, que no domingo à noite, se juntou às portas do Tivoli, em Lisboa, para tentar entrar na sala, o festival vai mostrar o filme que por questões burocráticas tem sido impedido de se estrear em sala no Brasil numa sessão excepcional no próximo domingo, 24 de Novembro, às 16h, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra.

O realizador da longa-metragem que se estreou em Fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, tem viajado por outros festivais a apresentá-lo. Nessas sessões, tal como aconteceu em Lisboa, há sempre muitos brasileiros na plateia. “Com um sentimento que nos é comum de vontade de revolta, de vontade de lutar, de resistir”, disse Wagner Moura no Teatro Tivoli, na sessão integrada no simpósio Resistências, que além da curadoria de Juan Branco o teve como moderador do debate que se seguiu à exibição do filme.

“Infelizmente até hoje não conseguimos estrear o filme no Brasil. Isso é muito grave não só para Marighella. Vivemos no Brasil, entre outras coisas, uma situação de censura nas artes e na actuação cultural”. Da plateia surgiu um grito de mulher: “Fora Bolsonaro!” Logo seguido de uma multidão de vozes a gritar “Fora! Fora!”

Carlos Marighella é neste filme interpretado por Seu Jorge. O guerrilheiro brasileiro, que liderou um dos maiores movimentos de resistência à ditadura militar no seu país, instaurada em 1964, era considerado pelo regime o “inimigo número um”. Além de político era também escritor, admirado por Jean Paul-Sartre que o publicou em França. Foi assassinado em Novembro de 1969. Ainda hoje a sua actuação divide opiniões. “As pessoas precisam saber que no Brasil tem gente resistindo e que essa luta é justa”, ouve-se num dos diálogos do filme.

Marighella é sobre os que resistiram à ditadura militar no Brasil, mas é também sobre aqueles que estão resistindo agora no nosso país e não só no Brasil. Na América Latina de um modo geral está a viver-se um período muito duro, muito difícil. Tenho a honra de ter hoje na plateia Rafael Correa, o ex-Presidente do Equador (de 2007 a 2017), por quem tenho muita admiração, quero dedicar o filme a ele, aos equatorianos, aos bolivianos, ao povo chileno”, disse Wagner Moura, que ficou conhecido mundialmente pelos seus papéis nos filmes Tropa de Elite e na série Narcos, da Netflix.

O argumentista Felipe Braga, que estava ao seu lado no palco, contou que quando estavam a trabalhar no filme, que se baseia na biografia Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo escrita pelo jornalista Mário Magalhães e que foi publicada no Brasil em 2013, tinham receio que quando o estreassem ele fosse anacrónico e as gerações mais jovens não o entendessem. “Mas o filme ficou tristemente contemporâneo. Aproveitem”, disse o argumentista. Quando as luzes se apagaram, ouvem-se na sala vivas a “Lula livre” e grita-se o nome da política Marielle [Franco], que foi assassinada a 14 de Maio de 2018 no Rio de Janeiro.

A ideia do realizador, quando começou a trabalhar no projecto, era “devolver” a figura de Marighella ao imaginário popular brasileiro. “Marighella é um personagem importantíssimo na história do Brasil que foi apagado”, diz Wagner Moura. “Esse é um filme sobre resistência, mas é também um filme sobre sacrifício, as duas coisas estão ligadas. Você percebe o tempo todo que um personagem se sacrifica pelo outro, Marighella sobretudo. Ele é um homem que dedicou e sacrificou a vida ao que ele pensava e acreditava. Tenho reverência por pessoas assim.”

Uma história mal contada

Wagner Moura nasceu em 1976. Por isso, a cena das crianças a cantarem o hino de frente à bandeira nacional, é uma das suas memórias. “Eu vivi muito aquilo”, disse. E na escola foi-lhe ensinado que a “revolução de 1964”, como lhe chamou o movimento que derrubou o governo do Presidente João Goulart e instaurou o regime e ditadura militar, “salvou” o país. “Nossa história foi muito mal contada. E sinto que é isso que o Governo actual tende a fazer. Hoje em dia já há mudanças semânticas em relação ‘a golpe de 64’, já se fala em ‘movimento de 64’. Essas nuances que começam a aparecer e que vão transformando a narrativa”, acrescentou este “artista que se interessa por política”, como se referiu a si próprio.

Wagner Moura com Felipe Braga e Juan Branco (que moderou o debate) nuno ferreira santos

Ao actor interessam-lhe as pessoas que lutaram contra a ditadura militar, porque são de uma geração muito próxima da sua. São da geração dos seus pais, mas pouco se sabia sobre eles, pouco se falava. Sentiu muita curiosidade porque eram pessoas muito jovens. Marighella tinha 55 anos e estava rodeado de jovens de 19 ou 20 anos. “Quando eu penso em mim, aos 19 anos eu era um idiota!” Wagner Moura considera engraçado que um jovem adolescente no Brasil de hoje seja muito mais politizado e próximo da geração dos que lutaram pela liberdade do que da sua. Se há alguma coisa boa em mundos distópicos é que da distopia vem a resistência, vem a politização.”

Para realizador e argumentista era importante que o filme funcionasse como cinema de ficção, pois já existia um documentário sobre Marighella. “Em muitos momentos tomamos liberdades criativas inerentes ao cinema ficcional. Os personagens que se vê no filme são baseados em personagens reais mas também são amálgamas de guerrilheiros. Eles levam o nome dos actores, porque os actores pediram que os personagens tivessem seus nomes de tão envolvimento que tínhamos com aquele projecto”. Queria que todas as personagens do filme fossem complexas. “O próprio Marighella eu o coloco em situações em que o espectador fica a pensar se está certo: ‘É isso mesmo [a solução], botar uma bomba?’”, afirma Wagner Moura.

E terá conseguido. Priscila, uma estudante brasileira a fazer a sua tese de mestrado em Lisboa, presente na sessão confessava no final ao PÚBLICO, “que choca um bocado essa ideia de resistência armada” e “não queremos isso para o nosso país” mas é importante que o filme lance esse debate.

Guerra à cultura

Os problemas com a longa-metragem Marighella começaram logo no início com as dificuldades de financiamento. “Ninguém quis bancar o filme. Esse filme existe graças ao Fundo Setorial do Audivisual. Se não fosse isso o filme não teria sido feito. Eu sou um artista identificado com a esquerda fazendo filme sobre um personagem controverso, sabíamos que ia ser difícil”. E quando, em 2017, já estavam em rodagem, sentiram “um aumento de conservadorismo” e “de ameaças de pessoas que diziam que iam invadir o set e bater na gente”, disse Wagner Moura.

“Bolsonaro mesmo parou o seu tempo de Presidente para gravar um vídeo para falar mal de mim e do filme. Estou preparado para isso não tenho nenhum problema em debater e defender o filme que eu fiz. O que eu não estava preparado era para o filme não poder estrear. Isso me apanhou de surpresa”.

Mais tarde, quando se abriu a discussão ao público na plateia, uma portuguesa numa referência à canção de Chico Buarque Jorge Maravilha que tem o verso “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, fez questão de dizer ao realizador: “Wagner Moura, Bolsonaro não gosta de você, mas eu gosto”.

O que se passa é que tinham a estreia marcada para este mês no Brasil, no Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, já com cartazes e toda a campanha de promoção. Tiveram de cancelar por causa de entraves burocráticos postos pela Ancine - Agência Nacional do Cinema.

No Tivoli discutiu-se a actual situação no Brasil nuno ferreira santos

Juan Branco, que estava a moderar a sessão, lembrou que normalmente é na fase de financiamento dos filmes que se exerce a censura, através do bloqueio financeiro antes da rodagem. E fez notar que Marighella faz parte dos poucos filmes que uma vez que estão feitos, e são um objecto que teoricamente vai trazer dinheiro, o que em geral é menos censurante, mesmo assim está a ser impedido disso, e isso é um evento muito raro não só ao nível do Brasil. “Está a tentar criar-se invisibilidade para um projecto artístico acabado. É uma coisa que é quase delirante de alguma forma”. Gargalhadas na plateia depois da resposta pronta de Wagner Moura: “Vivemos um momento delirante”.

A única explicação para o caso é que até agora a equipa de produção do filme conseguiu escapar a todas as dificuldades, “mas na hora de lançar já não foi possível”, disse Wagner. “Não quero falar de Marighella como um caso isolado. Bolsonaro declarou guerra à cultura. A tudo. Nunca vi um projecto de destruição de um país como esse”, afirmou. “A censura hoje no Brasil não é uma possibilidade, é um facto”, acrescentou, deixando uma nota positiva. “Mas isso passa e a cultura fica.”

Uma das perguntas que vieram do público foi sobre a possibilidade de colocarem o filme na Internet para que pudesse passar em comunidades e associações. “Sinceramente eu adoraria fazer isso, mas esse filme não é meu. Tenho obrigações contratuais que não posso deixar de cumprir”, explicou o realizador. Mas acredita que depois de conseguir estrear o filme nas salas de cinema, possa vir a apresentá-lo em favelas e em acampamentos do Movimento Sem Terra, por exemplo. 

Luís Apolinário, da Alambique Filmes que tem os direitos de distribuição do filme em Portugal, não acredita que “a censura no Brasil tenha chegado a um ponto em que o filme seja de facto eliminado”. Acredita que em Março ou Abril vão poder estar a estrear o filme nas salas portuguesas. Estão só a aguardar que o processo burocrático seja desbloqueado pelas autoridades brasileiras.