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Tornar a música moçambicana grande pela primeira vez

A segunda edição do MMM – Mozambique Music Meeting, que este domingo chega ao fim, quer contrariar uma história de invisibilidade e periferização a que poucos artistas conseguiram escapar. As dores de crescimento do país não ajudam, mas há uma nova geração mais preparada para se fazer ao mundo.

Lenna Bahule regressou de São Paulo para abrir a segunda edição do MMM – Mozambique Music Meeting com toda a urgência do mundo. Há muito tempo perdido para recuperar, muitas contas para acertar, quando o que está em causa, para “samplar” um refrão muito deste início do século XXI, é tornar a música moçambicana grande pela primeira vez. Não houve, até hoje, nenhuma velha glória da marrabenta, nenhum mestre da timbila, nenhuma estrela em ascensão do pandza, por estes dias o género mais popular nas ruas de Maputo, capaz de fazer por Moçambique o que Cesária Évora fez por Cabo Verde ou, já fora da reserva natural (às vezes jardim zoológico) da world music, o que J Balvin está a fazer pela Colômbia.

Nada de muito empolgante aconteceu desde que em 1991 os Ghorwane foram gravar o histórico Majurugenta aos estúdios da Real World de Peter Gabriel ou desde que em 2006 (cinco anos antes do fado, portanto) a timbila chegou à lista do Património Imaterial da Humanidade. E, pelo menos por enquanto, o Africa Express de Damon Albarn – o vocalista dos Blur e agitador das músicas do mundo que já amplificou o alcance de inúmeros artistas com o seu projecto pan-africano – ainda não parou nesta estação algo periférica junto ao Oceano Índico.

Lenna Mahule Chris Photos

Nada indica que a música moçambicana esteja finalmente em condições de roubar o palco e conseguir a atenção internacional a que provavelmente tem direito e lhe vem sendo negada – mas, para “samplar” outro refrão muito do século passado, o dos dias da independência, a luta continua. Ou, o que talvez seja ainda mais exacto, a luta está agora verdadeiramente a começar.

Não apenas pelo esforço individual de artistas como Lenna Bahule, que se diz pronta para “pegar na terra, nas raízes”, ao fim de sete anos de pesquisa musical e identitária em São Paulo, no Brasil, onde aterrou sem sequer ter uma ideia de como começar e deu por si a acudir, qual pronto-socorro, à sofreguidão dos afro-brasileiros por narrativas de negritude como a sua; mas também pelo esforço colectivo de plataformas como a Maningue Productions, que apesar da “crise descomunal” que o país atravessa não quis deixar de realizar a segunda edição do MMM, ainda que com um ano de atraso.

Quando o MMM 2019 chegar ao fim, esta noite, com uma última sequência de showcases no Parque dos Continuadores, em Maputo, terão passado pelos três palcos deste festival 18 projectos, 12 dos quais de ou com moçambicanos. Embora o MMM não possa nem queira circunscrever-se ao exíguo mercado interno e ambicione posicionar-se “a médio-longo prazo” como o evento de referência para toda a África Austral, o foco é assumidamente dar o empurrão definitivo à internacionalização da música moçambicana, explica ao PÚBLICO o músico e produtor Luís Moreira, que com o também músico e produtor Joni Schwalbach fundou a Maningue em 2016.

Um ano depois, estavam a lançar, do zero, o primeiro Mozambique Music Meeting: “Foi muito difícil, mas lá conseguimos angariar patrocinadores e parceiros e convencer os promotores internacionais com quem nos cruzamos em plataformas semelhantes por todo o mundo de que valia a pena virem a Moçambique.” Até porque não apareceu ainda, no extremo sul do continente africano, nenhum outro encontro com esta ambição agregadora: “Por incrível que pareça, não há nada do género na África do Sul. O evento mais próximo, mas noutra zona de influência, é o IOMMA [Indian Ocean Music Market], na Reunião”, diz Luís, assinalando o espaço vago que o MMM pode ocupar.

A segunda edição do MMM, que devia ter acontecido há um ano, foi sendo adiada “por falta de fundos”. Chegou agora não porque eles tenham aparecido por milagre (os 2,2 mil milhões de euros de dívida oculta da governação Armando Guebuza agravaram tragicamente a situação financeira do país e entretanto o ciclone Idai devastou uma região crucial para a economia moçambicana), mas porque se não se realizasse “o evento morria”. E seria um desperdício, defendem os organizadores, lembrando “os resultados absolutamente espectaculares” do primeiro encontro, do qual cinco projectos nacionais (Timbila Muzimba, Wazimbu, Grandmah, Assa Matusse e Napalma) saíram com contratos para concertos na Europa e na América do Norte. 

Da timbila ao jazz

Cheny Wa Gune estava no MMM há dois anos e volta a estar no MMM agora – actua às 19h, entre Dino Miranda e os Maputo Electrónico, na jornada de encerramento deste domingo. Timbileiro como todos os homens da família, originária da província de Inhambane, onde o povo chopi desenvolveu há não se sabe quantos séculos aquela que é considerada a mais sofisticada forma de composição encontrada entre as civilizações pré-escrita, não teve de se fazer músico: praticamente nasceu músico, diz-nos. Ao contrário das gerações anteriores, porém, não aprendeu a tradição ancestral da timbila apenas pela via habitual da transmissão familiar: através do tio, que no pós-independência esteve na fundação da Companhia Nacional de Canto e Dança, passou pela escola Novos Reis e depois pela Organização Continuadores de Moçambique e acabou por criar, em 1996, com outros jovens músicos, a orquestra Timbila Muzimba, talvez uma das mais internacionalizadas formações do país.

Os Timbila Muzimba saíram da primeira edição do MMM com concertos para cinco países europeus, Portugal incluído dr

Entre as aulas de timbila e percussão que dá numa escola privada, o fabrico de instrumentos e os concertos com o seu quarteto, Cheny consegue viver apenas da música — mas não conseguiria viver apenas dos Timbila Muzimba, porque a dimensão da orquestra torna-a pouco portátil e onerosa para programadores interessados em fazê-la sair. “O sonho do timbileiro é ter uma orquestra, mas uma orquestra não toca em bares e eu queria levar a timbila para esses lugares. Hoje isso já é possível. Quando comecei, a música tradicional era vista como atrasada, também por efeito da colonização portuguesa, que desclassificou as formas consideradas ‘primitivas’ em favor de tudo o que era ‘moderno’; tocar esse instrumento na juventude foi, para mim, um acto de resistência cultural”, conta. 

Minutos antes, um dos delegados internacionais do MMM, Ben Mandelson — fundador da Womex, a grande central global da world music, e membro da direcção da sua editora subsidiária, a Piranha Records —, recuava aos anos 40 do século passado para situar as primeiras gravações de timbila, feitas pelo etnomusicólogo britânico Hugh Tracey entre as comunidades de migrantes moçambicanos nas minas de ouro e diamante da África do Sul, e depois às suas próprias gravações de campo em Moçambique, já nos anos 80. Foi nessas jornadas que o levaram de Maputo até Cabo Delgado, no outro extremo do país, em plena guerra civil, às vezes escoltado por guardas armados, que viu Cheny Wa Gune pela primeira vez, ainda miúdo, sentado nos joelhos do pai. “A timbila transmite-se por contágio cinético, corporal: os mais novos aprendem como se faz com as mãos pousadas nas mãos dos mais velhos enquanto eles tocam a mbira. A tradição não é ensinada, é encarnada, literalmente”, diz ao PÚBLICO, questionando o que se perde quando géneros como este, que têm um significado funcional, comunitário, ritual, são transplantados do seu contexto original para o rolo compressor das digressões internacionais.

Mas a música moçambicana não se esgota no que o padrão “lamentavelmente eurocêntrico” que o circuito da world music foi validando ao longo das últimas décadas, e que no passado permitiu à Orquestra Marrabenta Star ou Eyuphuro, bandas “retro, como diriam os franceses”, ter algum sucesso internacional. Talvez, sugere Ben, “as dinâmicas locais mais interessantes passem hoje pelo hip-hop ou pelo pandza”, que dificilmente serão vendidos no mercado global como “música moçambicana”. E no entanto, sublinha Cheny, um descendente dessa linhagem, “não é imperioso que todos os músicos moçambicanos façam música tradicional moçambicana”. Há, aponta, “excelentes músicos de jazz”. Como o saxofonista Ivan Mazuze, que encerrou com um dos raros encores do MMM o primeiro dia de concertos no mesmo palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano onde pela primeira vez se apresentou ao piano em miúdo, quando andava na Escola Nacional de Música. 

Ir e voltar

Hoje radicado na Noruega, depois de ter feito na Universidade da Cidade do Cabo, na vizinha África do Sul, o bacharelato em estudos de jazz e composição e o mestrado em etnomusicologia, Ivan inscreveu-se num doutoramento em música africana para estar em condições de processar melhor a tradição de que descende, mesmo que o seu saxofone fale uma língua totalmente internacional, resultado do cruzamento entre uma formação clássica e a escola de jazz sul-africana em que foi “beber e comer”. Esse estrangeiramento forçado (quando concluiu o ensino secundário a Universidade Eduardo Mondlane ainda não tinha criado a licenciatura em Música, que produziu os seus primeiros graduados em 2009) levou-o a querer remexer nas raízes: “Queria entender os sons que sempre ouvi na rádio, na comunidade… Estou sempre a fazer o exercício de perceber quem sou musicalmente. A música tem esse factor de identidade, é como se fosse uma língua. E mesmo uma língua pode ser falada de muitas maneiras diferentes”, diz.

O saxofonista Ivan Mazuze Chris Photos

Ser “obrigado a emigrar” levou-o ao lugar onde está agora e que é, reconhece, uma enorme vantagem competitiva. Como cidadão norueguês, evita as odisseias com vistos a que estão infelizmente habituados os músicos moçambicanos, o que é “estratégico” para a carreira internacional que tem actualmente (saiu do MMM a correr para actuar em Oslo e em Nova Iorque); em Moçambique, estaria limitado a um circuito pobre, tanto em termos de concertos como de vendas, e ver-se-ia penalizado por uma das grandes debilidades do ecossistema musical africano, a desregulação total na área dos direitos de autor – aliás um dos tópicos em discussão na quinta-feira, num painel em que José Manuel Luís (Jomalu), músico e presidente da SOMAS, a única entidade de gestão colectiva de direitos de autor no país, e Carlos Madureira, director do departamento jurídico da Sociedade Portuguesa de Autores, descreveram um panorama desolador.

Agora que voltou do Brasil, Lenna Bahule talvez tenha de lidar com esse problema, mas para já outros chamamentos a reclamam com mais urgência. Ao contrário de Ivan Mazuze, radicar-se em Moçambique é a única maneira que tem de prosseguir a exploração que iniciou no Brasil, quando a distância lhe fez reequacionar o lugar de onde vem como um poder e um privilégio – o poder e o privilégio que foram roubados aos afro-brasileiros, muitos deles descendentes de escravos que partiram de portos moçambicanos. Nos últimos anos, foi-se libertando da formação clássica, de matriz europeia, a que o pai, engenheiro de som, DJ e coleccionador de música, a expôs – da Escola Nacional de Música já quase só se recorda das aulas de makwayela, uma forma dançada de canto coral originária do Sul do Moçambique – e radicalizando uma experimentação vocal que a torna um caso singular no panorama local, a meio caminho entre as práticas tradicionais e as mil revoluções por minuto de exploradores seminais como Naná VasconcelosHermeto PascoalEgberto Gismonti e Flora Purim, em que encontrou “outras chaves de composição e performance vocal”.

Largada em São Paulo sem dinheiro, sem redes, sem contactos, “só com bilhete de ida e muita cara e coragem de 22 anos”, sobreviveu a dar aulas de canto e de jogos tradicionais “totalmente amadoras” depois de perceber que ser moçambicana era um íman para afro-brasileiros “em busca da sua negritude perdida”. “Essa prática de ensinar aquilo que para mim era tão normal, e que eu vivi como um processo de validação da minha cultura, virou uma pesquisa. Explorei a percussão corporal, descobri o conceito de música circular do Bobby McFerrin, criei uma rede de artistas. E nesse processo fui obrigada a lapidar o meu trabalho em função de uma identidade que eu não cuidava e que no Brasil de repente vi hiper-valorizada”, conta ao PÚBLICO, explicando por exemplo como descobriu que “os afro-brasileiros sacralizam os tambores” de uma forma que em Moçambique nunca tinha testemunhado. “Os tambores são o que lhes foi tirado. O nosso respeito por eles é prático, o deles é quase místico: tocar tambor é um acto de memória, diz-lhes de onde vêm. Eu, ao contrário deles, tenho aonde regressar – e concluí que está na hora.”

Tanto Ivan como Lenna, dois dos 12 artistas que o MMM quis mostrar aos quase 70 delegados internacionais desta segunda edição do encontro, precisaram de sair de Moçambique para se empoderar. Talvez o mesmo processo possa resultar para a música moçambicana como um todo. 

O PÚBLICO viajou a convite do MMM – Mozambique Music Meeting