Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Entrevista

Tiago Rodrigues: “Gostaria que o teatro português visse este prémio como seu”

O Prémio Pessoa 2019 consagra o percurso invulgarmente internacional de Tiago Rodrigues. O actual director do Teatro Nacional D. Maria II, que há anos se move com à vontade entre os mais importantes centros do circuito teatral europeu, espera que a distinção possa fortalecer a luta dos artistas, num país que não lhes tem facilitado a vida.

MIGUEL MANSO

Não foi por acaso que a notícia de que acabava de se tornar o mais recente vencedor do Prémio Pessoa apanhou Tiago Rodrigues em Londres, onde está a dirigir uma das mais prestigiadas companhias de teatro da Europa – a Royal Shakespeare Company, com a qual estreará em Agosto o espectáculo Blindness and Seeing, a partir de José Saramago. A “excepcional projecção dentro e fora do país” do mais internacional dos encenadores portugueses foi uma das razões apontadas pelo júri da 33.ª edição do prémio para distinguir, aos 42 anos, este também dramaturgo e actor que muito cedo percebeu que o teatro português era um meio demasiado acanhado para aquilo que tinha em mente, e que acabou por ser premiado lá fora (recebeu há um ano, em São Petersburgo, o Prémio Europa – Novas Realidades Teatrais) antes de ser premiado cá dentro.

Primeiro com a sua estrutura, a Mundo Perfeito, e agora a partir do Teatro Nacional D. Maria II, de que é director artístico desde 2014, Tiago Rodrigues deu ao teatro português um mundo que ele nunca tinha verdadeiramente tido. O seu próximo espectáculo para o D. Maria, Catarina e a beleza de matar fascistas, estreá-lo-á não no edifício do Rossio mas no festival Wiener Festwochen; o anterior, Sopro, estreou-o no Festival de Avignon, com a ministra da Cultura francesa, Françoise Nyssen, sentada na primeira fila. E se o júri não deixou de referir, como argumento para esta distinção, o seu “contributo notável para o desenvolvimento do campo das artes performativas portuguesas” e o “dinamismo logo reconhecido pela crítica e pelo público” que trouxe à instituição, sublinhou ainda mais enfaticamente o “ambicioso projecto de internacionalização” que Tiago Rodrigues lançou logo no seu primeiro mandato à frente da casa, entretanto renovado em 2017.

Ao PÚBLICO, numa curta entrevista por telefone, o novo Prémio Pessoa fez questão de estender a toda a comunidade do teatro português a recompensa que agora lhe foi atribuída. E de endossar a reivindicação de 1% do próximo Orçamento de Estado para a Cultura – embora ela lhe pareça curta para recuperar o atraso que o serviço público nesta área já leva em 45 anos de vida democrática.

Até agora, a lista de vencedores do Prémio Pessoa incluía apenas uma figura do teatro, Luis Miguel Cintra, uma espécie de tesouro nacional. Como é suceder-lhe?
Receber este prémio é uma grande alegria no plano pessoal, certamente, mas não se esgota aí. Vejo-o como um prémio para várias pessoas, no sentido em que recompensa um caminho acompanhado – o teatro é por definição uma forma colectiva, comunitária até. Não me teria sido possível fazer o teatro que fiz nestes 20 anos sem as pessoas que lhe deram corpo – actores, técnicos, produtores, por aí fora –, e gosto de acreditar que este prémio também lhes pertence, também os considera. Mas, para responder à pergunta, gostaria que o teatro português no seu todo sentisse agora o mesmo que eu senti em 2005 quando o Luis Miguel Cintra ganhou o Prémio Pessoa: que é uma recompensa para todos nós, um atestado da qualidade dos profissionais que fazem teatro em Portugal, apesar da inegável falta de apoios, de financiamento e de reconhecimento público. Talvez este prémio nos traga mais energia para continuar a lutar por condições realmente dignas.

O prémio chega numa altura em que o meio teatral está em luta contra a insuficiência das verbas disponíveis para o apoio às artes. A três dias de se saber que fatia do orçamento o novo Governo reservou para a Cultura, o que diria do estado da arte?
Tenho tido oportunidade, também pelo cargo que desempenho, de falar com os decisores políticos sobre o investimento que o país faz nesta área, e que está francamente aquém do necessário. O 1% do Orçamento de Estado é uma meta exequível, mas insuficiente para um país que em 45 anos de democracia não conseguiu ainda levar verdadeiramente a cabo o processo de descentralização e de implementação de um serviço público de cultura. Os muitos casos exemplares espalhados por Portugal continuam a ser a excepção que confirma a regra: há muitos teatros vazios e muitas companhias que não têm onde trabalhar. O horizonte perante o Orçamento de Estado que aí vem é de esperança, mas temos mesmo de carregar no acelerador: ficarmo-nos pelo tão reivindicado 1% seria meter a segunda velocidade num automóvel que precisa de engatar a sexta para podermos recuperar o nosso atraso crónico. É mais do que altura de, pela primeira vez, entendermos a Cultura como desígnio nacional e prioridade política.

O próximo ensaio com a Royal Shakespeare Company vai ser diferente, depois deste prémio?
Na verdade, encerrámos esta manhã o primeiro período de trabalho em Londres. Só retomaremos os ensaios em Junho, já em Stratford-upon-Avon. Mas acabámos com a enorme alegria desta notícia, depois de uma jornada dedicada a digerir a maravilhosa leitura que ontem, dia de eleições no Reino Unido, fizemos do Ensaio sobre a Lucidez, e em particular desse massivo voto em branco que lá é descrito: ver os actores a receberem aquele texto como se o Saramago o tivesse escrito para eles em 2004 foi um lembrete fortíssimo do poder profético da literatura. Quanto ao impacto que o prémio terá em mim, ainda é cedo para o avaliar, mas posso dizer, a partir da pouca experiência que tenho de reconhecimento público mais alargado, que ele funcionará sobretudo como um grande estímulo para continuar – não no sentido de jogar pelo seguro e gerir uma reputação, mas no sentido de preservar a liberdade artística e a margem de risco, de partir para cada espectáculo como se fosse o primeiro que faço na vida. Também falámos disso esta manhã, da importância de partir para cada nova criação à procura do que ainda não sabemos fazer, porque é daí que vêm as descobertas. Acredito, como espectador e como cidadão, que o teatro serve para nos propor o que ainda não sabíamos que podia ser dito ou feito de determinada maneira.

Este prémio chega numa altura em que está a encenar a Royal Shakespeare Company e um ano depois do Prémio Europa de Teatro – Realidades Teatrais. O Pessoa ter-lhe-ia sido entregue sem todo esse reconhecimento internacional?
Tenho consciência de que há um reconhecimento nacional que acontece por contágio: este português é reconhecido internacionalmente, deixa lá ver o que é que ele vale. Mas o meu reconhecimento internacional resulta do facto de eu trabalhar muito internacionalmente, e de ter percebido muito cedo que o meu percurso não se faria exclusivamente em Portugal – por muito português e muito informado pela História portuguesa que eu seja. Como director artístico do D. Maria, tenho trabalhado para que esse reconhecimento não me beneficie apenas a mim – e é especialmente saboroso que o Prémio Pessoa me tenha chegado num momento em que, através do D. Maria, outras artistas portuguesas, a Mónica Calle e a Raquel André, estão a apresentar-se em Montpellier no que eu espero que seja apenas o início de um caminho internacional inteiramente merecido. Desse ponto de vista, sinto-me muito bem a trabalhar no D. Maria: é uma casa pública onde se faz serviço público; ali o meu trabalho ganha uma dimensão de missão. Dessa missão faz parte dar condições aos artistas para que eles possam desenvolver o seu trabalho com liberdade artística, ou seja, num quadro que não seja o desta precariedade a que infelizmente estão habituados. Há tremendos jovens artistas de teatro em Portugal; se o país lhes der condições para trabalhar, daqui a alguns anos eles poderão estar a receber o Pessoa também.

Tem mais um ano de mandato à frente do D. Maria. E a seguir, fica ou sai?
O meu compromisso com o D. Maria é, neste momento, radical e absoluto: é um dos projectos mais exigentes e mais apaixonantes que já vivi, cujos resultados se devem muito a uma equipa que faz muito mais, em muitos momentos, do que devia. Seria bom que a decisão política sobre o futuro não tardasse muito – em Portugal, as instituições costumam saber tarde e a más horas o que lhes está reservado, e isso cria instabilidade nas equipas. Se a decisão política for nomear uma nova equipa, gostaria, por razões de equidade e de justiça, que fosse uma mulher; se a opção for a minha continuidade, obviamente estou disponível para estudar e discutir o futuro da casa com a ambição que ela merece.