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Tiago Rodrigues, o fazedor

Aos poucos, entre êxitos e acidentes de percurso, com um ou outro desastre pelo meio, o novo Prémio Pessoa tornou-se, por direito, um figurão do teatro português: alguém que pensa e faz, entendendo os outros como base da dimensão social e política do seu trabalho.

Tiago Rodrigues estreou-se como director do Teatro Nacional D. Maria com a encenação da trilogia composta pelas tragédias gregas Ifgigénia, Agamémnon e Electra Miguel Manso

Recuemos um pouco, até 2014, para recordar como o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) era, então e já há décadas, ressalvados alguns períodos excepcionais, uma casa vetusta, que, escorada na aura institucional da sua “missão” e em muitas más escolhas de dirigentes e reportório, mantinha a sala do Rossio na rotina teatral medíocre de uma programação geralmente desorientada. Agora avancemos um ano, aquele em que Tiago Rodrigues assumiu a direcção, para verificar como, apenas alguns meses após a sua nomeação, o D. Maria era finalmente um organismo vivo.

Uma casa de teatro foi o que o agora anunciado Prémio Pessoa fez do TNDMII. Um lugar dinâmico, aberto para a rua, mais, para a comunidade, capaz de compreender o seu tempo e, na medida do possível, de intervir sobre ele. A “missão do teatro nacional e as ideias fundamentais que em 1846 foram subscritas pelo Garrett parecem tão urgentes hoje como na época, interpretadas de outra maneira, ou seja, traduzimos com a língua do nosso tempo e com o olhar do nosso tempo uma urgência que é comum”, dizia há um ano em entrevista ao PÚBLICO.

Ora, foi precisamente a compreensão da urgência desta era, uma outra maneira de ver e, principalmente, de fazer que lhe permitiram trazer a sala do Rossio até ao século XXI. O que, aliás, teve efeitos quase imediatos numa sucessão de produções que marcaram, entre alguma controvérsia e boa dose de má-língua, a assunção de uma nova postura estética, trazendo nesse processo para a instituição uma nova geração de espectadores sem, a bem dizer, alienar os habituais frequentadores; e ainda colocando produções do Nacional em palcos com a importância do Festival de Avignon ou do Teatro da Bastilha, em Paris. Daí a estar agora em Stratford-upon-Avon, a convite da Royal Shakespeare Company, iniciando o trabalho de encenação de Blindness and Seeing, a partir dos romances Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, não foi um pulo, mas sim a consequência de um percurso.

Quem tem boa memória talvez se recorde dele nos Artistas Unidos. Há mais de duas décadas, ainda não tinha 21 anos, que foi a idade em que achou mais estimulante trocar as aulas da escola de teatro pela colaboração com a companhia belga tg STAN, com quem andou, correndo mundo, até 1998. Este foi um passo. Outro foi o Mundo Perfeito, estrutura criada com Magda Bizarro, em 2003. Aí, o dramaturgo, actor, encenador e produtor mostrou a sua diferença, quase sempre cruzando disciplinas, sabotando métodos, desafiando os espectadores a conhecerem a visão de uma geração traduzida em mais de 30 espectáculos, levando a viajar pela Europa e pelo Brasil e pelos Estados Unidos novas visões de Shakespeare e Strindberg, ou o olhar de gente como José Maria Vieira Mendes e Jacinto Lucas Pires. Foi nessa época que nasceram Se uma Janela se Abrisse, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas e a brilhante autópsia do salazarismo Três Dedos Abaixo do Joelho. É também nessa época racionalmente febril que vai evoluindo criativamente, aproveitando o que lhe interessava do trabalho de artistas como o coreógrafo Rui Horta, ou os realizadores João Canijo, Marco Martins e Tiago Guedes.

Assim, aos poucos, entre êxitos e acidentes de percurso, com um ou outro desastre pelo meio, perseverando, insistindo no método de tentativa e erro e tentativa outra vez, Tiago Rodrigues tornou-se, por direito, um figurão do teatro português. Como se costuma dizer mais formalmente: uma figura incontornável. Melhor: alguém que pensa e faz, entendendo os outros como base da dimensão social e política do seu trabalho; alguém que diz, como o disse na já citada entrevista ao PÚBLICO, que “o acesso às artes é uma coisa que deve acontecer, sobretudo, nos dias úteis": “Não faz mal que aconteça também aos domingos e aos feriados e nas grandes festas. Deve fazer parte, mas deve fazer parte do quotidiano de toda a gente.”