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Crónica

Os super-heróis da crítica

Mal começou a discussão, no espaço público mediático, sobre o racismo em Portugal e logo o debate se tornou circular: de um lado e de outro reduzem-se os intervenientes e as questões a meras caricaturas. As respostas, as reacções e os contra-argumentos criam uma carapaça onde se alojam identidades crispadas, centrípetas e cheias de certezas, transformando tudo em armas de arremesso. Rapidamente se chegou ao momento em que os presumidos racistas e anti-racistas entram no jogo da reversibilidade: são racistas os anti-racistas e são anti-racistas os racistas. Esta lógica da discussão, que é uma máquina enlouquecida, um delírio da dialéctica, está generalizada, afecta toda a discussão política (a retórica parlamentar vive neste estado permanente) e radicaliza-se nos temas actuais do género, das identidades e da ecologia, onde se caminha para uma discussão que é sempre uma crítica da crítica da crítica, sem fim. O que daí resulta é uma espécie de paralisia: o ambiente hipercrítico é a condição para que nada se transforme, a anestesia e o radicalismo da crítica e da indignação são as duas faces da mesma moeda.

Devemos perceber que este estado da discussão pública se deve à estrutura do espaço mediático, que sofre hoje do paradoxo da exasperação crítica: é como um prego que ficou de tal modo torto por martelarmos nele que já não serve para fixar nada. Toda a discussão se torna uma conversa que se fecha num círculo e tudo é reconduzido sempre ao mesmo sítio e às mesmas pessoas. O espaço público mediático está cheio de super-heróis e heróis negativos. Uns e outros alternam nas suas posições.

Somos herdeiros de uma idade crítica, da razão iluminista. As nossa indignações quotidianas alimentam-se de argumentações, de juízos e de teorias que cumprem de maneira exemplar, quase escolar, o programa que foi atribuído à razão pela Modernidade. Mas estamos agora em condições de perceber que há um limite a partir do qual a crítica nos torna estúpidos. É na verdade estúpida a máquina crítica da opinião mediática, embalada num movimento que a faz girar sobre si própria cada vez mais profundamente, até perder toda a efectividade na relação com o seu exterior e se tornar completamente inócua. Há um mercado da crítica, das emoções e das indignações bastante concorrido. A que se deve, por exemplo, o sucesso de um programa televisivo e radiofónico como o Governo Sombra? Deve-se ao facto de assumir como entretenimento o que muitos outros assumem com gravidade crítica, tornando visível um curto-circuito bastante cruel. As colunas diárias e semanais de seriíssima análise política, impregnadas de hipercrítica, estão fatalmente atraídas pelo espaço do entretenimento. Não é que o entretenimento não seja legítimo e necessário. Mas na condição de não vir com a máscara do seu contrário.

Neste mercado da crítica e das indignações, nem tudo é legítimo e nem tudo é inócuo. Por exemplo, uma discussão pública como a que a escultura de Pedro Cabrita Reis, na Leça da Palmeira, suscitou é muito nefasta — e ilegítima — nos termos em que se desenvolveu porque submete à lógica da opinião e da decisão democráticas (“nós, cidadãos e contribuintes, sujeitos politicamente representáveis e representados, declaramos que não é arte o que se apresenta neste espaço público como arte”) o que não pode fazer parte dela, mesmo quando se trata de “arte pública”. Isto não significa que aceitemos acriticamente tal escultura (no que me diz respeito, só a conheço de fotografias, o que significa que quase não a vi), mas não devemos fazê-lo a partir de critérios estéticos, políticos e sociais a que ela não pode nem deve responder, sob pena de estarmos a defender que as encomendas públicas aos artistas passem pelo filtro dos consensos e dos cálculos políticos e sociais, ou pela máquina da cultura liberta de atritos. Há um populismo cultural que não é menos perigoso que o populismo político. Em Dezembro de 2014, o artista americano Paul McCarthy, no acto da inauguração de uma árvore de Natal (muito pouco natalícia, envolvida em polémica), de 24 metros de altura, na Praça de Vendôme, em Paris, foi interpelado por um parisiense que se aproximou e lhe perguntou. “Are you the artist?”. Mal respondeu que sim, levou um soco. Esta é uma história que se repete.