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Entrevista

Simpósio Resistências: “Para muita gente hoje é difícil simplesmente sobreviver”, diz Juan Branco

Cinco filmes de corpos que resistem: Joker, os novos de Ken Loach e Costa-Gavras, a sessão especial de Marighella e Fome, de Steve McQueen. O ciclo do Leffest completa-se com debates com convidados dos Coletes Amarelos de França ou do Extinction Rebellion do mundo, sindicalistas e activistas. A curadoria é de Juan Branco e a entrada é radicalmente livre.

Juan Branco tem 30 anos com vista para um mundo que as lentes da justiça social revelam ser desigual. É assim que o advogado e conselheiro do Wikileaks e de Julian Assange, membro destacado dos Coletes Amarelos, propõe que a partir desta sexta-feira se veja cinema e se fale sobre o que está dentro e fora da sala escura: é o curador do simpósio Resistências, que emparelha em Lisboa e em Sintra, no âmbito do 13.º Lisbon & Sintra Film Festival (Leffest), filmes como Joker, Fome ou Marighella e debates com nomes como Guilherme Serôdio (Extinction Rebellion), Francisco São Bento (Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas), Richard Stallman (software livre) e activistas como Yvane Goua e Minna Salami e filósofos políticos como Mehdi Belhaj Kacem. Yanis Varoufakis fazia parte do programa, mas cancelou a sua visita na quinta-feira.

Resistências tem entrada livre, ponto de honra para a organização do festival do produtor e exibidor Paulo Branco e para o simpósio curadorado pelo seu filho, o académico e jornalista cujo percurso inclui ainda trabalho no Tribunal Penal Internacional ou os livros Crépuscule e Contre Macron.

Tudo começa esta sexta-feira às 15h no Nimas, em Lisboa, com Fome e debate, e continua sábado entre o Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e a Universidade Lusófona, para terminar domingo no Teatro Tivoli, em Lisboa, com mais debates e duas palestras – incluindo uma vídeo-entrevista do dissidente chinês Chen Guangcheng – e encerrando com Marighella e uma conversa com o realizador Wagner Moura e o argumentista Felipe Braga em torno do filme que o Brasil de Bolsonaro ainda não deixou estrear-se.

Porquê aliar o simpósio a estes filmes, e num festival como o Leffest?
A primeira dimensão é o interesse do público em ter acesso directo às lutas que hoje são acompanhadas através dos jornalistas, dos media, de uma intermediação. Hoje os media têm cada vez menos capacidade financeira para cobrir a actualidade no estrangeiro e, paradoxalmente, estamos a ficar cada vez mais ignorantes quanto ao que se passa no mundo. A alternativa eventual para ter acesso às realidades que ficam distantes de nós é a ficção e a criação artística, uma forma de intermediação que permite compreender através de uma história inventada uma realidade da qual não se pode falar directamente.

Fome de Steve McQueen: "o corpo é o limite de todo o tipo de sentimento. Tudo vai dar ao corpo e a capacidade de resistência acaba sempre no corpo, na capacidade do corpo de suportar"

Achamos importante confrontar perspectivas artísticas e reais, de gente que tem tentado mudar o mundo. Era importante ver como os criadores olham para os resistentes e ver como os resistentes vêem os criadores. Pode ser muito favorável para os criadores descobrir ou reconhecer corpos que foram expostos a uma violência política muito importante e à qual resistiram por ideais. Só trazemos aqui gente que resistiu de forma legítima e pacífica.

Só se vai falar de formas de resistência não-violenta?
A questão da violência é muito interessante. O grande autor de literatura francesa Jean Genet dizia: não há nada mais violento do que uma rosa que nasce, porque a ruptura que provoca no ecossistema, o esforço que tem de fazer para nascer, rompe com o mundo e evidentemente com a planta. Não há uma [só] definição de violência. Podemos ver imagens de uma manifestação e ter a impressão que os manifestantes são violentos, mas o que se está a passar é que estão a tentar proteger-se de uma violência de Estado mais importante. Tivemos muita precaução na escolha dos convidados e dos filmes que vamos mostrar para não fazer nenhum tipo de apologia do niilismo, que muitas vezes ameaça a política.

Queremos falar disso, e em particular da noção e do risco que podem representar pessoas que têm ideais muito justos e importantes mas que podem começar a encontrar prazer no confronto com um aparelho político, ou outro, e entrar nesse niilismo. O filme que exemplifica melhor isso é Joker.

Temos aqui pessoas muito puras, para nós. Encontraram formas muito criativas de resistir e que podem criar grandes dificuldades aos aparelhos com que se confrontam. Essa é a via que queremos promover, a inteligência colectiva que faça com que não se produza no final nenhum tipo de violência. Sobretudo gente que só tem como objectivo reduzir o nível de violência nas sociedades. Dou sempre o mesmo exemplo: em França todos os anos há 15 mil mortes, pessoas que morrem antes do tempo por culpa dos efeitos do desemprego. É uma violência. Mas é uma violência invisível, não é imediata. O que fazer para que o sistema seja menos violento, sem nós provocarmos a violência? É isso a resistência. A resistência é proteger-se de algo, não é agredir.

Joker pôs o dedo numa qualquer ferida social – as pessoas parecem quase intimadas a reagir-lhe. Como associa os outros filmes que escolheu ao tema de resistência?
Nos filmes escolhidos, [vemos] como a criação raciocina sobre a questão da violência. Fome, de Steve McQueen, mostra uma forma de violência muito importante – pessoas presas na Irlanda [do Norte] que decidiram deixar de comer para defender os seus ideais. Como se decidiu deixar morrer essa gente, a demonstração da violência sobre esses corpos resistentes.

Joker "o risco que podem representar pessoas que têm ideais muito justos e importantes mas que podem começar a encontrar prazer no confronto com um aparelho político, ou outro, e entrar nesse niilismo"

A escolha é mostrar a violência da política com [Comportem-se como adultos, de] Costa-Gavras [baseado no livro de Varoufakis sobre os bastidores da renegociação da dívida grega na UE], mostrar o risco de uma violência niilista com Joker e, com os dois outros filmes [Passámos por Cá, de Ken Loach e Marighella, de Wagner Moura], mostrar a capacidade da sociedade sobreviver a uma superestrutura violenta que às vezes se esquece, ou não é evidente.

Foi muito importante para nós que [o simpósio] seja entrada livre, com esforço, porque temos de trazer gente de todo o mundo com poucos apoios, porque não admitíamos que uma condição económica fosse retirar a possibilidade a um cidadão português de aceder [ao ciclo].

Quando da estreia do filme de Ken Loach em Inglaterra houve críticas ao preço dos bilhetes, por não permitir às pessoas que o filme retrata, uma família da nova “gig economy”, que vive de biscates, aceder ao filme.
Evidentemente. Em Inglaterra é um escândalo. Estamos mesmo a lutar contra isso. A ideia não é construir uma elite da resistência em que todos ficam muito satisfeitos e confortáveis, é também misturarmo-nos ao máximo com a gente que resiste ao quotidiano neste país, o que também é uma forma e heroísmo. Para muita gente hoje em dia é difícil simplesmente sobreviver.

Nessa dimensão somos o oposto da Web Summit, onde falei no palco principal. Os únicos portugueses com quem me cruzava era gente que estava a servir. Era uma reprodução incrível do espaço colonial. Queremos romper com isso e mostrar que Portugal é capaz de ser o centro do mundo, mas com dignidade. Nunca é suficiente, sabemos muito bem que há barreiras que não são só económicas para gente mais frágil e vulnerável aceder a este tipo de eventos, mas fazemos o que podemos.

Num espaço tão elegante quanto o Tivoli, em Lisboa, ou em Sintra, haverá um espaço de acolhimento para perceberem que há gente que está a pensar com eles, ao lado deles, para melhorar a situação deles.

Sorry we missed you Quando da estreia da honra de Ken Loach em Inglaterra houve críticas ao preço dos bilhetes, por não permitir às pessoas que o filme retrata, uma família da nova gig economy, que vive de biscates, aceder ao filme

Na apresentação do programa fala de como a palavra resistência tem um “tremor, característico dos radicais”. Hoje, há um uso pejorativo do radical – feminismo radical, ambientalismo radical, esquerda radical –, o que pode ser uma outra forma de controlo, pelas palavras. Ao trazer este simpósio a par de um ciclo de filmes pensou na cultura também como algo radical?
Sim. E a cultura permite também compreender melhor o seu sentido… a prioridade da criação é inventar uma linguagem ou permitir voltar a uma linguagem significativa. A radicalidade, no sentido etimológico do termo, é a raiz. E é só isso, estamos a falar de uma rosa que nasce de uma raiz. As pessoas que estão a resistir hoje em dia estão a tentar criar raízes para permitir à rosa nascer mais tarde. A radicalidade só pode entender-se, para mim, nesse sentido. Para permitir o nascimento de novas formas de pensar, de relacionar-se, de amar, é preciso romper com os moldes existentes e os criadores são os que o fazem da forma mais bela possível porque nunca atingem ninguém. É uma criação que nunca pode destruir. Para nós esse é o modelo perfeito. Como se pode criar beleza no mundo sem retirar nada dela. A gente mais radical que encontrei na minha vida era sempre a gente mais tranquila.

Marighella, o filme de Wagner Moura sobre o político e guerrilheiro comunista na ditadura militar brasileira, é um filme que até agora não conseguiu estrear-se no Brasil. Como classificaria o sistema que dá origem a um cenário em que fazer um filme sobre um facto histórico, uma biografia histórica, pode ser um acto de resistência?
Resistir à tentação do poder de destruir qualquer forma – e vou fazer um neologismo — de “des-legendagem” da realidade é a única forma de radicalidade que tem valor. Em França, o grande jornalista Albert Londres dizia que o papel do jornalista é pôr sal onde ficou aberta uma ferida. O acto do criador frente ao poder deve sempre ter esse efeito. E de acompanhar os dissidentes e as pessoas, isoladas nas suas lutas, que tentam sobreviver. Nunca haverá um sistema político perfeito e haverá sempre vítimas de sistemas políticos e ficar sempre desse lado, resistir ao prazer de se deixar absorver por um aparelho de poder que pode trazer vantagens, é a melhor forma de actuar.

Estes filmes questionam também o lugar da complacência. Tendo em conta as muitas formas e causas actuais de resistência, qual é o filme da resistência deste século XXI?
É por isso que o filme de McQueen é muito importante, porque a questão não é saber o que se passava na Irlanda. As sociedades deram importância ao sentimento da dignidade porque sabem que se não houver protecção da dignidade isso provoca um pico de violência. Tudo isso vai dar, no fim de contas, à questão do corpo. O corpo é o limite de todo o tipo de sentimento. Tudo vai dar ao corpo e a capacidade de resistência acaba sempre no corpo, na capacidade do corpo de suportar. Esse filme concentra-se no efeito da política sobre corpos que decidiram resistir e talvez seja o mais significativo porque permite reunir todas as outras lutas.

Hoje em dia, a Extinction Rebellion (ER) tenta isso, expor corpos à operação política para mostrar até que ponto os políticos não querem mover-se e a que ponto é que a legítima luta que estão a levar a cabo não é defendida pelo aparelho político - pelo contrário, é reprimida pelas suas mãos e braços armados e da justiça.

É interessante que em movimentos tão pacíficos e não-violentos como a ER um dos elementos centrais continua a ser um corpo, e a capacidade de o corpo resistir ao facto de ser posto na prisão. Um dos princípios do ER é disponibilizar-se à violência do Estado e aceitar essa violência para mostrar o absurdo. Mesmo os movimentos não violentos, de Gandhi a Martin Luther King, eram sempre um passo que respondia à violência do outro.

Em Fome é o que se vê mais – um corpo que não faz nada senão aceitar a violência, deixar de proteger-se, de comer e assim mostrando as consequências. E essa radicalidade não passa por exercer violência sobre ninguém à parte de aceitar a violência. Para mim é uma lição muito importante.

Notícia actualizada às 8h31 de 15 de Novembro: acrescenta-se informação sobre saída de Yanis Varoufakis do programa.