Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Crítica

Roma de Ferrara

Há casos na cinematografia de Abel Ferrara em que o cinema, obrigado a recuar, o espaço vital reduzido ao mínimo, estrebucha, em risco de não conseguir deixar vestígios, lutando para não se apagar. Tommaso é desta estirpe; sobrevivente.

Cinema Tommaso

Tommaso: Willem Dafoe como um "substituto" de Ferrara, e com a filha do realizador, Anna

Tem de haver mais do que a simples oposição entre crack e orechiette quando ao junkie de ontem, o Abel Ferrara de Nova Iorque, se opõe o Abel Ferrara de hoje, o sóbrio, de álcool e drogas, que vive na Piazza Vittorio de Roma —­ tem de haver mais do que a conclusão de que sem as adicções se perdeu um cineasta. A sinalização dessas perdas denotará sobretudo uma melancolia por um tempo desaparecido. Desde logo para o espectador: os tempos em que os caminhos do porno (e arredores) e os da autoria iam dar à mesma sala de transgressões — em Lisboa, por exemplo, havia o Xénon. Mas Ferrara, no documentário The Projeccionist (2019), mostrou igualmente saudades desses tempos fluidos em que o underground conseguia honras de visibilidade sem limpar os sabores da decadência.

Um retrato decomposto, simultaneamente vislumbre e caricatura do que tinha sido e do que é, aconteceu com a exibição de Welcome to New York à margem da selecção oficial de Cannes 2014 numa tenda de praia. Pressões sobre os organizadores do festival por parte da equipa jurídica de Dominique Strauss-Kahn, que inspirara a personagem de Gérard Depardieu, tinham forçado esta sessão e conferência de imprensa em barraca de praia que não era à prova da cacofonia exterior. Esta clandestinidade povoada teve o sabor de um fantasma dos anos 70 e 80.

O cineasta italo-americano natural do Bronx tinha sido o primeiro a perceber que uma forma de (fazer) cinema entrara em refluxo (no lívido King of New York vê-se, hoje, nitidamente isso) quando deixou a sua cidade a seguir ao 11 de Setembro de 2001. Refugiou-se em Roma, cidade que também era “sua” por causa do cinema de Pasolini, Fellini ou Rossellini... Procurou refúgio de si próprio, das adicções...

Ficamos certamente com mais do que a oposição entre underground e aburguesamento. Porque Tommaso, Grande Prémio do júri na edição 2019 do LEFFEST, faz-se com matéria antiga. Que emerge, de forma mais “limpa”, talvez, mas não com menos angústia: o casal, o lugar onde começamos a fazer mal uns aos outros; uma masculinidade aflita, com resíduos tóxicos e a estrebuchar de medo. Tommaso é como um regresso ao início —­ ou é a busca de novo início: Nova Iorque em Roma...

Somos assaltados pelas imagens do paranóico (e junkie) Ferrara de The Driller Killer (1979), um dos seus delírios iniciais, em que o mundo e as contas a pagar invadiam a casa de um pintor. As interacções entre o interior e o exterior, a rua, iam sendo deformadas, extremadas pelas  projecções mentais de uma paranóia. É o que se passa também, e com o mesmo tipo de comunicação entre a casa e a rua, em Tommaso. Willem Dafoe é uma espécie de irmão do pintor daquele filme mais antigo de Ferrara, para além de pertencer mais genericamente à família dos homens que uivam de dor, porque se sabem criaturas em vias extinção, que é a espécie de Polícia sem Lei (Harvey Keitel), King of New York (Christopher Walken) ou Welcome to New York (Gerard Depardieu).

Tommaso é um home movie fantasiado a meias com Dafoe. Que como intérprete de Ferrara tem sido um cúmplice na criação. Aqui contribui com a vocação crística da sua filmografia e volta a fazer-se crucificar, agora na Stazione Termini de Roma, como se fosse um excerto de A Última Tentação de Cristo, de Scorsese.

Interpreta um realizador a braços com a sua crise: sente-se excluído das interacções entre a mulher e a filha, que no ecrã são interpretados por Cristina Chiriac e Anna Ferrari, e que na vida real são a companheira e a filha de Abel; é assaltado pelos seus demónios e antigas adições. Tudo se passa na casa de Ferrara perto da Piazza Vittorio... praça a que Ferrara dedicou um documentário (2017), como se fizesse reconhecimento de um território, e que agora, tendo tomado posse dele, é uma paisagem física e humana vandalizada, deformada (altera-se, por exemplo, a relação com os imigrantes que habitam na rua...). Roma é um ecrã onde se projectam pesadelos, o pânico. O filme alberga invasões e “presenças”, Ferrara é daqueles cineastas que se deixa interceptar por essa coisa que, por facilidade, dizemos ser “o mal”.

Há momentos na sua obra em que os filmes parecem alinhar com o cânone. Definem-no formalmente no ecrã, embora tragam em si, até pelas personagens exauridas, o sentimento de que está tudo perdido: King of New York (1990, Christopher Walken a pedir mais tempo para ter um gesto bom), O Funeral (1996, o mais próximo que Ferrara chegou da saga à Coppola), o maravilhoso, e talvez o mais comovente filme de Ferrara, R-Xmas (2001, filme de Natal como Do Céu Caiu uma Estrela) ou Go Go Tales (2007, filmado nos estúdios da Cineccità, o que não sendo isso um género cinematográfico, é todo um género de fantasia).

Mas há outros casos na cinematografia do cineasta, que se desenvolve por fluxos e refluxos, highs e lows, em que o cinema foi obrigado a recuar, o seu espaço vital reduzido ao mínimo, e estrebucha, em risco de não conseguir deixar vestígios, lutando para não se apagar (The Blackout, 1997, New Rose Hotel, 1998...). Tommaso é desta estirpe; sobrevivente.