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Crítica

Os que perderam as graças do mar

A eclosão de uma cineasta, o desabrochar do seu lirismo: Mati Diop e Atlantique.

Cinema Atlantique

Mati Diop, 36 anos, filha de uma francesa e de um senegalês, teve este ano a sua primeira vez no concurso de Cannes. Um festival criticado por seleccionar os suspeitos do costume celebrou em 2019 várias estreias e a de Mati, escrevia o Libération em Maio, era a de uma “primeira realizadora mestiça na competição” — “feito” que a cineasta, ocasionalmente actriz (35 Shots of Rum, de Claire Denis, Simon Killer, de Antonio Campos), diz receber com sentimentos contraditórios.

Atlantique, que ganharia o Grand Prix (Les Misérables, de Ladj Ly, outra estreia, receberia o Prémio do Júri —  é dos títulos mais falados em França, acaba de chegar às salas francesas), está hoje disponível, após exibição no LEFFEST, na plataforma Netflix, que agarrou nele a seguir ao palmarés de Cannes. E Mati por estes dias promove-o para os Óscares.

É a exemplar narrativa de visibilidade e de eclosão de uma cineasta que com o seu trabalho, várias curtas e esta longa, rompe o casulo “demasiado branco” em que diz ter sido educada, contribuindo para os ecrãs com os rostos minoritários que lhe faltaram ao longo da sua educação cinéfila. O que se testemunha, e é bela esta aparente contradição, é o épanouissement de uma cineasta, o desabrochar do seu lirismo, para além da sua consciência e activismo, através de uma tragédia: a história dos jovens que, ouvindo o apelo do mar, partiram de Dakar para chegar à costa espanhola e encontrar outra vida (“Barcelone ou la mort” gritavam as paredes de Dakar...) mas que desapareceram na travessia.

Eis o labor de uma curta anterior da realizadora, Atlantiques (2008): restituir a palavra a quem passou pela emigração clandestina e sobreviveu, resgatando o testemunho à normalização mediática. Com a ficção Atlantique Mati alarga o foco a quem ficou em terra com a vida suspensa por ter perdido os seus no mar. É como a versão feminina dos testemunhos masculinos da curta (num filme em que a equipa foi constituída maioritariamente por mulheres, também estreantes — dirá Mati: um filme faz também as suas escolhas na forma como se fabrica).

Mas notabiliza Atlantique mais do que a mudança de foco: história de um encontro amoroso, o de Ada e Souleiman, engolido pelas águas com o desaparecimento dele, é um filme que nasce do mar e da noite de Dakar, das intermitências de realidade e sonho, da forma como nele tudo se espraia, invade e é invadido. Nos relatos que Mati fez da estreia em Dakar, no Verão, os espectadores estavam a ver um filme que falava do seu quotidiano, e aí não se separa o visível do invisível.

A mistura, a mestiçagem, ocupa e consome o filme e os corpos. A primeira sequência de Atlantique, esplêndida, esplêndida, fala toda ela dessa entrega. Mati disse numa entrevista que um dos testemunhos que não esqueceu foi o de alguém que lhe confessou que se se decide partir então é porque já se entregou o corpo. A abertura de Atlantique, num cenário em que o mar e a terra se ouvem como um só, em que o presente tem a forma de futuro distópico (e em que a ficção é uma forma de continuar o documentário), Souleiman e os camaradas de trabalho, sem dinheiro, sem salário, já decidiram partir. Ainda não o sabemos (saberemos depois). Mas é por isso que parecem estar já mortos estando ainda vivos.

E é como filme de zombies que Atlantique vai tomar forma, “regressando” da letargia inicial, com os espíritos dos que morreram a interceptarem os vivos (a figura de um polícia, às tantas, é utilizado como involuntário medium, o que desencadeia a sessão mediúnica nos planos de Atlantique). E com Souleiman a regressar a Ada para a impedir que se concretize o casamento a que ela fica obrigada pelos rituais sociais. Para, com o som do mar transfigurando a saudade em instigação, “matar” em Ada a figura passiva que espera. Desencadear nela a liberdade.

É essa a promessa que Atlantique deixa, é o plano final: Ada.