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Palmira, o oásis multicultural em risco nas mãos do Estado Islâmico

Uma cidade única e Património da Humanidade, e mais uma página da História, foi tomada pelos radicais. Que ameaçam agora rasgá-la. Há dois mil anos, “era um lugar de tolerância, onde pessoas de vários países e culturas podiam viver juntas. Será o mesmo sob o domínio do EI? Sabem a resposta…”

A presença do autoproclamado Estado Islâmico (EI) em Palmira é uma ameaça à “Veneza das areias”, um “local avassalador” pela sua dimensão, importância e beleza. Um oásis literal e cultural, espaço milenar de tolerância e uma entrada única no grande livro da História da humanidade. A urgência é palpável nas vozes de todos os que lembram que a sua preservação deve ser “uma batalha de todo o mundo”.

A hipérbole é constante nas descrições da cidade-oásis cujo património está agora nas mãos dos guerrilheiros que deixaram uma rota de destruição no Iraque (o museu de Mossul, partes das cidades ancestrais de Nimrud e Hatra, vestígios assírios em Nínive) e que agora ameaçam o antigo entreposto comercial na Síria.

Tal como na quarta-feira os guerrilheiros assomaram a Palmira erguendo as suas bandeiras negras, gerando a fuga do Exército de Assad e dos habitantes que conseguiram escapar, durante milénios vários povos entraram na zona em busca de descanso, dinheiro e do outro – o comerciante de distantes paragens, o mercador do Eufrates, o soldado romano.

A chegada a Palmira tem sido descrita nos últimos dias como uma experiência sensorial especial, desde os viajantes do século XVII e XVIII, quando da sua redescoberta e consequente influência na força do Neoclássico no Ocidente até aos arqueólogos, historiadores e arquitectos que lá confluem para a estudar. “É quase uma experiência fora-de-corpo” a um local “avassalador”, disse ao New York Times o professor Nathanael J. Andrade, autor de Syrian Identity in the Greco-Roman World, recordando a sua visita em 2010 a um dos primeiros locais classificados pela UNESCO como Património da Humanidade logo em 1980, um ano depois das pirâmides de Gizé. As imponentes colunas que se erguem no meio do deserto e o Templo de Bel são os seus cartões de visita.

A arqueóloga francesa Sylvie Blétry, que esteve em Palmira pela primeira vez em 1989 e que há apenas quatro anos trabalhou novamente na região, é emotiva na recordação desse primeiro impacto: “Chegámos depois de uma tempestade e havia um maravilhoso arco-íris sobre a cidade, como se ela nos quisesse dar as boas-vindas. Foi espantoso!” A visita ao sítio arqueológico foi toda uma experiência. “As ruínas ficam nas imediações da cidade moderna, mas ainda assim numa área de deserto e temos a impressão de um lugar selvagem e de liberdade. Os edifícios antigos são feitos de uma pedra local que se torna mais ou menos cor-de-rosa ao pôr e ao nascer do sol.” Circulava-se livremente e fez amigos, lembra, com os quais se preocupa. "...especialmente nos últimos dias. Não tenho notícias deles…”, escreve ao PÚBLICO.

Blétry foi responsável, até 2011, por uma missão arqueológica sírio-francesa em Zenobia, um sítio romano-bizantino, e trabalhou também em Palmira sobre a sua iconografia. “A principal originalidade de Palmira consiste no facto de uma cultura complexa, compósita e mista se ter desenvolvido ali devido ao comércio intenso vindo sobretudo das caravanas mas também de barcos do Eufrates e do Golfo, da Pérsia, Índia e até do Extremo Oriente, rumo ao Mediterrâneo. A influência de muitas religiões pode ser ali encontrada.” Algo que é visível na arquitectura, refere a professora no Departamento de Arqueologia da Universidade Paul Valéry em Montpellier, mas também nas mentalidades de Palmira. “Por exemplo, cada templo ‘romano’ revela elementos arquitectónicos vindos do Ocidente e também do Oriente”. Uma amálgama sem igual em qualquer outro ponto do mundo, garante, como a necrópole “totalmente original” em cujo interior há relevos típicos da região e cenas da mitologia clássica.

Ainda hoje é um ponto nevrálgico na economia e geoestratégia – recentemente “ainda era a principal estrada para Bagdad e o governo teve de construir uma estrada que evitasse o sítio [arqueológico] devido à caravana constante de camiões” que ali passava. “E todos os sírios sabem sobre a sua rainha Zenobia [240 –275], que tentou e quase conseguiu construir um império contra os romanos”, diz ainda Sylvie Blétry, frisando o orgulho sírio nessa mulher culta.

Os militantes do EI têm justificado a destruição de relíquias da Antiguidade e património arqueológico na sua esteira pelo facto de representarem a idolatria – mas o valor elevado de algumas peças não lhes escapa e as rotas do tráfico de antiguidades estarão a ser usadas pelo EI para financiamento das suas actividades. Além de a indignação da comunidade internacional perante as perdas humanas e a destruição de pedaços da História da humanidade por parte dos radicais alimentar a sua máquina de propaganda.

Algumas peças foram postas a salvo nos dias antes da chegada dos guerrilheiros. “Centenas e centenas de estátuas que estávamos preocupados que fossem destruídas e vendidas estão agora em lugares seguros. Teme-se [agora] pelo museu [onde os jihadistas entraram neste sábado, sem aparente destruição, segundo o Governo de Damasco] e pelos grandes monumentos que não podem ser movidos. É uma batalha de todo o mundo”, disse quarta-feira à Reuters Maamoun Abdulkarim, o responsável sírio pelo sector das antiguidades. Ainda assim, Jack Lang, presidente do Instituto do Mundo Árabe em Paris e ex-ministro da Cultura francês, está “paralisado de medo” pela “ocupação de Palmira pelos fanáticos” do EI – porque o “inimaginável se concretizou".  "Apropriaram-se desta obra-prima da humanidade. Esta cidade-luz que ilustra a grandeza e a beleza da civilização antiga”, escreveu em comunicado na sexta-feira.

Cidade das caravanas

Palmira é “um testemunho do feito estético único de um rico oásis de caravanas”, enfatiza a UNESCO, cuja directora, Irina Bokova, apelou quarta-feira: “É imperativo que todas as partes respeitem as obrigações internacionais para proteger o legado cultural durante os conflitos”.

Embora se saiba que existiam na região povoações já no Paleolítico e Neolítico, e a cidade surja referida nos arquivos reais do Palácio de Mari (cidade da Mesopotâmia) já no segundo milénio antes de Cristo, data de meados do século I antes de Cristo a entrada de Palmira no poderio de Roma. A meio caminho entre a costa do Mediterrâneo e o vale do rio Eufrates, viveu então mais de dois séculos de prosperidade como entreposto para as mercadorias que transitavam da Índia, Pérsia e China no âmbito do Império Romano. No ano 129, o Imperador Adriano declarou Palmira uma cidade livre, que vive “a sua idade de ouro no século II depois de Cristo”, situa ainda Marielle Pic, directora do departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre, em declarações à AFP.

Ponto estratégico do tráfego comercial com ligação à Rota da Seda, era uma cidade de caravanas onde ainda muito está por escavar e estudar. E que produziu uma cultura, expressão arquitectónica e artística única. Os edifícios eram decorados com escrita não só em latim e grego, mas também com a escrita semítica e língua local.

O eixo central e monumental da antiga cidade é uma rua com mais de um quilómetro ladeada por colunas que se cruza com outras ruas de menor dimensão e também emolduradas pelos pilares que levam aos grandes monumentos: o Templo de Bel (construído no final do período Helénico, no ano de 32), o Campo de Diocleciano, a Ágora e o Teatro e ainda bairros residenciais e templos de menor dimensão. A original colunata é um dos bilhetes-postais de Palmira: “Em cada coluna podíamos encontrar uma estátua de um dos seus habitantes famosos, com a inscrição da sua genealogia, o que é um corpo de documentação único e que não se encontra em qualquer outro local”, descreve Sylvie Blétry. O facto de se dividir em três segmentos e de não seguir a direito é também único de Palmira.

Fora das muralhas da cidade restam ainda vestígios de um aqueduto romano, descreve a UNESCO, e necrópoles “imensas” no chamado Vale dos Túmulos. Este desenho da cidade foi um dos motivos que levou à classificação do sítio – trata-se de um exemplo “excepcional” do urbanismo do Império Romano, uma cidade que foi “um dos mais importantes centros culturais do mundo antigo”, resume a agência das Nações Unidas.

Cruzamento de civilizações, na arte e arquitectura há influências greco-romanas, tradição local e persa. “Também há testemunhos arquitectónicos do início do período bizantino”, detalha Blétry. “A cidade romana”, sublinha, “é uma das mais bem preservadas em todo o Médio Oriente”. Até agora.

Para Rowan Moore, crítico de arquitectura do jornal The Guardian, a importância de Palmira só é ultrapassada pelos sítios arqueológicos romanos “na própria Roma, Pompeia e possivelmente Petra, na Jordânia”. Para o especialista, “a perda de Palmira poderia ser uma atrocidade maior do que a destruição dos Budas de Bamiyan” às mãos dos taliban em 2001. A arqueóloga Sylvie Blétry não tem dúvidas que Palmira é, entre os muitos sítios no Médio Oriente que revelam influências várias, aquele que agrega mais “culturas e sinais de uma civilização miscigenada. Era um lugar de tolerância, onde pessoas de vários países e culturas podiam viver juntas. Será o mesmo sob o domínio do EI? Sabem a resposta…”