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Opinião

O magnânimo museu da mitologia colonial

Com quatro décadas de democracia e outras tantas de descolonização, a verdade é que Portugal ainda não aprendeu a não ser um império colonial.

A escrita da história é sempre um projecto do presente. Porventura, este será também um dos seus principais paradoxos: apesar de se referir ao que já foi, já passou e já deixou de ser, a pergunta que guia o nosso olhar rumo ao passado nasce sempre num tempo que é atual. Só que essa atualidade não é fixa, ela move-se. Logo, o estado da arte — ou seja, o conjunto dos temas, protagonistas ou principais preocupações que, cumulativamente, formam a historiografia — tende permanentemente a mudar. Seja Vitorino Magalhães Godinho, Jaime Cortesão ou Fernando Rosas, compreender o trabalho histórico requer o reconhecimento de que todo e qualquer livro resulta sempre de um tempo, pensamento e contexto que lhe são muito próprios.

Pois é, nenhuma forma de conhecimento surge do nada. Neste sentido, o trabalho do historiador requer uma atenção detalhada, não só para com as particularidades do período e locais sob escrutínio, mas também para com o contexto de produção do próprio conhecimento histórico. Por exemplo, falar de Cortesão ou Godinho, sem considerar o papel ocupado na sua obra pela sua militância antifascista, pecaria por omissão. Ninguém que se dedique profissionalmente à escrita da história, por mais significativos que sejam os seus contributos, pode alguma vez afirmar ter escrito uma história total, completa, livre de contexto e eternamente verdadeira. Não. A nossa interpretação do passado muda, porque as pessoas que olham para o passado, para o estudar, também mudam. Reconhecer esta necessidade permanente de atualização não impõe quaisquer anacronismos, mas antes obriga-nos a perguntar: esta “Descoberta,” ela é anacrónica para quem? Para os povos indígenas? Ou para quem foi escravizado? As “Descobertas” de que hoje estamos a falar são uma construção histórica e uma invenção historiográfica que insiste em excluir. Vai-se a ver e este é o mesmo “anacronismo” que, em plena Feira do Livro, interrompeu Mamadou Ba, dizendo-lhe para “se despachar”. Este anacronismo é uma ofuscação. Ele enuncia o mal-estar que Portugal ainda tem em confrontar o tabu do racismo e do seu passado colonial.

Felizmente, a história nunca acaba! Mudam as pessoas, mudam os tempos, mudam as verdades vistas como imperiosas, factos outrora tidos como irrevogáveis. O atual debate sobre os “Descobrimentos” resulta desta mesma tensão entre o passado e presente. Logo, uma parte muito significativa da polémica em torno do delirante “Museu da Descoberta” advém de um conflito entre quem, até hoje, tem escrito a história e quem quer questionar as narrativas herdadas. A história de hoje — e aquela que ainda está para vir — não só é escrita e pensada por outras pessoas, ela envolve mais mulheres e reflete uma maior diversidade socioeconómica e étnica. É, por isso, absolutamente normal que hoje se contemple o passado com outro olhar, atendendo a outras vozes e protagonistas. Porque a história é também um direito de representação. Bastará visitar os arquivos para se constatar que a história de Portugal transcende o naipe dos consagrados heróis da nação. James Sweet, ao escrever sobre o percurso atlântico de Domingos Álvares, titubeando entre liberdade e escravatura — um livro que, infelizmente, ainda está por traduzir em português —, demonstrou essa mesma possibilidade. Fez-nos não só o favor de complicar a nossa compreensão de instituições como a Inquisição e a escravatura, mas também demonstrou as várias gradações e limites à liberdade pessoal. Enfim, deu-nos uma lição, ao mostrar que ainda há nos arquivos muitas experiências por recuperar, e tantas, tantas histórias por contar.

Com quatro décadas de democracia e outras tantas de descolonização, a verdade é que Portugal ainda não aprendeu a não ser um império colonial — são tiques antigos, mas que urge perder. Entretanto, e enquanto os fantasmas do fascismo, do colonialismo e da perda do império são ritualisticamente exorcizados à sombra de naus e navegadores, as histórias de muitas vidas continuam a ser preteridas, ou simplesmente rejeitadas, em nome de um cânone que alguns pretendem eternizar. Tudo isto pode parecer abstrato, académico até, mas na realidade tem manifestações muito reais e quotidianas. Veja-se o vedar do acesso à cidadania portuguesa de muitos afrodescendentes nascidos e crescidos em Portugal. Veja-se, além disso, a vergonhosa falta de diversidade étnica e do género, seja em cargos de representação política, na academia, ou até no comentário televisivo. Não tenhamos ilusões, este debate acerca dos “Descobrimentos” é uma cortina de fumo. Não se trata de exultar ou condenar Portugal, trata-se de uma luta pelo espaço público; de uma disputa pelo direito à voz e à visibilidade. Trata-se do direito, tão essencial e básico, de não só ter um passado como de poder pertencer à História de Portugal.

Se os povos colonizados existiram, e se a documentação dos arquivos nos deixou registo deles, porquê excluí-los do trabalho histórico? É este silenciamento sistemático que requer explicação, não o seu oposto. Portugal é hoje em dia um país democrático e cada vez mais diverso étnica e culturalmente. A sua historiografia deve refletir estas mudanças. Dizer “Descobrimentos” não é só dizer “Descobrimentos”. Esta é uma palavra que evoca muitas camadas distintas da história e historiografia nacionais. Depois do império perdido, é imperativo urdir um novo imaginário histórico — deixem as caravelas repousar! Neste contexto, a idolatria dos “Descobrimentos” é antitética aos princípios de um país democrático, plural e que deseje ser coerente para com os seus próprios valores. Portugal pode já não colonizar, mas já colonizou. Pode até já não escravizar, mas durante muitos séculos realmente escravizou. Confrontar este passado não é nem penitência, nem flagelação, mas sinal de maturidade democrática.

Sejamos honestos. O principal problema deste hipotético museu não está no nome. O verdadeiro imbróglio está em querer celebrar um império sem dizer que ele foi colonial. Chamar-lhe “da Descoberta” ou “da Viagem” será, por isso, absolutamente igual. São ambos eufemismos mal dissimulados enquanto não se disser: “imperialismo,” “racismo” e “violência colonial”. Não nos enganemos, segundo os moldes propostos pelo próprio Fernando Medina, este museu não pretende promover o conhecimento do passado, mas só a sua exultação. Assim, faz uma criteriosa curadoria tanto da parte que quer enaltecer, como daquela que lhe convém calar (afinal, o que é que os turistas iriam dizer?!). Se o pretenso museu repetir os modelos do passado, estaremos em crer que nele só caberão panegíricos aos heróis, cânticos à inovação e júbilos ao trabalho espinhoso, mas necessário, de cristianizar e espalhar a civilização. Mas convém sublinhar: este museu não vai ser herdado, ele vai ser construído. Como tal, caberá aos seus atuais proponentes deixarem de remeter para as gentes do passado diferenças inevitáveis de moral. Se é hoje mesmo que querem beber do cardápio do santíssimo colonialismo nacional, então deixem de usar o passado como escudo. Assim, cabe às pessoas do presente olhar criticamente para a história e refletir — cabe-nos questionar todas as narrativas herdadas e combater o impulso de meramente as reproduzir. Logo, compete a quem propõe o museu hoje, a quem o pensa e defende na atualidade assumir este projeto em toda a sua contemporaneidade. Que história se vai querer contar? Que vozes se vão ouvir? Quem é que o museu quer representar? E, de forma crucial, que visão do império colonial é que este museu vai conter? Estas são só algumas das principais questões que Fernando Medina ainda não soube clarificar. Irá este museu ser dedicado à reflexão da história do império colonial, ou será só mais um estulto monumento cantado aos mitos, estórias e êxtases que animam a exultação nacional?

*A escrita da história que eu defendo não leva maiúsculas. A meu ver, o trabalho histórico deve abandonar as grandes narrativas da nação (sendo a literatura dos “Descobrimentos” um exemplo paradigmático desta prática), para atentar à reconstituição de experiências à escala humana e, assim, compreender a interação entre as pessoas e as estruturas que definiram o seu tempo.