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Nuno Carinhas espalha pelo chão a memória e o tempo de Elfriede Jelinek

Na Viagem de Inverno que ocupa o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, o encenador dirige três actrizes que dão voz a uma escrita polifónica e autobiográfica.

Vai já adiantada a imersão no débito incessante das palavras de Elfriede Jelinek quando, por cima das três actrizes (Ana Cris, Flávia Gusmão e Teresa Gafeira) que vão tomando o palco à vez, um ecrã ganha vida e é ocupado por uma boca (de Sara Carinhas). A boca desata então a rememorar a história de uma menina de dez anos desaparecida junto a uma “furgoneta branca que ninguém conhece”. Fala de um caso que abalou a Áustria a 23 de Agosto de 2006, o dia em que Natascha Kampusch reapareceu, já com 18 anos, pondo fim a um rapto (e a um cativeiro) que durara uma eternidade. “Vão desprezá-la e castigá-la por ter estado desaparecida tanto tempo, vão castigá-la com desprezo, por agora estar de novo em público, por estar ali de novo”, diz a boca.

Essa boca é uma clara reminiscência do Not I de Samuel Beckett, o discurso vomitado por outros lábios incontinentes, obsessivos e devastadores com que Nuno Carinhas quis “pintar” a sua abordagem a Viagem de Inverno, de Jelinek, encenação que ocupará o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, até 23 de Fevereiro. A peça vai já adiantada e, por isso, há muito que Beckett, autor que o encenador visita com frequência (incluiu a boca de Not I em 2006 no tríptico Todos os que Falam e entretanto atirou-se a Ah, Os Dias Felizes e juntou A Velha Toada e A Última Gravação de Krapp em Uma Noite no Futuro), é uma sombra que se sente a pairar. “Acho que isso influenciou muito o débito”, reconhece o encenador em conversa com o PÚBLICO. “Para além de o problema que se levanta ser o da memória e do tempo, havia de facto uma percepção de que o discurso em catadupa estava muito presente por causa das associações que se estabelecem de forma quase incontrolável.” Daí que Nuno Carinhas encontre na escritora austríaca não tanto o Beckett dramaturgo, mas o Beckett romancista, de obras como Molloy ou Malone Está a Morrer  “devido à presença do tempo, dos protagonistas que pensam mais do que agem e de toda aquela máquina imparável de pensamento”.

Quando a boca se cala, logo as outras mulheres que habitam aquele palco, num raro momento em que existem fora dos seus monólogos, se queixam: aquela voz tenta roubar-lhes o espaço, impor as suas dores como mais importantes. “Ela não deve necessariamente regressar ao cárcere, mas que vá para longe dos nossos olhos”, dizem. “Que é que ela tem de mais, a vítima, que é que ela tem de mais, afinal? Julga que agora é a vez dela. Não é. Pelo menos entre nós, não é.” Talvez porque a referência a esse acontecimento real e identificável, e uma relação menos enviesada com o tempo, parece abrir uma fenda naquele que é o discurso em que as três actrizes se vêem enredadas: uma ruminação digressiva constante, num exercício de memória fugidia mas que luta também com a ideia de futuro e em que o presente é sempre uma caminhada desorientada, sem perspectiva, sem possibilidade de se deixar compreender.

O tempo e a memória, sublinha Nuno Carinhas, são as duas temáticas que nunca se despegam das palavras de Jelinek. Mas esta memória é tanto uma memória histórica quanto uma memória pessoal, e o tempo uma ferramenta de construção de memória colectiva. “Isso foi absolutamente marcante”, admite o encenador. “Depois fomos também à procura de fórmulas que cada uma teria de adoptar e de conduzir à sua maneira. Porque não se tratava de construir personagens; trata-se antes da desmultiplicação de uma voz em três e, portanto, não havia fórmulas já preparadas. O que é mais interessante aqui é que não temos de esperar uma unidade. Podemos potenciar o que cada intérprete tem para dar e uma abordagem completamente diversa. Isso tem que ver também com toda a flutuação que a escrita sofre para poder tratar de tantos assuntos num espaço tão curto.”

Migalhas para o passado

Elfriede Jelinek, Prémio Nobel da Literatura em 2004 e popularizada pela adaptação ao cinema do seu romance A Pianista (por Michael Haneke), é uma descoberta recente de Nuno Carinhas. Mais antiga é, na verdade, a sua relação com Viagem de Inverno (Winterreise), o ciclo de canções de Franz Schubert (com poemas de Wilhelm Müller) a que a escritora alude neste texto estreado, em 2011, no Kammerspiele de Munique, marcado pelo seu recurso habitual a uma escrita polifónica, profundamente fundada e questionadora de um universo feminino, e de uma intensidade que Carinhas descreve como “vibrante”. Jelinek inspira-se livremente nos textos das canções de Winterreise para sobre esse modelo despejar uma série de referência autobiográficas, mergulhando nas relações turbulentas com os pais, mas também castigando a mercantilização aplicada às mais variadas camadas da vida – tal como o mar e os Alpes podem ser vendidos e comprados, também uma noiva o pode ser e concentrar nela a razão pela qual o noivo não consegue ter lucro, ironiza.

Em 2016, Nuno Carinhas apresentou uma versão cénica da Viagem de Inverno, de Schubert, na Casa da Música, na versão de Hans Zender. Por isso, “estava mais familiarizado com as canções” e ao ler o texto de Jelinek identificou as “referências que havia ao longo do texto”. Haverá centena e meia de citações à obra primordial, mas Carinhas acredita que, para a escritora, será mais importante estas canções constituírem “um património nacional e civilizacional”. Memória, portanto. Ao mesmo tempo que aqui se esboça “um retrato da Europa profundíssimo”, não hesitando o encenador em associar Jelinek a Thomas Bernhard, Karl Kraus e Peter Handke. Sobretudo por considerar que cada vez mais o neoliberalismo impõe “esse exercício constante de avançar para qualquer coisa nova, exploratória, mas que não é fruto de um lastro histórico”. Jelinek, pelo contrário, vai repondo migalhas sobre esse solo sem marcas. Para que não se deixe de poder fazer o caminho para trás.