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LEFFEST

“Uma ideia não pode ser assassinada”: Marighella, o filme que o Brasil de Bolsonaro ainda não viu

É um filme que só tem sido visto em festivais, e o Leffest será a sua estreia em Portugal. Wagner Moura dirige Seu Jorge como Carlos Marighella, guerrilheiro comunista durante a ditadura militar brasileira.

O filme terá exibição única, para já, no domingo no Tivoli, em Lisboa, no Leffest, e motivará uma conversa no final do simpósio Resistências

Nos momentos iniciais de Marighella, o cantor e actor Seu Jorge, na pele do guerrilheiro comunista brasileiro, levanta-se numa sala de cinema, rodeado de polícias armados, e grita: “Abaixo a ditadura militar, viva a democracia!”. Os autores não previam que o filme quisesse estrear-se com Jair Bolsonaro na presidência do Brasil, mas sempre quiseram fazer cinema sobre resistência – um filme de acção, como sublinha ao Ípsilon Felipe Braga, que assina o argumento com o realizador Wagner Moura, mas que é mais do que a acção dos tiros e da perseguição de carros. A acção de um homem “que não tem as respostas para os problemas, não sabe o que é melhor ou pior, mas sabe que precisa agir”.

Marighella é a estreia na realização de Wagner Moura, actor que o público conhece como Pablo Escobar na série Netflix Narcos ou dos filmes Carandiru e Tropa de Elite. Terá uma exibição única, para já, no domingo no Tivoli, em Lisboa, no 13.º Lisbon & Sintra Film Festival (Leffest), enquanto aguarda que se estreie no Brasil para que possa depois ser lançado em mercados como o português, onde a sua distribuidora é a Alambique.

Baseado no livro do jornalista Mário Magalhães, centra-se nos anos entre o golpe militar de 1964 que instaurou a longa ditadura brasileira e a morte do ex-deputado comunista que entra na clandestinidade e é co-fundador do grupo armado Ação Libertadora Nacional (ALN). É sobre Carlos Marighella que Caetano Veloso canta em Um Comunista (2012) e é em cima das imagens que contam a sua relação com o filho, os companheiros de luta e, sobretudo, com o Brasil que o público ouve o Monólogo ao Pé do Ouvido, dos Nação Zumbi, postular: “O medo dá origem ao mal / O homem coletivo sente a necessidade de lutar (...) / Viva Zapata! / Viva Sandino!”. Mas se, ou quando, o público vai ver o filme é uma incógnita.

Marighella é o filme que o Brasil de Bolsonaro ainda não viu estrear, embrulhado em alguma burocracia mas também enleado no receio de alguma censura – afinal, quando a sua estreia agendada para dia 20, Dia da Consciência Negra no Brasil, foi cancelada, os filhos do Presidente da República celebraram no Twitter. Bolsonaro enaltece o tempo da ditadura militar, prefere chamá-la de “regime com autoridade”, e nega alguns dos seus aspectos, como a tortura dos presos políticos.

“Jamais imaginámos que o filme seria lançado no contexto político actual no Brasil. Há uma estranheza, no limite do absurdo, na forma como algumas das falas e diálogos do roteiro que na época a gente tinha medo que soassem anacrónicas a um público contemporâneo na verdade se provem absolutamente actuais”, confessa Felipe Braga ao Ípsilon dias antes de voar para Lisboa, onde participará na conversa após a exibição do filme em que começaram a trabalhar há mais de três anos.

Já em Fevereiro no Festival de Berlim, entre lágrimas da sua equipa e elogios da crítica, Wagner Moura tinha postulado que esperava que o filme fosse “maior que o actual governo de Bolsonaro”. E não hesitava nos paralelos: “Marighella, líder social negro, foi assassinado em 1969 dentro de um carro por disparos da polícia. Meio século depois, uma activista social negra [Marielle Franco] foi assassinada no Rio dentro de um carro por membros das forças de segurança”.

Amar ou odiar Marighella

O argumentista não vitimiza o filme, não fala de censura, mas não hesita em considerar que o impasse que rodeia Marighella no Brasil está ligado ao contexto em que o Governo tem criticado peças, séries ou filmes cujos temas que lhe desagradam. “Temos um Presidente da República e membros do Governo que explicitamente falam hoje em filtrar acções culturais e artísticas que não representem os valores judaico-cristãos ou os valores da família brasileira – seja lá o que isso for”, lamenta Braga. A estreia está adiada sine die – foi pedido à Agência Nacional do Cinema (Ancine) 1 milhão de reais para apoiar a distribuição do filme, como escreveu o El País Brasil, pedido rejeitado por atraso num documento do fundo público que financiou parcialmente o filme.

Ainda assim, Felipe Braga acredita que a estreia comercial do filme que o mundo só tem visto em festivais, a começar por Berlim, não está em causa. “Vai estrear em algum momento, só não sei quando ainda.” O facto de o poder judicial tem revertido algumas decisões do governo no sector cultural dá-lhe confiança. Teme sim que Marighella, o filme, enfrente outro adversário: “A questão delicada e mais complexa é o movimento de auto-censura”, explica, “se na hora que o filme for lançado os próprios exibidores se poderão sentir ameaçados por terem o filme”. Porque Marighella, o homem, enfrenta já outros problemas.

“O Marighella voltou a ser um inimigo da nação, dessa nação bolsonarista, dessa nação opressiva que não aceita a liberdade e a diferença”, diz Felipe Braga. Já em 2014, quando Mário Magalhães lançou o seu livro multipremiado, o biógrafo admitia, na Folha de São Paulo: “É legítimo amar o Marighella, é legítimo odiá-lo”.

“Ele sobrevive ao fogo”

Carlos Marighella nasceu em Salvador em 1911. É uma figura histórica complexa e rica, filho de um operário socialista de ascendência italiana e de uma empregada doméstica negra, filha livre de escravos trazidos do Sudão. Aprendeu a ler cedo e na sua formação política, conheceu in loco a China comunista. Carismático, escrevia poesia e pouco antes de morrer assinou o Minimanual do Guerrilheiro Urbano. Foi expulso do Partido Comunista Brasileiro (PCB), pegou em armas e assumiu-se, nesse contexto de 1960, como terrorista depois de as autoridades lhe negarem o título de revolucionário.

“Quando começámos a escrever o filme era uma figura cujo nome estava a começar a ser usado para baptizar escolas públicas Brasil fora pela sua importância histórica. Subitamente vira um inimigo da nação mais uma vez, o que é de uma boçalidade terrível”, assinala Felipe Braga.

Que sublinha, porém: “Se de alguma maneira tentássemos limpar a figura do Marighella e torná-la mais simples e digerível para a audiência estaríamos a fazer um desserviço muito grande para o personagem e para a discussão política actual”, diz Felipe Braga. “E sem dúvida a direita brasileira acusar-nos-ia de o tentar transformar num herói. Foi importante manter essa complexidade da personagem e colocá-lo no fogo, porque acreditamos que ele sobrevive ao fogo.”

Depois do golpe que instaurou o regime militar no Brasil e da sua expulsão do PCB, criou a ALN, grupo armado que pedia o apoio da população e tentava tirá-la da complacência, e que também foi responsável por assaltos, mortes e mais tarde pelo rapto do embaixador dos EUA. “Esse talvez tenha sido o ‘erro histórico’ mais contundente da estratégia do Marighella – acreditar que a população despertaria e se juntaria a grupos revolucionários para impedir a acção dos militares, do governo”, reflecte Felipe Braga sobre o seu país, onde as revoluções populares internacionais dos anos 1960 e 70 não tiveram espelho.

Por isso mesmo, Marighella “é uma provocação importante para o contexto actual. O que é que você faz, o que se faz perante um quadro de repressão? Pega-se em armas? Não necessariamente.” No filme, Seu Jorge, Adriana Esteves ou Bruno Gagliasso retratam o medo, a tortura e a censura nos jornais, mas também mostram o sangue e os danos colaterais. “O filme não é um manifesto a favor do Marighella nem a favor da luta armada ou a favor da esquerda”, diz o seu co-autor, frisando a importância do rigor histórico e da pesquisa no projecto.

Mas Marighella quer contribuir. Há uma semana, Lula da Silva foi libertado da prisão e promete fazer oposição ao governo conservador. “Hoje no Brasil não sofremos só com um governo de extrema-direita reaccionário, sofremos um problema de narrativa”, defende Felipe Braga. Lula “tem o poder de sugerir uma outra narrativa para o país”, mas a futura liderança tem de ser “nova, jovem”, acredita o argumentista, que continua a sublinhar que o filme quer falar para a “juventude que infelizmente acredita que a política não muda as coisas, que posicionar-se politicamente é inútil e que nasceu num contexto que é avesso à transformação, avesso à justiça”.

A certa altura nas cerca de 2h30 do filme, reitera-se: “uma ideia não pode ser assassinada”. Mesmo no seu limbo comercial – tem entre os produtores a O2 de Fernando Meirelles e distribuidores como a Paris Filmes e a Globo – continua a ser motivo de conversa no Brasil. “O filme continua a existir e damos-lhe oportunidade de existir fora do sistema de poder que o tentou censurar”, considera Juan Branco, curador do simpósio Resistências cujo encerramento será com uma conversa sobre Marighella. “É muito mau para o sistema de poder que tentou destruir o filme, mas [o filme] ajudou-nos a ser mais belos.”