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Há tanta nova televisão, mas escolhe-se sempre o mesmo para ver

A oferta aumentou, diversificou-se, mas a televisão de conforto de Friends ou A Teoria do Big Bang são as grandes armas do streaming e as preferidas do público.

"Friends" DR

Basta deslizar pelas listas das séries mais populares nas versões portuguesas de serviços de streaming como Netflix, Amazon Prime Video ou HBO Portugal e vê-se uma tendência internacional: entre as mais vistas estão, de forma recorrente, à mistura com as novas produções originais, os clássicos da televisão de conforto. Friends, Seinfeld, A Teoria do Big Bang são os greatest hits destes anos em que nunca houve tanta televisão nova. Os hábitos de consumo televisivo mudaram, mas os gostos nem por isso.

Vivem-se os anos de mais febril produção televisiva em todo o mundo, em particular nos EUA, de onde chegam as tendências de consumo como o streaming ou o binge watching. Essas plataformas de streaming insuflaram a bolha de nova produção sempre a tentar achar novos públicos — “o nosso objectivo é tentar fazer a sua série preferida”, resumiu o presidente para os conteúdos da Netflix, Ted Sarandos, em Outubro no Los Angeles Times. Mas o público parece já saber o que quer. 

Séries com parca serialização, confortáveis e já algo familiares, aprazíveis para as repetições infinitas, de preferência comédias leves já terminadas, com centenas de episódios e grupos de amigos em acção. É por isso que, entre o Reino Unido e os EUA, por exemplo, as séries mais vistas em streaming em Agosto deste ano, segundo o Guardian, foram as muitas temporadas de O Escritório (2005-13), Friends (1994-2004), Gilmore Girls (2000-7), Parks and Recreation (2009-15) ou Frasier (1993-2004).

“As inovações do tipo de serviço da Netflix tornaram tão fácil descobrir e ver conteúdos que gerações inteiras, que nunca teriam visto Friends ou Sarilhos com Elas nas repetições ocasionais em canais de TV aleatórios, estão a devorá-las”, constata o analista Matthew Ball no diário britânico The Guardian.

Nos últimos meses, os negócios em torno destas séries clássicas falaram por si. Em Julho, a HBO terá pago 383 milhões de euros para roubar à Netflix as dez temporadas de Friends como exclusivo, nos próximos cinco anos, do seu futuro serviço de streaming HBO Max (em Portugal, a série está ainda na HBO e na Netflix). O negócio pelo exclusivo de cinco anos das 12 temporadas de A Teoria do Big Bang (2007-19) foi assinado em Setembro por valores na casa dos milhares de milhões, escreveu a revista Hollywood Reporter.

No mesmo mês, Seinfeld foi roubado ao Hulu (não opera em Portugal) para ser da Netflix a partir de 2021 (em Portugal, a série está para já na Amazon) — o Hulu pagava 135 milhões de euros por ano para ter a série que durou entre 1989 e 1998. Este mês, estreou-se na Netflix a terceira temporada de The Crown, tida a par de A Guerra dos Tronos como uma das séries mais caras de sempre. Cada temporada, como nota o Guardian, custa 60 milhões de euros.

“As maiores séries da Netflix geram crescimento de subscrições e da marca, mas a maior parte do seu sucesso vem de possibilitar ao público ver facilmente grandes quantidades de todo o tipo de conteúdo estejam onde estiverem, sem falhas, a baixo custo. A Netflix não é ‘contratada’ por Stranger Things mas pelo entretenimento em geral”, postula Ball, ex-director de planeamento estratégico da Amazon Studios.

O poder das repetições deu a Friends, por exemplo, uma nova vida e novos públicos que a estão a descobrir e repetir como se fosse 1999. E o seu valor é igualmente alto na televisão convencional — o canal por subscrição Fox Comedy estreou Friends no Natal do ano passado e é a segunda série mais vista do canal. Passa às 22h e as audiências duplicaram logo nesse horário. O canal ainda não parou de a repor. O mesmo acontece com A Teoria do Big Bang, uma constante, há anos, da programação do canal AXN White.