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Crítica

Enciclopédia pessoal do quotidiano

Mostrando-se mais apaziguado com a tragicidade da vida, Knausgård torna a cartografar com minúcia o mundo em seu redor.

Livros No Inverno

Entre o final de 2013 e o Verão de 2014, o escritor norueguês Karl Ove Knausgård (n. 1968) escreveu quatro volumes — titulados com os nomes das estações do ano — de textos curtos (duas ou três páginas), em que usa material da sua vida quotidiana (o dia-a-dia com a mulher e os filhos na Suécia rural) para compor uma espécie de “enciclopédia pessoal”, cartografando o mundo em seu redor, desde os objectos aos sentimentos e vontades humanas, passando por alguns acontecimentos domésticos. Não é um registo diarístico, apesar de o livro estar dividido por meses. Em cada um dos tomos surgem alguns textos a que chamou Carta a uma filha que vai nascer (apesar de na última carta deste volume agora publicado, o segundo, No Inverno, a menina ter acabado de nascer). Os outros textos têm títulos como: Neve, Comboio, Açúcar, O desejo sexual, Fogueiras, Janelas, Cérebro, Sexo, Sons de Inverno, Peluches… Neles Knausgård parece querer mostrar à filha o que pode esperar do mundo, da complexidade da natureza, das pessoas e dos seus sentimentos, porque todos “estamos entregues uns aos outros” e é preciso aprender a lidar com isso. “É estranho que existas, mas que não saibas nada de como é o mundo. É estranho que haja uma primeira vez que se vê o céu, uma primeira vez que se vê o Sol, uma primeira vez que se sente o ar na pele. É estranho que haja uma primeira vez que se vê um rosto, Gi, uma árvore, um candeeiro, um pijama, um sapato. Na minha vida isso já quase não sucede. Mas em breve voltará a acontecer. Daqui a apenas uns meses vou ver-te pela primeira vez.”

Cada um dos textos obedece a uma mesma estrutura: o autor começa por descrever (por vezes com uma precisão quase infantil, ou como se o fizesse para um ser alienígena) o objecto ou a ideia que titula a pequena narrativa; depois tece mais umas quantas considerações, e passadas umas linhas relaciona-o com um sentimento, uma memória da sua vida (por vezes da sua infância), uma situação social, e fá-lo quase sempre com aquela singular intensidade que o caracteriza desde os seis volumes de A Minha Luta. É o que acontece em Cadeiras, que começa assim: “A cadeira serve para uma pessoa se sentar. Consiste em quatro pernas, sobre as quais assenta uma placa, e da extremidade desta ergue-se um apoio para as costas.” Uma página e meia depois, está a dissertar sobre uma cena do filme Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman, e sobre a concepção do cinema do próprio realizador.

A profundidade com que Knausgård expõe os seus pensamentos não é, obviamente, a mesma com que o faz em A Minha Luta, acabando por nestes textos curtos, de certa forma, ser mais directo e claro. Se nos romances dissertava longamente, por exemplo, sobre o acto de empurrar um carrinho de bebé por um parque e como se tornara “transparente” para as mulheres, o leitor percebia que não era essa acção, ou esse facto, que lhe interessava, mas antes reflectir (quase em jeito de disfarçada parábola) sobre a masculinidade; em No Inverno ele abrevia essas descrições algo metafóricas e esclarece logo o que quer dizer. Assim: “Quando Hegel escreveu que a coruja só levanta voo ao escurecer, era na sabedoria que pensava.

Pode interpretar-se que a sabedoria ou o conhecimento se segue ao acontecimento como a noite se segue ao dia, mas também pode interpretar-se que a sabedoria pertence à noite, ao escuro, ao oculto, ao adormecido, àquilo que está próximo dos mortos mas que não está morto.” A sua escrita torna-se assim menos ostensivamente reflexiva — a reflexão, de certa forma, passou para a imediatez do significado dos objectos, dos actos e sentimentos descritos, em vez das longas e pormenorizadas divagações a que nos habituara.

Nos volumes da saga autobiográfica A Minha Luta, Knausgård fazia uma tentativa de recuperar um tempo perdido (o seu, biográfico), ao esboçar o mapa íntimo de um homem que procura sentido para a sua experiência de vida, contando a sua história a partir dos sentimentos que o foram moldando e que acabam por o definir. Se nesses romances tentava responder às perguntas: “Quem somos quando não sabemos quem somos? Quem somos quando não nos lembramos de que existimos?”, nestes volumes de textos curtos parece querer deixar à filha por nascer algumas repostas a essas questões, mostrando-se já mais apaziguado com o mundo, conformado com a sua tragicidade: “a vida existe por teimosia e é trágica na sua natureza. (...) A tragédia trata apenas de como a revelação do inevitável [nos] chega”.

A escrita de Karl Ove Knausgård transforma o tempo em palavras, como se com a sua subtileza de narrar, de poder introspectivo e visceral, se libertasse de incomodidades obscuras; e não apenas ele mas também o leitor é arrastado neste processo, que já não é tanto de emersão catártica, como acontecia nos romances, mas que de qualquer forma continua a não deixar que nenhum dos dois saia ileso: por vezes o espanto de Knaugård é também o do leitor, o espanto da nossa relação com o mundo e com nós próprios.