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Crítica

#ElasTambém (mas não muito)

Quer ser um filme político do seu momento, mas não faz justiça à história que quer contar.

Cinema Bombshell - O Escândalo

Charles Randolph foi um dos argumentistas de A Queda de Wall Street, o filme de Adam Mackay que renovou a ideia de Hollywood do que podia ser um filme activista sobre o capitalismo americano. Jay Roach, que esteve por trás de comédias como Um Sogro do Pior e a série Austin Powers, dirigiu para a HBO filmes bem recebidos sobre o momento político dos EUA: Recount, sobre a recontagem de votos que deu a George W. Bush a presidência, e Game Change, sobre a campanha presidencial de John McCain e Sarah Palin. E, para esta ficcionalização da revelação dos abusos e assédios sexuais sistemáticos de Roger Ailes, responsável máximo do canal Fox News, temos Nicole Kidman no papel de Gretchen Carlson, a pivot que deu o primeiro passo ao processar Ailes, Charlize Theron como Megyn Kelly, a pivot-vedeta que foi insultada em directo por Donald Trump num debate de campanha, e John Lithgow como Ailes.

À chegada, contudo, Bombshell é uma montanha que pariu um rato, um filme disperso e incerto que nunca decide qual é a história que quer contar. É a história de Megyn, que começa a encaixar as peças do quebra-cabeças ao perceber que ninguém se ergue em sua defesa quando Trump começa a arrasá-la no Twitter porque “é bom para as audiências”? É a história de uma cultura misógina tóxica, a todos os níveis, de uma estação televisiva onde se é capaz de tudo para garantir audiências? É a história da dificuldade das mulheres se imporem nessa cultura, corporizada na personagem compósita ficcionada de Kayla (Margot Robbie), jovem estagiária que compreende rapidamente qual o preço a pagar para cumprir ali as suas ambições? É a história do modo como essa cultura foi (apenas aparentemente) destruída com a saída de Ailes dos comandos da Fox?

Bombshell não escolhe nenhum dos fios condutores, prefere ir alternando entre eles ao ritmo frenético de uma redacção (a fotografia é do britânico Barry Ackroyd, formado na televisão inglesa e nos filmes realistas de Ken Loach). Mas nenhuma das tramas ganha espessura, fica-se tudo pela superfície, como se muita coisa tivesse ficado de fora na montagem para garantir que o filme se ficava pelas duas horas. Theron, Kidman e Robbie são excelentes, mas a verdade é que têm pouco a que se agarrar; é Lithgow quem foge com o filme, ao ferrar os dentes em Ailes e ao trazer ao decima o poder da sedução do poder. Talvez essa dispersão ajude a manter o interesse durante a projecção, mas ao saírmos ficamos com a sensação de que ficou quase tudo por dizer. E com um travo amargo porque sabemos que esta batalha foi só a primeira de muitas e, apesar do que parece, foi perdida. Nem Megyn nem Gretchen foram “recompensadas” pela sua coragem, e Donald Trump, com toda a sua misoginia, foi eleito. A luta continua.