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Delfim Sardo entra para o CCB com o pelouro da programação

O curador, até agora responsável pela programação de artes plásticas na Culturgest, terá os pelouros da programação e da comunicação.

DANIEL ROCHA

A ministra da Cultura vai nomear Delfim Sardo como novo administrador do Centro Cultural de Belém (CCB), confirmou ao PÚBLICO fonte oficial do gabinete de Graça Fonseca. O curador, que até agora era responsável pela programação de artes plásticas da Culturgest, a fundação da Caixa Geral de Depósitos, inicia funções a 1 de Março.

Delfim Sardo regressa a uma casa que conhece bem, uma vez que foi director do Centro de Exposições do CCB entre 2003 e 2006. O curador vai ocupar o lugar deixado vago por Miguel Honrado, que abandonou o CCB em Dezembro, na administração presidida por Elísio Summavielle. Sardo, que é também professor na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, é um dos mais conceituados curadores portugueses e autor de uma relevante produção ensaística.

“É uma decisão partilhada e em diálogo com o conselho de administração do CCB”, adiantou ao PÚBLICO o gabinete da ministra, “havendo o entendimento conjunto de que Delfim Sardo assuma os pelouros da programação e comunicação, preparando o CCB para um novo ciclo, nomeadamente tendo em conta a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia no primeiro semestre de 2021.”

Nomeado administrador do CCB após a sua passagem pela Secretaria de Estado da Cultura, Miguel Honrado saiu do CCB para a Orquestra Metropolitana de Lisboa sem nunca ter conseguido assumir na administração a coordenação da programação, função que tinha sido desempenhada pela sua antecessora Luísa Taveira. 

Como o PÚBLICO então noticiou, era vontade do Ministério da Cultura assegurar que o sucessor de Honrado, que se manteve apenas oito meses no cargo, ficasse com a responsabilidade de programar um dos maiores equipamentos culturais do país. Em Setembro, na apresentação da temporada 2019/2020 do CCB, Elísio Summavielle explicou ao PÚBLICO que não atribuíra o pelouro da programação a Honrado, uma prerrogativa do presidente do CCB, por entender que os administradores não devem programar, mas antes aprovar as propostas dos programadores das diferentes áreas. Pouco mais de dois meses depois, o ex-secretário de Estado da Cultura despedia-se do cargo dizendo não se rever na orientação do projecto

Contactado pelo PÚBLICO, Elísio Summavielle disse, através do gabinete de comunicação do CCB, “que está naturalmente optimista com o futuro”, confirmando o diálogo com a ministra na nomeação do novo administrador.

Satisfeito com este “novo desafio”, Delfim Sardo disse ao PÚBLICO que é prematuro falar sobre o futuro do centro cultural, escusando-se a comentar se o seu perfil mais ligado às artes visuais significa também novos desafios para o CCB, num contexto em que o Centro de Exposições está tomado pelo Museu Berardo ao abrigo de um protocolo renovado em 2016. Delfim Sardo chega aliás a Belém num momento em que as responsabilidades do Estado sobre a Colecção Berardo se alargaram, na sequência do arresto decretado pelo tribunal em Julho passado a pedido de três bancos credores do empresário madeirense; o presidente do CCB foi entretanto nomeado fiel depositário do acervo ali depositado por Joe Berardo, através de um acordo celebrado com o Estado em 2006 e entretanto estendido até 2022.

Estão também em depósito no CCB algumas obras da colecção de arte contemporânea do Estado, antiga colecção SEC. No passado, Delfim Sardo defendeu que deve existir uma estratégia integrada para as várias colecções privadas que estão actualmente sob a alçada do Estado – além da de Berardo, as colecções do Novo Banco, da Fundação Ellipse (ex-BPP), do BPN ou da própria Caixa-Geral de Depósitos (Culturgest).

Na sua anterior passagem pelo CCB, Delfim Sardo acabaria por demitir-se do cargo em ruptura com a administração presidida por José Fraústo da Silva. “A administração e eu temos visões diferentes do que deve ser o Centro de Exposições. O meu projecto de contemporaneidade não tinha acolhimento suficiente. Não havia condições de confiança mútua”, argumentou então, admitindo igualmente a falta de condições orçamentais para a sua programação.

Delfim Sardo afirma sair da Culturgest “com uma grande gratidão” pela forma como os seus projectos ali “foram acolhidos” e com “uma óptima relação de trabalho com toda a equipa”, acrescentando que se manterá ligado à Culturgest durante o mês de Fevereiro.