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Livros 2020

Cláudia Andrade: o peso de um estilo

Há já muitos anos que na literatura portuguesa não aparecia uma voz literária tão forte. Há já um livro de contos nas livrarias e o anúncio de um romance para este ano.

Há já muitos anos que na literatura portuguesa não aparecia uma voz literária tão forte: livro de contos e romance para este ano DR

Arriscamos que há já muitos anos que na literatura portuguesa não aparecia um primeiro livro de contos com uma voz literária tão forte como Quartos de Final e Outras Histórias (Elsinore, 2019), de Cláudia Andrade (n. 1975) — uma voz onde se pressente o longo caminho percorrido, num intenso trabalho de escrita e reescrita, para atingir este nível de limpidez e clareza. Mas basta a leitura das primeiras páginas para se notar quase de imediato a primeira singularidade desta escrita: uma riqueza lexical, sem estar a “armar ao literário”, que vai sendo já pouco usual na literatura portuguesa. Não houvesse outras virtudes singulares na escrita de Cláudia Andrade, e este léxico cuidado quase seria suficiente para marcar um estilo; mas há mais, e entre elas destaca-se o domínio narrativo que lhe permite ultrapassar as formas canónicas do conto e levar a história a ser contada de diferentes maneiras, por exemplo misturando dois planos e em que um deles assenta nas memórias das personagens. Isto chega para dar à autora uma “assinatura”, um nome, o peso de um estilo.

A quase totalidade da dúzia e meia de contos desta colectânea, Quartos de Final e Outras Histórias, é pontuada por notas subtis de um humor negro e ácido pouco comum, mesmo quando não esperadas nos temas “sérios” que são o assunto destas narrativas: a loucura, a morte, a velhice, a solidão, a violência, e a doença. São retratos de momentos épicos em “vidas frágeis”. No conto Requerimento, por exemplo, há um homem que pede ajuda a uma comissão para ter uma “morte assistida”, não porque esteja doente mas porque entende que a vida “não vale a pena” e ele não pediu para ter nascido, porque “nunca [lhe] apeteceu ser”. “Sei que não sou um caso especial, estou consciente de que somos muitos, mais especificamente todos, a penar. Acontece que só posso sofrer o meu próprio sofrimento, ainda que ele seja causado pela visão repugnante do sofrimento dos outros.”

Para Março deste ano, a editora Elsinore anuncia a publicação do romance Caronte à Espera. Segundo contou a autora, é a história de um homem acabado de se reformar, que vive aprisionado na rotina de uma vida sem surpresas, e que decide morrer; mas encontra um motivo para adiar esse gesto: descobre um rosto desconhecido entre os rostos familiares numa fotografia do seu casamento há trinta anos.

Com um livro de estreia com uma voz narrativa e um estilo tão singulares e marcantes, há expectactiva e a curiosidade para ver como Cláudia Andrade faz a mudança dos contos para o romance e se suporta o peso da sua “assinatura”. 

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