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Crónica

O “Caso Dreyfus” hoje

A sala do Ideal, em Lisboa, escurece e somos logo transportados para o fim do século XIX em Paris, onde se assiste a uma cena revoltante e brutal. Trata-se da humilhação pública sofrida pelo capitão Alfred Dreyfus, na cerimónia de degradação. Na assistência, o coronel Picquart, professor de Dreyfus, não deixa de realçar de forma sarcástica a origem judaica do condenado. A “cerimónia” ocorreu no pátio da Escola Militar de Paris, em 5 de Janeiro de 1895, onde, dirigindo-se aos soldados, Dreyfus gritou: “está-se a degradar um inocente, a desonrar um inocente. Viva a França! Viva o Exército!”.

O filme de Roman Polanski, J’Accuse: O Oficial e o Espião, trata do “processo”, posterior ao primeiro julgamento que condenou Dreyfus, da descoberta da sua inocência e ao nascimento do “caso” Dreyfus, chamado pelos franceses como “o caso” (l’affaire). Iniciado no final do século XIX, o processo, com todos os julgamentos, durou 12 anos e mobilizou campos polarizados em França, com repercussões por todo o mundo que contaminariam a primeira metado do século XX.

Serviu de paradigma, interpelando os intelectuais e a opinião pública, à semelhança do Terramoto de 1755 de Lisboa, que interpelou o pensamento filosófico do século XVIII, como revelou Voltaire, na obra Cândido ou o optimismo. Hannah Arendt (1906-1975) referiu o “caso Dreyfus” na sua obra As Origens do Totalitarismo, onde distinguiu o “processo”, surgido num período de integração do antissemitismo na esfera política na França do final do século XIX, do “caso” no qual aquele se transformou. Este foi não só revelador do surgimento do antissemitismo de tipo moderno, amalgamado com o ódio à República, como prefigurou o totalitarismo nazi, as duas guerras mundiais e o Holocausto no século XX.

Belissimamente narrado, contextualizado com grande rigor histórico e bem representado, por Jean Dujardim (o complexo e impassível Picquard), Louis Garrel (irreconhecível em Dreyfus) e por diversos actores da Comédie Française, o filme retrata um ambiente soturno em espaços militares interiores e obscuros ou na sala do tribunal, com personagens quase só masculinas, com a excepção da mulher de Dreyfus e da amante de Picquard. Só vemos a “rua”, uma única vez, através de uma manifestação “popular” antissemita. O argumento, feito em conjunto pelo realizador e Robert Harris, autor do romance no qual Polanski se inspirou, faz também do filme uma obra militante, à maneira de Zola.

Polanski, judeu polaco que sofreu a perseguição nazi no gueto de Cracóvia, tema do seu excelente filme O Pianista, não por acaso escolheu o caso Dreyfus como símbolo da actuação antissemita, embora esta raramente surja no filme, existindo como pano de fundo e sublinhado em algumas cenas. Através de uma narrativa sóbria, que nunca cai no melodrama, na caricatura ou no sentimentalismo, é um filme policial que interpela o espectador, não só para absorver a multidão de informações apresentadas, como para o induzir a uma reflexão sobre a postura ética.

Ao contrário do que se pensaria, os “heróis” não são Dreyfus, nem Émile Zola, símbolo do surgimento do intelectual público interventor, mais tarde teorizado como o intelectual comprometido por Sartre. O próprio Dreyfus negou aliás ser hum herói ou um “símbolo da Justiça”, ao afirmar não passar de “um simples oficial de artilharia que um trágico erro impediu de prosseguir o seu caminho”.A narrativa do filme foca-se, sim, no coronel Marie-Georges Picquart, militar alsaciano (aliás como Dreyfus e muitos dos oficiais envolvidos) que acompanhou o primeiro julgamento sem duvidar da sua justeza e foi inicialmente um antidreyfusard. Ao trabalhar na contra-espionagem militar, só tardiamente se vem a aperceber que o documento que condenou injustamente Dreyfus (o célebre bordereau)  é na realidade de outro autor — o verdadeiro traidor Esterhazy, entretanto inocentado.

Em 1894, ano da prisão de Dreyfus, a III Republica francesa, já com 24 anos, sofre diversas crises. Uma delas é provocada pelo escândalo do canal do Panamá (1880-1888), no qual Arendt viu aliás a origem do caso Dreyfus, ao revelar a corrupção no seio do Parlamento francês e a actuação de judeus, recém-chegados a França, tal como o capitão. Importante no filme é o novo serviço de contra-espionagem militar, com a sua sua secção de “Estatística”, cuja missão é espiar a embaixada da Alemanha, que o Estado francês de então vê como fonte do maior perigo.

Social e politicamente, o contexto francês de então é marcado pelo nacionalismo e um antissemitismo em ascensão, sob a influência da publicação de A França judia, de Edouard Drumond (1886) e difundido, em 1892, pelo jornal anti-semita Libre Parole. À esquerda, o espectro político é marcado por socialistas e libertários, como Bernard Lazare. Com o surgimento do bordereau, peça estratégica do processo, endereçado ao militar alemão Max von Schwartzkoppen, procura-se um militar de artilharia e encontra-se o culpado em Alfred Dreyfus. Receoso de que os juízes militares o absolvessem, “Estatísticas” arranja quatro provas falsas da culpabilidade, de conteúdo secreto e remetido ilegalmente ao Conselho de Guerra, por ordem do ministro da guerra Mercier.

Em 22 de Dezembro de 1894, Dreyfus é julgado à porta fechada e condenado por traição à deportação perpétua em fortificação e à degradação militar. Deportado, chega em 14 de Abril de 1895 à Ilha do Diabo, na Guiana, onde, com os guardas, é o único habitante de um estreito edifício de pedra. A partir de Setembro de 1896, é mesmo obrigado a permanecer imóvel deitado, com os tornozelos algemados. Em França, entretanto, o irmão Mathieu tenta abrir o processo, e é publicado por Bernard Lazare, em 1896, o primeiro opúsculo dreyfusard, que servirá de modelo a Zola. Picquart acaba por descobrir que o verdadeiro culpado é o comandante Ferdinand Esterhazy e transmite as suas dúvidas à estrutura militar, que o manda prender e o afasta para a África do Norte, em 1897.

O movimento dreyfusard evolui, sobretudo a partir do momento em que Émile Zola publica o seu célebre J’accuse, no jornal L’Aurore, a 13 de Janeiro de 1989, atacando pelo nome os generais e acusando o Exército de mover uma campanha de notícias falsas. Acima de tudo, Zola proclama desde o início a inocência de Dreyfus e vários intelectuais assinam uma petição em favor da revisão do processo. Começa então o verdadeiro “caso Dreyfus”, que vai inflamar as multidões durante vários anos, não só em França. É aberto um segundo processo no tribunal de Rennes onde Dreyfus continua a ser considerado culpado em 9 de Setembro de 1899, mas, dez dias depois, é indultado pelo Presidente da República. Após ser aceite o pedido de revisão do processo, é reabilitado, em 12 de Julho de 1906, e Picquart virá mesmo a ser nomeado ministro da Guerra.

As consequênciasa imediatas do “caso” foram inúmeras. Desde logo, torna-se num mito fundador da consagração do triunfo da III Republica e marca também o triunfo da imprensa e do papel dos intelectuais públicos. O impacto social, jurídico, diplomático, cultural é também significativo além de internacional, pois na sequência do “caso”, Theodor Herzl funda o congresso sionista. O “caso” diminui, porém, a integração dos católicos na república e potencia o antissemitismo, reforçado pela crise da separação das igrejas e do Estado a partir de 1905.A extrema-direita nacionalista francesa ganha espaço político, com ramificações na Action Française, de Charles Maurras, que, após 1945, ao ouvir a sua sentença por colaboracionismo com a Alemanha nazi grita: “É a vingança de Dreyfus”.

E hoje? Curiosamente, como no filme, assiste-se ao mesmo discurso de medo da perda da identidade nacional e da invasão por “estrangeiros”, agora não só judeus, tal como se espalham as fake news. O caso mantém toda a sua actualidade, sem que o filme caia em anacronismos e falsas e simplistas comparações.