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Bruno Aleixo: o quotidiano e o bizarro à mesa do café

É uma figura de culto do humor nacional, conhecida pela sua esperteza saloia e que pode causar estranheza a quem não conhece. O Filme do Bruno Aleixo, que junta os bonecos nonsense às personagens mais humanas de Adriano Luz, Gonçalo Waddington ou Manuel Mozos, chega aos cinemas a 23 de Janeiro.

Bruno Aleixo O SOM E A FÚRIA

Conhecemo-lo em pequenos vídeos online em que aconselhava os espectadores a não dormirem nus, a não mentirem à polícia e a guardar bolas de naftalina para que os miúdos as comam a pensar que são amêndoas; mais tarde, passou para a rádio onde falava (e ainda fala) descontraidamente com os seus comparsas sobre temas da actualidade. Falamos de Bruno Aleixo, uma espécie de cão de peluche humanizado que traz vestido um pólo, um chico-esperto coimbrão com um sotaque da Bairrada bem vincado.

“É humor de quotidiano. São bonecos estranhíssimos, mas nada daquilo nos é estranho. É o tipo de conversas que podemos apanhar num café ou que podemos ter com a nossa avó. Nunca há uma invasão extraterrestre ou uma guerra nuclear, são contextos do dia-a-dia”, reconhece João Moreira, que, com Pedro Santo, criou em 2008 esta personagem fictícia e respectivos companheiros. E é precisamente numa mesa de café que se passa grande parte da longa-metragem O Filme do Bruno Aleixo, que chega aos cinemas portugueses a 23 de Janeiro. O filme, escrito e realizado pelos dois criadores, começa com uma discussão sobre um tema tão divisivo quanto pode ser a diferença entre uma meia de leite e um galão.

A história, de resto, é outra. Mais meta: os amigos juntam-se numa esplanada no Parque Verde do Mondego, com Coimbra como pano de fundo, porque “um homem que tem uma empresa que faz filmes” ligou a Bruno Aleixo a propor-lhe que fizesse um sobre a sua vida. Biográfico? “Um bocadito, ninguém tem nada a ver com o que eu faço ou deixo de fazer”, começa por contar o boneco, que precisa de ideias. A proposta de se fazer um filme foi feita há já alguns anos, pela produtora O Som e a Fúria, que considerava os longos silêncios e trocas de olhares mais cinematográficos do que de sitcom.

É, literalmente, uma conversa no café que acaba por ser a linha narrativa que dá coesão ao filme. Mas é também um filme de comédia que vai arrancando gargalhadas sobretudo pela sua imprevisibilidade, aleatoriedade e pelos longos silêncios, que faz alusão a vários estilos cinematográficos. Recria filmes de acção, terror, thrillers, policiais e sitcoms — aqueles a que os amigos do Aleixo, que não percebem muito de cinema, costumam assistir e conseguem referenciar. “São pessoas normais a terem ideias para um filme. Como são personagens estáticas, o truque é que as ideias que vão tendo são representadas no ecrã, com actores”, resume Pedro Santo. À cabeça estão Adriano Luz e Rogério Samora.

São bonecos estranhíssimos, mas este tipo de conversas podemos apanhá-las no dia a dia num café ou podemos tê-las com a nossa avó

Estes amigos são uma ode ao absurdo, igualmente invulgares e com personalidades bem acentuadas. Apresentem-se: o ingénuo estudante universitário com cara de O Monstro da Lagoa Negra, com discurso arrastado e que acha tudo “simbólico”, Renato Alexandre; um busto alvo de Napoleão Bonaparte incompreendido que se chama Busto; e um boneco barbudo pré-histórico e quase imperceptível sem legendas, o Homem do Bussaco. Todos animados. Durante o brainstorming que se vai concretizando em filme conforme vão surgindo as ideias, ainda se juntam outras personagens por telefone: o seu Jaca, o amigo brasileiro cuja cabeça é o fruto homónimo; o porteiro retardado Nelson e ainda o doutor Ribeiro, o médico invisível que aparece no filme quando ainda estava a desaparecer.

“As personagens são bastante nonsense, no entanto tentamos sempre que as conversas sejam terrenas. Há muito aquela vivência de ir ao café e de estarem sempre a picar-se uns aos outros e a tentar sair por cima, a ganhar pequenas apostas e disputas”, explica Pedro Santo, que dá a voz ao Busto.

Bruno Aleixo é uma produção habituada a formatos mais curtos: pequenos vídeos, trechos na rádio, bocas nas redes sociais. O próprio filme acaba por recorrer ao porto-seguro de sketches, fazendo-se uso de pequenos “filmes” dentro do filme. Ainda que os convidados de carne e osso intercalados com os bonecos não sejam novidade nas produções de Bruno Aleixo (sobretudo televisivas), esta traz consigo uma novidade: a certa altura, as vozes dos actores Adriano Luz e Rogério Samora são dobradas com as de Bruno Aleixo e do Homem do Bussaco, respectivamente — uma forma de “driblarem” a inflexibilidade das personagens, que são estáticas além dos movimentos da boca e das expressões faciais.

João Moreira e Pedro Santo criaram em 2008 a personagem fictícia que habitou pequenos vídeos, trechos na rádio, bocas nas redes sociais antes de chegar agora ao cinema. A proposta filme foi feita pela produtora O Som e a Fúria, que considerava os longos silêncios e trocas de olhares mais cinematográficos do que de sitcom Mário Miranda Filho/Agência Foto, Mostra de São Paulo, 2019

A primeira aparição de Bruno Aleixo aconteceu em 2008, mas o pequeno urso-cão tem, na verdade, 62 anos. Desde que surgiu que é representado em duas dimensões numa versão “lo-fi”, como diz João Moreira, ou “tosca”, como descreve Pedro Santo. Começou por ser um Ewok, as criaturas do universo de Star Wars, propriedade da Lucasfilm — quando passou para os ecrãs televisivos, ainda em 2008, teve de ir ao Brasil fazer uma operação plástica (também mencionada neste filme) por causa dos direitos de autor; ficou a meio caminho entre um Ewok, um urso de peluche e um cão. Tem ascendência na Bairrada e no Brasil, onde tem uma avó que vive em Cachoeira Paulista.

No fundo, é um velhote rezingão com risos matreiros e laivos de malícia. “Tem aquele conservadorismo do nosso avô, que vemos com carinho. Não é o militante de extrema-direita, até porque é um conservadorismo meio naïf, não há nada para odiar, é um cota. Não gosta do vizinho que faz barulho, nem dos cachopos, dos estudantes que andam à noite a fazer barulho. Agora já está entradote, mas quando era garoto também já era chico-esperto”, descreve quem lhe dá voz.

O limite do riso

É intrincada a tarefa de perceber o que torna Bruno Aleixo tão engraçado (para alguns); há também quem não goste e quem lhe seja indiferente. “Isto nunca foi feito para toda a gente, é humor de nicho”, assume João Moreira. “Há muita gente que não gosta nem odeia, mas também não se dá ao trabalho de se pronunciar. Quem se pronuncia são os fãs e os haters – que são cada vez menos –, mas quem gosta mais ou menos não vai perder o seu tempo a fazer login no YouTube para dizer ‘gosto mais ou menos’”. 

Passado o ponto médio da narrativa, parece que o efeito cómico do silêncio intermitente estagna, assim como das ideias que “nem lembram ao menino Jesus”, como poderia dizer Bruno Aleixo, mas o filme consegue cumprir o desafio de trespassar o seu humor conciso para a hora e meia dos grandes ecrãs. João Moreira confessa que é difícil manter a graça durante todo esse tempo. É fácil rir-se ao início, mas para voltar a ser surpreendido não basta uma piada semelhante. “Em filmes de comédia, temos de ser surpreendidos constantemente. É provável que as pessoas digam ‘estava engraçado mas no fim já não tinha tanta graça’. É mesmo assim”, acredita. 

É um filme que goza com as suas próprias cenas longas, um filme em que o mau se chama Mau, em que a publicidade é denunciada assim que tenta entrar despercebida. Faz recurso a lugares-comuns do cinema, sem descurar a imprevisibilidade e aleatoriedade associada a Bruno Aleixo. Quando parece que a conversa já acabou, o tema volta à baila, com a candura de uma criança que não consegue admitir que perdeu e que não consegue deixar de pensar naquilo que a apoquenta.

Além de Rogério Samora e Adriano Luz, o filme conta “com outros gajos”: Gonçalo Waddington, José Raposo, José Neto, João Lagarto, David Chan Cordeiro, Fernando Alvim. Além dos comparsas de Aleixo e de Manuel Mozos a fazer de Aires (do café, claro está), há ainda uma esfregona assassina. O elenco é quase inteiramente masculino, o que João Moreira diz ser “circunstancial”, já que sempre foram eles que deram as suas vozes aos bonecos; como a maior parte dos actores estão a representar essas quatro personagens iniciais, acabam por ser figuras masculinas a dominar o ecrã.

Adriano Luz e Rogério Samora O SOM E A FÚRIA

O filme será exibido nos “cinemas de jeito deste país”, como escreveu Bruno Aleixo no Twitter. Para já, estão confirmadas 18 salas em Portugal (seis na zona de Lisboa e três na região do Porto) e outras 18 no Brasil. O filme foi apresentado na 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo e também esteve em antestreia no festival Porto/Post/Doc e em Anadia, onde foi gravada grande parte da acção. Não se afasta da cultura televisiva: depois da estreia nos cinemas, o filme será adaptado para televisão, com exibição prevista para daqui a um ano na SIC Radical.

Adriano Luz como Bruno Aleixo O SOM E A FÚRIA

Sotaques e gelados de bolacha mole

Os criadores acreditam que o fenómeno Bruno Aleixo chega a todo o país, apesar de se apoiar no imaginário, nas idiossincrasias e em expressões da Beira Litoral. “Não é preciso conhecer-se o café do Aires para se saber que há um café como o do Aires noutras terras, para se saber que há alguém que desliga a arca durante a noite. Todos nós já comemos cornetos com a bolacha mole”, brinca João Moreira. “Quem for de Faro ou quem seja de Trás-os-Montes não conhece aquilo de que falamos, mas conhece coisas análogas.” Os criadores reconhecem que pode haver uma estranheza inicial não apenas pela morfologia singular de Bruno Aleixo, mas também pelo seu sotaque. “Ainda há o estigma com sotaques de quem se desvia um bocadinho do sotaque padrão, assume-se logo que é assim meio parolo”, admite João Moreira. Pedro Santo acredita que deve ser ainda mais estranho para quem ouve as vozes na rádio — os programas passam na Antena 3 —, sem qualquer contexto.

João Moreira mora em Coimbra, Pedro Santo em Lisboa. O trabalho é feito em conjunto, mas à distância. “A Internet torna tudo fácil”, dizem. João Moreira chegou a mudar-se para Lisboa para tentar conciliar a escrita dos episódios de Bruno Aleixo com o seu co-criador. “O que acontecia era que às vezes nos encontrávamos para almoçar ou tomar café e depois quando era para escrever cada um ia para sua casa”, recorda. Acabou por regressar a Coimbra.

Mesmo sem fazerem por isso, o fenómeno chegou ao Brasil e a fama foi-se amontoando do outro lado do Atlântico, onde se acha piada sobretudo ao sotaque e a esta forma de se ser português – até Gregório Duvivier, do colectivo humorístico Porta dos Fundos, adora o boneco e diz saber muitas das suas falas de cor. O fascínio fez ainda com que a canção de genérico da série Aleixo Psi (de 2017, em que se conhece um bocadinho mais de Bruno Aleixo nas suas sessões de psicoterapia) fosse gravado por duas fãs brasileira – não foi encomendada, foi gravada bem antes de a série ir para o ar. Algumas piadas perdem-se pelo meio. “Há a barreira do sotaque e das expressões idiomáticas diferentes, no Brasil o filme é todo legendado. As pessoas são diferentes, a cultura, as referências, não sabem quem são os actores famosos cá, não sabem quem é o Alvim”, conta João Moreira.

“Tentámos não fazer o filme para pessoas que nunca viram, tentámos que a coisa não fosse sobre-explicada”, diz Pedro Santo. O processo cinematográfico é mais moroso: além dos concursos para obter financiamento, “há uma série de procedimentos não só de produção mas também de pós-produção”, argumenta João Moreira — grande parte das vozes precisa de edição, por exemplo. Mas as diferenças são sobretudo a nível de guião, já que “não se pode fazer um vídeo de 90 minutos, há que agarrar de outra maneira.” Saber se o filme agradará ao público é ainda uma pergunta sem resposta. E se não gostarem? Bruno Aleixo seria lacónico: “A mim que me importa.”