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Crónica

Peter Handke, a Eslovénia e a questão jugoslava

Em 1992, o ensaísta João Barrento publicou nas páginas do PÚBLICO três textos à laia de folhetim sobre o agora Prémio Nobel da Literatura 2019, Peter Handke, que agora republicamos.

Desde o Verão passado e do início da crise jugoslava que se vem desenrolando um folhetim em que o actor principal é o “novo” Peter Handke. Um Handke que, depois dos últimos retiros em terras de Espanha, dos quais resultaram dois “Ensaios” autocontemplativos (sobre o cansaço e sobre a “jukebox"), resolveu sair da torre de marfim, assentou arraiais na civilização e, à sua maneira, decidiu-se — quem o diria? — a intervir activamente (entenda-se: pela pena, que não pela espada) na vida política... jugoslava. Escreve em jornais, dá entrevistas, subscreve apelos políticos, publica um livrinho sobre a crise na Jugoslávia, tudo isto desde o verão de 1991.

A intriga do folhetim que se segue é, assim, de recorte eminentemente político, e tem como referência central a questão jugoslava e os problemas dos novos Estados independentes, ou em vias disso, particularmente a Eslovénia. Porque com a Eslovénia tem Handke — e isto talvez seja novidade para o leitor português — relações muito especiais, que talvez só Freud possa ajudar a explicar. É delas que trata esta história. Uma história que, embora à superfície pareça política, se passa realmente nos terrenos desde sempre habitados por Peter Handke: os campos míticos da bela aparência estética, à volta da torre, os únicos por onde o ex-eremita afinal se tem passeado. Vendo bem, não houve, por isso, propriamente saída da torre, apenas a passagem de uma para outra, da de marfim para a de uma névoa artificial com que Handke envolve as suas origens e a sua nostalgia de uma Eslovénia que já não existe.

Mas para entender tudo isto teremos que remontar um pouco atrás, às origens biográficas deste escritor que se diz austríaco "malgré lui et tout", publica na maior casa editora da Alemanha, vive em Paris e podia ter nascido esloveno se a História, que ele diz odiar, não tivesse intervindo para evitar tal desgraça. Porque então — e digo-o sem cinismo — teríamos perdido alguns grandes livros da literatura contemporânea.

Primeiro episódio: as Mães

Peter Handke veio ao mundo, durante a Segunda Guerra, num desses lugares híbridos da Europa Central, uma aldeia da Caríntia eslovena, desde 1920 austríaca por referendo, e desde sempre um dos bastiões do fascismo e do neofascismo na Áustria. A mãe era eslovena, o pai soldado alemão, e o menino aprendeu cedo a admirar a língua e a tradição cultural do lado paterno, e a envergonhar-se, como ele próprio confessa, da sua herança materna, da língua eslava “cujos sons primitivos eram uma tortura para os meus ouvidos”. E, no entanto, a Eslovénia haveria de tornar-se — e é essa a matéria de que se faz este folhetim — uma obsessão mítica e lugar de nostalgia e regresso do filho pródigo, já célebre no Olimpo das letras, décadas mais tarde. À mãe, que acabaria por se suicidar, levantaria Handke apesar de tudo um monumento, num dos seus mais interessantes livros, Wunschloses Unglück ("Tragédia da Indiferença”, numa tradução livre), que me lembro de ter visto dramatizado numa impressionante encenação do Burgtheater de Viena, em Dezembro de 1980. As raízes eslovenas, a “causa da mãe”, transformar-se-iam mais tarde, e até ao começo deste folhetim, em causa própria. Em Julho de 1991 escreve Handke no jornal de Munique Süddeutsche Zeitung: “A Eslovénia e os dois milhões de almas do povo esloveno foram para mim uma das poucas coisas/causas (em alemão a palavra é a mesma!) a que associava o pronome ‘minhas': coisa minha eram-no, não como coisa que eu possuísse, mas enquanto coisa/causa da minha vida”.

É assim que, escritor “alemão” já famoso e, mais que famoso, mitificado, Handke reencontra, relativamente tarde, mas não tarde de mais para as explorar literariamente, estas suas raízes centro-europeias que agora, fora das fronteiras da sua odiada aldeia austro-eslovena, lhe acrescentavam um halo exótico, aquele pequeno grão da diferença que ainda é receita (no duplo sentido do termo) segura na feira da cultura europeia. Também esta intuição — Handke é um escritor da intuição e de intuições ("Pensar? É questão de sorte!") — haveria logo de ser transformada em mais-valia literária.

Peter Handke redescobre a Eslovénia anos antes da abertura recente do Leste europeu, viaja pela Jugoslávia e interioriza uma imagem que teria a sua mitologização final no romance Die Wiederholung, publicado em 1986, e que lhe traz, não apenas um importante prémio literário esloveno, como também um lugar na Academia dessa república jugoslava. Os escritores eslovenos revelam-se generosos para com o “irmão” do outro lado, que no romance transformara a Eslovénia, para ele aí sinónimo de Jugoslávia, na terra dos seus sonhos. Tito assume para o apolítico Handke o papel de figura tutelar do Pai (sic) que garante a unidade da família e a protege das influências nefastas do capitalismo (que, no entanto, lhe deixa nas praias do Adriático as tão cobiçadas divisas), fazendo da sua Eslovénia/Jugoslávia um mítico “Estado das carências positivas”, uma realidade pobre, mas “autêntica”, longe das odientas vacas gordas, mas balofas, da abundância ocidental — no meio das quais, obviamente, Handke sempre viveu, se em estilo ascético, se à grande e à francesa (há anos que vive de novo em Paris), não sei, nem é isso que importa agora. Mas tudo isto me lembra um outro grande escritor do espaço alemão, esse assumidamente de esquerda, que, pela mesma altura, descrevia Portugal, num livro dedicado à Europa ("Ah, esta Europa!"), como um lugar onde — graças a Deus, ou a Salazar — as coisas que já não se vêem em mais lado nenhum continuam a ser o que eram, para que os Enzensberger que nos visitam possam escrever pitorescamente sobre elas e os turistas regalem os olhos e as máquinas fotográficas com cenas de épocas pré-diluvianas (isto mesmo escrevia, ainda há poucas semanas, o semanário Die Zeit sobre o país que acaba de assumir a presidência da CEE).

Também a admiração do “Titoismo” leva Handke — como é isto possível, num escritor da sua sensibilidade estética? —​ a entusiasmar-se com as misérias e os atrasos do socialismo real jugoslavo, que lhe possibilitam o gozo etéreo de estar a (re)viver “coisas reais”, uma “realidade de conto de fadas” (a expressão é do próprio Handke) que parou no tempo, e que por isso tanto significa para um autor que odeia a História e gostaria que tudo ficasse no "hic et nunc” dessa Eslovénia jugoslava onde, “em vez da confusão de formas que enche as padarias na Áustria, que lembram por vezes os cadáveres enrolados em cambalhotas numa vala comum”, graças a Deus — ou a Tito — só há uma variedade de pão branco!

Perdido no seu devaneio revivalista, o protagonista do romance de Handke deambula pelo planalto calcário do “Carso” esloveno, no "hinterland" de Trieste e da península da Istria, imaginando ver nos habitantes os Maias da Jugoslávia, a quem chama “Índios do Carso”. Um António Reis da literatura, com a diferença essencial de que Handke não é esloveno, nem tem com os “Índios” do Carso aquela relação visceral de António Reis com Trás-os-Montes — explora-os enquanto matéria para turismo literário. Escritores do “Carso”, como o triestino esloveno Scipio Slataper (em Il mio Carso, 1912), poderão literarizar essa paisagem, têm mesmo de certo modo o direito de a transfigurar em tons sentimentais literariamente duvidosos ("O Carso é um terrível grito petrificado; mas se uma palavra nascer em ti, beija o tomilho selvagem que extrai vida dessas rochas”, etc.). Porque esses estão em casa, e não têm pretensões a transformar visões de sonhador saudosista em obras para a posteridade.

Nesse planalto esloveno encontra-se, num lugar com o nome de Vilenica, um sítio fascinante, um enorme buraco na rocha, que a Associação Eslovena de Escritores transformou num ponto de encontro de escritores de toda a Europa, em particular da “Central”. Na imaginação prodigiosa de Handke, essa gruta literária iria transformar-se num antro de conspiradores que prepararam o fim da idílica “pax jugoslava” e da sua Eslovénia para uso próprio, pacóvia e tranquila como alguns filmes “português suave” de António Lopes Ribeiro. Disso se falará no próximo episódio, que desde já anunciamos com o misterioso e prometedor título “Os crimes da gruta”. 

Segundo Episódio: Os Crimes da Gruta

Os encontros de Vilenica reuniam escritores de toda a Europa Central e Ocidental, cultivando o pluralismo e preparando uma renovação democrática através da consciencialização dos valores culturais próprios das várias regiões dessa “Europa Central”, que aí não se reduzia, como Handke disse mais tarde, a um conceito de meteorologia. Handke era recebido de braços abertos. O ano passado não aceitou o convite — e acusou os escritores eslovenos de “sujarem as mãos na política” com os encontros. 

Íamos nós contando como o escritor Peter Handke inventou uma Eslovénia para uso literário pessoal, e como um belo dia transformou uma fantástica gruta do planalto do “Carso” em sinistro antro de criminosos. As suas intenções eram as melhores: queria preservar e defender os “Índios” locais. Os eslovenos da civilização — os intelectuais e escritores de Liubliana e Maribor —, gratos por toda a atenção que alguém de fora lhes prestava, entronizaram, nessa precisa gruta, Handke e o seu romance de temática eslovena, uma contrafacção daquelas Cartas do Retornado do seu compatriota Hofmannsthal, mas de sinal contrário: enquanto para o autor daquela outra célebre Carta, a de Lord Chandos, as coisas no país a que regressa deixaram de ter consistência e tudo se lhe esboroa entre os dedos, para Handke a Eslovénia e o seu “Carso” são o único lugar do mundo onde as coisas têm “realidade”. Dir-se-ia que Peter Handke virara realista. Pura ilusão: o livro é uma história puramente mitológica, com criaturas em vias de extinção no planalto rochoso. Apesar disso, Handke é recebido de braços abertos, deram-lhe um destaque maior do que aos próprios autores nacionais na nova Enciclopédia Eslovena, os encontros anuais da gruta de Vilenica sentem-se honrados com a sua presença, certa até 1990, dão-lhe um prémio por esse romance. Mas entremos na gruta.

Os encontros de Vilenica reuniam, já no tempo da Cortina de Ferro, escritores de toda a Europa Central e Ocidental, cultivando o pluralismo num país fortemente centralizado e preparando uma renovação democrática através da consciencialização dos valores culturais próprios das várias regiões dessa apagada “Europa Central”, que aí não era mera conversa de salão, nem se reduzia, como Handke depois viria a dizer cinicamente, a um conceito da meteorologia. O regulamento do prémio literário que a Associação Eslovena de Escritores ali atribui todos os anos em Setembro é claro. Aí se diz que ele contempla “obras excepcionais surgidas adentro do espaço cultural da Europa Central e que, com uma qualidade estética convincente, dêem expressão a experiências humanas e culturais das nações do Báltico ao Adriático e de Berna a Belgrado. Este espaço não deve, porém, ser entendido em sentido estritamente geográfico, mas antes como terreno artístico e intelectual dessa Europa, marcado pela tolerância, a não agressividade, a compreensão mútua e o pluralismo, ou seja pelo princípio da integração da diversidade, e a sua força artística vital exprime-se e forma-se nas obras de reconhecido mérito dos criadores que vivem nesse grande espaço”.

Vilenica é um entre muitos festivais, encontros, prémios, por essa Europa fora. Mas tem este lado particular que é o de não se chegar lá e só ver/ouvir caras e nomes de monstros sagrados "déjà vus” e "déjà lus” (que, no entanto, também por lá têm passado). Quase tudo é novo e fresco, os textos que se ouve ler soam a línguas do fim do mundo, agora cada vez mais próximo, que não entendemos, que nos intrigam e nos deixam curiosos para a leitura em tradução: húngaro, esloveno, checo, lituano... Aparecem editores eslovenos (de quem Handke irá dizer que eles praticamente não existem), um deles, o da casa com o exótico nome de Pomurska Zalozba, tem no seu catálogo, entre os títulos mais recentes, a par de autores locais e austríacos, lapões, lituanos, e de nomes corriqueiríssimos em qualquer parte do mundo dito civilizado (de Shakespeare e D. H. Lawrence a Joyce Carol Oates e Isabel Allende) — adivinhe-se quem (e em esloveno!): literatura do Brasil, de Cabo Verde (o Chiquinho de Baltazar Lopes), e Os Cus de Judas de Lobo Antunes, numa bela edição encadernada e acompanhada de um ensaio informadíssimo de Ilse Pollack, grande conhecedora e amiga de Portugal e da sua literatura, austríaca de língua afiada e olhar crítico a quem, aliás, agradeço muita informação para este folhetim.

A gruta de Vilenica é um lugar de surpresas constantes. Os laureados tanto podem ser nomes sonantes (Peter Handke, em 1987, não tanto como representante de uma Áustria que também renegou há muito, antes como autor de uma Caríntia meio eslovena e do dito romance mitificador), como também autores jamais vislumbrados nas costas literárias portuguesas: o triestino Fulvio Tomizza, o jovem húngaro Peter Esterházy (um nome a fixar, alguns vêem nele — ironia do destino! — o Handke da Hungria), o poeta checo Jan Skácel. Mas a participação tem sido, desde 1986, notável em termos do mundo literário centro-leste-europeu: pela gruta passaram e leram/discutiram, entre muitos outros, Claudio Magris e Danilo Kis, Zbigniew Herbert e o best-seller austríaco Cristoph Ransmayr (saiu em português o seu melhor romance, O Último Mundo, uma história fabulosa a partir das Metamorfoses de Ovídio) e o consagrado suíço Adolf Muschg, ignorados autores húngaros como o citado Peter Esterházy e o poeta Sándor Csoór, ao lado de prosadores já conhecidos cá, como Christoph Hein, de Berlim, ou Bohumil Hrabal, de Praga.

Lisboa num buraco telúrico

A lista é de peso e, de tão diversa, insuspeita de conspiração. Ainda há dois anos, o Tejo, a Baixa, Alvaro de Campos e Bernardo Soares entraram na gruta de Vilenica pela mão e pela voz de Tabucchi. Foi num daqueles belos textos melancólicos, bem no espírito da cidade branca-parda-rosa-velho, como a sabe ver e evocar (bem melhor do que Enzensberger) este italiano convertido ao seu sortilégio. Tabucchi levou então a Vilenica um dos contos de O Jogo do Revés, entretanto saído em português. Estranha e reconfortante, esta sensação de rever uma Lisboa de outrora de hoje num buraco telúrico do Carso esloveno. Fiquei então a perceber que aquilo que aí se passava tentava ser uma alternativa aos dois produtos maiores da civilização da grande Europa: o imperialismo ideológico, “bizantino-bolchevista”, do Leste, a esboroar-se, e o imperialismo cibernético-tecnocrático-liberal do Ocidente, hoje a querer ocupar o lugar que o outro deixou vazio. O fenómeno da “Mitteleuropa”, que ali se sentia no ar, poderá só existir, por enquanto e nesta sua nova fase, nos “mapas do espírito” (isso mesmo foi dito pelo poeta vanguardista de Liubliana Veno Taufer). Mas a persistência histórica de culturas, línguas e pequenas nacionalidades centro-europeias volta a ser uma realidade múltipla e diversa para a qual, ou contra a qual, não há, para já, soluções fáceis nem únicas.

Onde está então o crime da gruta? Qual destes escritores, mais ou menos conhecidos, é criminoso a abater? Por que razão andou o Senhor Handke anos a fio pela Eslovénia, e por esta gruta, aceitando honrarias e deliciando-se com a “saborosa insignificância” das coisas da “sua” Jugoslávia? Numa entrevista ao jornal vienense Der Standard, de 11 de Novembro passado, diz que se enganou, que não levou as coisas a sério, que alguém devia ter intervindo nesses “encontros de poetas encenados para a imprensa ocidental”, e de que os “irmãos sérvios” por fim foram excluídos: “Nunca percebi por que razão os sérvios de repente se transformaram nos maus da fita”.

O certo é que, no verão de 1991, quando a guerra estalou e os escritores eslovenos mais precisavam de solidariedade, Handke não aceitou o convite para ir a Vilenica. E fez mais: num gesto de incompreensível contradição, pôs-se a escrever artigos e a dar entrevistas acusando os escritores da Eslovénia de, com os seus encontros da gruta, terem sujado as mãos na política, de terem contribuído para desencadear um processo de democratização que provocou a ira da Sérvia e a guerra! Durante o período de guerra aberta contra a Eslovénia, os apelos dos escritores eslovenos terão representado, para Handke, um acto de intolerável “ingerência nos assuntos políticos do país” que um eremita da torre de marfim, escritor da melhor tradição austríaca, não podia tolerar.

E que faz, entretanto, o Senhor Handke? Faz isso mesmo, mete-se igualmente na política, atasca-se em contradições, renega também a grande Mãe tardiamente descoberta (a Eslovénia inexistente que sonhara), despede-se dela e lamenta a ruína da casa comum construída à força pelo Pai Tito com materiais todos sintéticos, põe tudo isso num longo artigo que logo se transforma em livro, ainda que minúsculo. O empório Suhrkamp percebe — estamos em Setembro de 1991 — que a questão jugoslava está para lavar e durar, que o nome soante de Handke promete bom negócio, e em Outubro o livrinho está nas livrarias, o êxito assegurado à partida. O artigo e o opúsculo suscitaram as mais diversas reacções, tiveram apoiantes e opositores na Jugoslávia, na Áustria, na Alemanha. Representam uma viragem paradoxal em Handke, talvez mais aparente que real. Merecem, por isso um novo e último episódio neste folhetim, a que daremos o título de “O paraíso perdido”.

Ter­cei­ro e úl­ti­mo epi­sódio : O paraíso perdido

O que res­ta pa­ra con­tar da his­tó­ria das re­la­ções re­cen­tes de Pe­ter Han­dke com a sua Es­lo­vé­nia mí­ti­ca diz-se num epi­só­dio bre­ve, mas que po­de ter um sen­ti­do exem­plar, e co­lo­ca uma ques­tão de fun­do so­bre o fu­tu­ro in­cer­to dos no­vos Es­ta­dos da Eu­ro­pa Cen­tral e de Les­te: até que pon­to es­tão os nú­cleos “na­cio­na­lis­tas” re­gio­nais, ou mes­mo as no­vas/ve­lhas na­ções his­tó­ri­cas ago­ra re­nas­ci­das, em con­di­ções de as­su­mir e man­ter a con­di­ção de Es­ta­dos mo­der­nos? O pro­ble­ma é con­tro­ver­so, a evo­lu­ção da ac­tual si­tua­ção im­pre­vi­sí­vel, mas não creio que se pos­sa ne­gar a al­guns des­ses po­vos o di­rei­to de ten­tar cor­ri­gir uma Eu­ro­pa tor­ta e ar­ti­fi­cial nas­ci­da das am­bi­ções ter­ri­to­riais da Guer­ra e dos er­ros de Ialta.

            Pa­ra Han­dke, po­rém, e no que se re­fe­re à Es­lo­vé­nia, a ques­tão é sim­ples, por­que abor­da­da de for­ma sim­plis­ta. No opús­cu­lo pu­bli­ca­do em Ou­tu­bro pas­sa­do, com o mes­mo tí­tu­lo do po­lé­mi­co ar­ti­go que lhe deu ori­gem (O So­nha­dor Des­pe­de-se do No­no País, de­ri­va­do de um con­to po­pu­lar es­lo­ve­no), Han­dke avan­ça uma te­se que po­de re­su­mir-se mais ou me­nos nis­to: na­da, na his­tó­ria da Es­lo­vé­nia (cu­rio­sa con­tra­di­ção: a Es­lo­vé­nia tem, afi­nal, e en­quan­to tal, uma “his­tó­ria!”), le­vou es­te po­vo a que­rer tor­nar-se um Es­ta­do, nem is­so se jus­ti­fi­ca ho­je. Tam­bém ago­ra, co­mo em mo­men­tos an­te­rio­res, a ten­ta­ção foi ali­men­ta­da de fo­ra, não tem fun­da­men­to nem pés pa­ra an­dar, é me­ro pre­tex­to ou “ca­pri­cho po­lí­ti­co pós-mo­der­no” pa­ra ir­ri­tar o “país ir­mão” (a Sér­via) e en­saiar mo­de­los sui­ci­das. A Es­lo­vé­nia era li­vre, con­ti­nua Han­dke, e ti­nha iden­ti­da­de real aden­tro da Fe­de­ra­ção Ju­gos­la­va (mas que exis­tên­cia era es­sa, per­gun­to eu, se não a de um pa­raí­so ador­me­ci­do, sob a mão pro­tec­to­ra — pa­ra os es­lo­ve­nos ex­plo­ra­do­ra — do Gran­de Ir­mão, ou Pai?). E o nos­so ana­lis­ta con­clui com uma te­se fu­tu­ro­ló­gi­ca: o des­ti­no des­ses no­vos pe­que­nos paí­ses, cu­ja vo­ca­ção na­tu­ral e in­te­res­se maior se­ria o de não te­rem his­tó­ria pró­pria (por­que nas­ce­ram pa­ra ser co­lo­ni­za­dos?), é o do en­clau­su­ra­men­to e da atro­fia, en­tre “fron­tei­ras mi­na­das”, to­dos eles con­de­na­dos a trans­for­ma­rem-se em An­dor­ras dos Bal­cãs.

            Não é fá­cil en­ten­der a de­fe­sa do sta­tu quo ju­gos­la­vo por Han­dke (a não ser à luz de uma ra­cio­na­li­da­de eco­nó­mi­ca que cer­ta­men­te lhe não diz na­da, ou de um lou­vá­vel de­se­jo de paz, que de­via ser pos­sí­vel por ou­tros ca­mi­nhos), por­que ele não dá ar­gu­men­tos ra­cio­nais, e quer à vi­va for­ça ig­no­rar a His­tó­ria, in­cluin­do a mais re­cen­te da Ju­gos­lá­via, que não pou­cos in­te­lec­tuais es­lo­ve­nos e croa­tas vêem co­mo um pe­sa­de­lo. As suas ra­zões são pu­ra­men­te sen­ti­men­tais e in­tui­ti­vas, e só se lhes po­de che­gar por via psi­ca­na­lí­ti­ca. Mas se a guer­ra e o chau­vi­nis­mo não re­sol­vem a com­ple­xa si­tua­ção da Eu­ro­pa do Les­te, is­so não im­pli­ca que te­nham que se man­ter di­vi­sões im­pos­tas e tam­bém elas ge­ra­do­ras de con­fli­tos. O pró­prio Han­dke — e es­ta é mais uma con­tra­di­ção — subs­cre­veu, pou­co tem­po de­pois de pro­pa­gan­dear as te­ses que ve­nho a re­fe­rir, um do­cu­men­to em que al­guns es­cri­to­res ape­la­vam aos “po­vos ju­gos­la­vos” (o que quer que se­ja que is­so sig­ni­fi­que), no sen­ti­do de po­rem ter­mo à ven­detta sem fim a que se en­tre­ga­ram. A ideia do­mi­nan­te des­se ape­lo do Le Mon­de (que o PÚ­BLI­CO re­pro­du­ziu, 22/11/ 91) não é a da ma­nu­ten­ção do es­ta­do de coi­sas, mas an­tes a da pro­cu­ra de saí­das no­vas, de no­vos mo­dos de te­cer os fios da coe­xis­tên­cia. Só quem nun­ca an­dou por es­ses lu­ga­res te­rá ain­da di­fi­cul­da­de em en­ten­der que as ra­zões dos na­cio­na­lis­mos e dos sur­tos iden­ti­tá­rios são mui­tas e di­ver­sas, e não po­dem re­du­zir-se à fór­mu­la sim­ples pro­pos­ta pe­lo arau­to do “fim da His­tó­ria"e do iní­cio da vi­da eter­na no pa­raí­so neo­li­be­ral, Fran­cis Fu­ku­ya­ma (em en­tre­vis­ta ao Ex­pres­so, 14/12/91): nem as for­mas de na­cio­na­lis­mo se di­vi­dem li­mi­nar­men­te en­tre as do Oci­den­te (nas­ci­das do pro­ces­so de in­dus­tria­li­za­ção e con­de­na­das a ser ero­di­das pe­la in­te­gra­ção eco­nó­mi­ca) e as do Les­te ("Na­cio­na­lis­mos mui­to no­vos"? E “in­te­res­san­tes” por­que “se po­dem tor­nar mui­to vio­len­tos, co­mo na Sér­via"?!), nem tam­bém a Eu­ro­pa Cen­tral e de Les­te te­rá ne­ces­sa­ria­men­te de se orien­tar por mo­de­los pri­mei­ro­mun­dis­tas que apre­sen­tam o neo­li­be­ra­lis­mo co­mo sof­twa­re uni­ver­sal­men­te “com­pa­tí­vel”, tam­bém com o har­dwa­re dos no­vís­si­mos na­cio­na­lis­mos. Os “no­vos na­cio­na­lis­mos” do Les­te irão pro­va­vel­men­te que­rer re­cu­pe­rar eta­pas per­di­das, ape­sar de te­rem ao seu dis­por a “li­ção da His­tó­ria"(que é a his­tó­ria dos ou­tros), por­que a maior par­te de­les nem a li­ção do ve­lho li­be­ra­lis­mo che­gou a po­der apren­der. Mas não es­tá es­cri­to que te­nha de ser as­sim, por­que as si­tua­ções são mui­to di­ver­sas e ca­da um tem os seus trau­mas his­tó­ri­cos pró­prios, os hún­ga­ros o seu Tria­non, es­lo­ve­nos e croa­tas a som­bra da he­ge­mo­nia sér­via, li­tua­nos e es­to­nia­nos a me­mó­ria de Bres­t-Li­tovsk e de Ribben­tropp-Es­ta­li­ne, os po­la­cos a an­ces­tral “sín­dro­me da san­duí­che” (en­tre Teu­tões e cza­res)...

            O pés­si­mo ana­lis­ta po­lí­ti­co Pe­ter Han­dke, que não aban­do­na o olhar do es­te­ta, la­men­ta nos­tal­gi­ca­men­te tu­do o que acon­te­ceu, mas não pa­re­ce mui­to in­te­res­sa­do em pro­cu­rar as ra­zões que ex­pli­cam o es­ta­do da Eu­ro­pa no pós-co­mu­nis­mo. Pre­fe­re re­cor­dar, e so­nhar com uma Es­lo­vé­nia que era “real” por­que pa­re­cia não ter cons­ciên­cia de si, era co­mo um “Por­tu­gal dos Pe­que­ni­nos”, uma das “ca­sas por­tu­gue­sas” dos Sa­la­za­res de Bel­gra­do (mas, Se­nhor Han­dke, os es­cri­to­res iam às de­ze­nas pa­ra a pri­são, as re­vis­tas eram proi­bi­das, a cor­res­pon­dên­cia vio­la­da, tu­do con­tro­la­do a par­tir da ca­pi­tal!). Um so­nho bem real, que ser­via às mil ma­ra­vi­lhas os in­te­res­ses es­té­ti­cos do so­nha­dor. Mas um dia o so­nho foi aba­la­do, e na­da po­de­rá vol­tar a ser co­mo era no “No­no país” da len­da. E o so­nha­dor não quer en­ten­der is­so, e in­sis­te na sua vi­são de uma Es­lo­vé­nia co­mo pri­va­tis­si­mum han­dkia­num que lhe po­de­rá for­ne­cer ma­té­ria pa­ra mais um “En­saio so­bre o pa­raí­so per­di­do”.

            O que Han­dke pa­re­ce não ter per­ce­bi­do, e não quer per­doar aos es­lo­ve­nos, é que o que es­tá em ques­tão não é um ca­pri­cho de al­gu­mas re­pú­bli­cas ju­gos­la­vas que que­rem ter um Es­ta­do só pa­ra si. A ques­tão não é o Es­ta­do pe­lo Es­ta­do, mas sim um ou­tro Es­ta­do. Co­mo dis­se o es­cri­tor es­lo­ve­no Dra­go Jan­car, em res­pos­ta a Han­dke, “uma ma­nhã de ne­voei­ro em Liu­blia­na ins­pi­ra mais que qual­quer Es­ta­do”. Tal­vez es­te no­vo pe­que­no país ve­nha a ser um Es­ta­do mes­qui­nho, do qual mui­tos di­rão, co­mo da Suí­ça di­zia Dürrenmatt: “O que me li­ga a es­te Es­ta­do é ape­nas o pas­sa­por­te e os im­pos­tos”. Mas is­so não au­to­ri­za aus­tría­cos, ale­mães ou ita­lia­nos a di­zer, co­mo acon­te­ce des­de há cem anos pa­ra cá, que a lou­cu­ra ou a des­fa­ça­tez de que­rer criar um Es­ta­do pró­prio são boas pa­ra eles, mas não pa­ra es­lo­ve­nos e ou­tros.

            Pe­ter Han­dke ob­via­men­te não quer acei­tar aqui­lo que é já uma rea­li­da­de po­lí­ti­ca, e es­tá no seu di­rei­to de ter uma opi­nião. Mas de­li­ra e vai lon­ge de mais em ter­re­nos que, co­mo es­cri­tor, de­ve­ria co­nhe­cer me­lhor: não só so­nha, co­mo men­te des­ca­ra­da­men­te. Na gran­de en­tre­vis­ta que deu ao jor­nal vie­nen­se Stan­dard (1/11/91), na se­quên­cia da pu­bli­ca­ção do li­vri­nho so­bre a des­pe­di­da do país das fa­das, o so­nha­dor não só rea­fir­ma que a Es­lo­vé­nia nun­ca foi, e por is­so não de­ve­ria ser ho­je, um Es­ta­do, não se li­mi­ta a in­sis­tir na sua fic­ção de um país que, por es­tar “fo­ra da his­tó­ria”, se lhe afi­gu­ra­va tão real, co­mo tam­bém ne­ga que exis­ta aí uma vi­da cul­tu­ral e uma li­te­ra­tu­ra! A ga­fe ou a má-fé são de tal di­men­são e tão ri­dí­cu­las que pro­vo­cam lo­go um sor­ri­so a quem co­nhe­ça mi­ni­ma­men­te Liu­blia­na e Bel­gra­do, e com­pa­re a vi­da cul­tu­ral e li­te­rá­ria nas duas ci­da­des nos úl­ti­mos 15/20 anos. Bel­gra­do é um lu­gar cin­zen­to, que do es­plen­dor do seu no­me (que quer di­zer “ci­da­de bran­ca") não tem na­da, co­mo na­da tem de gran­de ca­pi­tal cul­tu­ral. Liu­blia­na, em con­tra­par­ti­da, fer­vi­lha há anos de vi­da li­te­rá­ria, de “mo­vi­da” mo­der­na, de van­guar­das ar­tís­ti­cas. Pa­ra Han­dke, po­rém, a li­te­ra­tu­ra es­lo­ve­na é só “fol­clo­re ran­ço­so”, e as li­vra­rias de Liu­blia­na são um de­ser­to on­de a li­te­ra­tu­ra es­tran­gei­ra não apa­re­ce e on­de, com al­gu­ma sor­te, se en­con­tra­rá, quan­do mui­to, um atlas — on­de cer­ta­men­te a “sua” Es­lo­vé­nia não fi­gu­ra! O se­nhor Han­dke pa­re­ce, na ver­da­de, ter pas­sa­do ape­nas em so­nho por es­tas pa­ra­gens. Bas­ta pen­sar na obra edi­ta­da de uma fi­gu­ra ab­so­lu­ta­men­te pos­ses­sa e en­ci­clo­pé­di­ca co­mo é o tra­du­tor e po­lí­gra­fo Jan­ko Mo­der, um gé­nio que ver­teu pa­ra es­lo­ve­no, de mais de vin­te lín­guas (en­tre elas o por­tu­guês e o ga­le­go), cen­te­nas de au­to­res re­pre­sen­ta­ti­vos da li­te­ra­tu­ra uni­ver­sal. Ou en­tão lan­çar um olhar ao ca­tá­lo­go de uma edi­to­ra mé­dia co­mo a Po­murs­ka Za­loz­ba, e pas­mar: não há con­ti­nen­te que não es­te­ja aí re­pre­sen­ta­do, não há lín­gua li­te­rá­ria — do por­tu­guês ao per­sa e do ca­ta­lão ao le­tão — que não te­nha si­do trans­pos­ta ao es­lo­veno.

            Pe­ter Han­dke tem ma­ni­fes­ta­men­te di­fi­cul­da­des em se adap­tar a uma si­tua­ção eu­ro­peia que não ca­be nos seus de­va­neios de ca­mi­nhan­te so­li­tá­rio por uma Es­lo­vé­nia in­ven­ta­da. É tem­po de en­cer­rar es­te fo­lhe­tim, que trou­xe a lu­me um epi­só­dio in­fe­liz na vi­da, de res­to bem-aven­tu­ra­da, de um gran­de es­cri­tor do nos­so tem­po, e um dos au­to­res de lín­gua ale­mã mais tra­du­zi­dos em Por­tu­gal. A consternação e a de­so­rien­ta­ção de Han­dke são com­preen­sí­veis: não é fá­cil aban­do­nar ideias fei­tas, so­bre­tu­do quan­do vêm de fun­dos ute­ri­nos, e mui­to me­nos acei­tar a per­da do pa­raí­so ou da­que­les lu­ga­res (co­muns) que por pa­raí­so se to­mam.

Estas três crónica foram publicadas no PÚBLICO em Fevereiro de 1992